A venda dos escravos que eram parte do espólio de
José Balry, em outro local do jornal, estava sendo suspensa, por ordem do juiz
da Comarca, para que os “máscaras” tivessem a oportunidade de bem receber “o
deus do machucadinho”. E o leilão seria realizado em outra oportunidade.
De
Vitória, capital do Estado, cidade empurrada pelo mar contra as encostas dos
morros de ruas estreitas, sinuosas, difíceis, apenas as narrativas “de memória”
de Amélia Mirabeau Bastos, que ouviu contar e transmitiu-nos a nós, seu
afilhado, ainda nos tempos verdes da infância, de que o nosso carnaval se fazia
antes de 1885, na rua do Rosário.”E era assim. Os moradores da rua passeavam
para lá e para cá, acompanhados por diversos violinistas. E todos muito bem
vestidos com raras fantasias vindas de Paris, a Paris nova, a Paris buliçosa, a
Paris ardente. E não a velha, fria e sem vibração e sem grandes
movimentos.Nosso povo sabia o que era ser chic. Sabe? O passeio durava horas,
até quando o tocheiro vinha ascender os lumes da rua. Aí, o povo buscava as
suas residências para o retempero. Era deslumbrante! Sabe? Eu tinha, na loja,
fregueses que falavam com muitas saudades daquele tempo”.
Corria o
ano de 1884, já pelo seu final, quando casas comerciais importantes das ruas da
Alfândega e Duque de Caxias distribuíram prospectos impressos tipograficamente,
dando conta de que haviam importado grandes novidades para os foliões e que
essas novidades estavam á disposição dos buliçosos, para a saudação, em fevereiro
do ano entrante, 1885, á chegada do deus infernal. Nos mesmos prospectos os
comerciantes introduziam outros dados de como se proceder para o conhecimento
de novos informes sobre a espera da festa. “Basta uma visita aos nossos
estoques e tudo lhe será explicado”. E daquela vez seria para valer, como
faziam crer os comerciantes. Os que se interessavam por ver de perto o estoque
ficavam sabendo detalhes dos passeios: “Seriam feitos desde a rua do Rosário
até a rua São Francisco, passando pela rua Sete, Subida do Carmo e Pereira
Pinto, com rabecas, com violas e com fantasias luxuosíssimas”. As fantasias
estavam expostas nas portas das lojas. E mais: “Haverá carroça com bandeirinhas
e fogos, na partida e na chegada, e conhaque e para os participantes”. “Os gatos
vão comer os olhos do leão”, era a frase de cumprimento do proprietário da loja
“A Capital”, da Duque de Caxias.
TEXTO DO
LIVRO “CARNAVAL CEM ANOS”, DE AUTORIA DO ESCRITOR, POETA E TROVADOR ANSELMO
GONÇALVES, Livro editado em 1985, em Vitória – ES, no Governo Gerson Camata,
pela Secretaria de Estado da Indústria e do Comércio, Secretário Hermes Laranja
Gonçalves, com apoio da Emcatur.
O
CARNAVAL CAPIXABA
Por Hermógenes Lima Fonseca
O Carnaval de Vitória tem sua
história de altos e baixos acompanhando, naturalmente, as condições
econômicas e culturais. Do bate-moleque e do entrudo, foi tomando
suas formas. Dos limões de cheiro e bisnagas surgiram os
lança-perfumes e os bailes à fantasia. Houve, inicialmente, o
período das grandes sociedades, com seus carros alegóricos puxados a
cavalo. Foi o tempo da Fênix carnavalesca e do Pierrot, quando o
pessoal da alta sociedade participava. Destaca-se nesse período a
presença da Casa Cruz, uma empresa dos Cruz Sobrinho, que marcou
época. Quando surgiram os automóveis de capa de lona, os fordecos,
apinhados de gente jogando serpentinas e confetes, era o chic. Todo
mundo saía às ruas para ver o corso.
O
último baile do Pierrot foi no antigo Cine Central, ao lado do Hotel
Capitólio, que tinha, no andar térreo, a casa Morgado Horta. O Cine
Central depois se transformou em armazém de café e ficava onde é
hoje o edifício das Repartições, na avenida Jerônimo Monteiro. Além
dessas sociedades, tínhamos ainda a "Flor da China", o "Flor do
Abacate", o "Resedá". O "Flor da China" era do pessoal dos
Nascimento, uma família numerosa e tradicional que residia na
Capixaba. Eram grandes festeiros, pois além dos congos, eram
organizadores também das Marujadas. Nos desfiles dos três dias de
Momo, havia os grupos musicais, como o "Centenário", surgido em
1922, os "Sururus", que a última vez que desfilou foi cantando a
marcha Na Pavuna... Na Pavuna..
Ainda
desfilava pelas ruas o Grupo Musical "Mocidade". Antes, porém,
existiam dois grupos famosos "Morcegos" e "Diabos em Folia", que se
encontravam na rua Duque de Caxias, que era a principal e a mais
movimentada, apesar de estreita como é até hoje. Nesse encontro o
pau comia, era briga na certa. Seus componentes eram o pessoal da
Estiva e Docas, trabalhadores da firam Antenor Guimarães ou, como
diziam, o pessoal do "bravo meu mano". Acontece que, em um desses
encontros de brigas e das fantasias do Diabo com chifres, o bispo
diocesano pediu ao chefe de polícia que proibisse a saída dos
"Diabos em Folia". Nas proximidades do carnaval do ano seguinte, o
pessoal se reuniu para discutir as medidas do chefe de Polícia.
Nessa época, havia um ditado popular "Está cruel. A vida está
cruel". Durante a discussão na procura de outro nome, Apesar das
várias sugestões, não chegavam a um acordo e diziam "é... está
cruel".
Até
que um dos presentes sugeriu: "Por que não botamos o nome de Está
Cruel"? Todos aceitaram e o bloco saiu com esse nome, sob a direção
de "Pedro Furão", que dançava agarradinho e com caixa de fósforo no
bolso. Às vezes, dançava-se o "Escambau", quando era permitido pelo
Cabo Queiroz, mas o "Escambau" era mesmo dançado na pensão da Aurora
Gorda, na Volta de Caratoíra. O "Escambau" foi o precursor da
Lambada, que hoje faz tanto sucesso. O "Está Cruel" deixou de
desfilar e só promovia bailes. O cabo Queiroz, apesar das sucessivas
promoções, continuou sendo chamado de cabo Queiroz ou, às vezes, até
de tenente cabo Queiróz.
OS
CONGOS
___________________
Após os bate-moleques e o entrudo,
o carnaval era iniciado pela manhã do primeiro dia, com o "Congo de
João Capuchinho", que ia da Praça 8 até o Cais Schmidt, no final da
rua do Comércio, próximo à Vila Rubim, onde havia a fábrica de
cerveja Apolo. Seus componentes eram recebidos com alegria e muita
cerveja. Cantavam eles: Oi, rei congo Rei congo é de beira-mar Rei
congo foi para a guerra Ai, meu Deus, como será Oi rei congo, rei
congo é de beira-mar. Tudo no batido dos tambores do congo. "João
Capuchinho" era serrano e grande animador das folias que organizava,
fazendo alegria da então pacata cidade de Vitória.
Eram
dois tipos por todos conhecidos: "João Capuchinho" e "Pedro Furão",
que estavam sempre à frente de tudo, inclusive nas festas
religiosas, principalmente a de São Benedito. Também os Nascimento
marcaram a sua época lá pela década de 20 a 30, satirizando os
governantes e criticando-os. Na Revolução de 30, quando o Presidente
do Estado Aristeu Aguiar fugiu a bordo de um navio italiano, fizeram
uma paródia com a marcha "Taí". Cadê Aristeu e Mirabeau Que ninguém
viu Azularam com o dinheiro do Estado E deixaram, e deixaram o povo
sacrificado. Dizem que a paródia foi de "João Capuchinho". Mas nesse
tempo, as marchas e os sambas eram feitos por diversos compositores,
não se cogitava de direitos autorais. Ninguém sabia de quem eram e
nem o autor as reivindicavam. Algumas organizações ensaiavam às
escondidas para provocar surpresas no povo que os ia ouvir.
Certa
vez, os componentes do "Diabo em Folias" mandaram um representante
ao Rio, para saber das músicas que estavam cantando e trazer para
Vitória, sob todo sigilo. Devemos levar em consideração que o rádio
estava nascendo e mal se ouvia o que se cantava, a não ser "Cabelo
não nega", que foi um estouro quando o rádio a divulgou pela
primeira vez.
AS
BATUCADAS
________________________
Com a crise de 1929 e logo
depois a Revolução de 30, com Getúlio Vargas, desapareceram as
grandes sociedades e os grupos musicais. No carnaval, saíam pequenos
grupos chamados de batucadas, que forma aumentando, tomando forma e,
então, sugiram em vários subúrbios, chegando a 12. Foi, então,
fundada a União das Batucadas e Escolas de Samba, embora não
existissem escolas de samba. A primeira a se organizar foi a Unidos
da Piedade, sob a direção de Rominho, na Fonte Grande, que esteve no
Rio, aprendendo o ritmo dos surdos e tamborins.
Na
Fonte Grande, foram formadas duas batucadas, sendo que em um
carnaval, na subida do morro, na rua 7 de Setembro, as duas se
encontraram e o pau comeu solto, numa briga tremenda. No ano
seguinte, surgiu o "Chapéu do Lado", baseado o samba carioca. "Meu
chapéu do lado, sapato arrastando, navalha no bolso, eu passo
gingando..." A batucada "Centenário", oriunda do grupo musical com
sede em Santa Lúcia, incentivou a que outras surgissem, como a
"Santa Lúcia", a "Mocidade da Praia", a "Andaraí", a "Prazer das
Morenas", "Gurigica do Centro", além do "Império da Vila" e "São
Torquato". Cada batucada tinha sua marcha oficial, como a "Chapéu do
Lado", muito divulgada: Quem é, quem é Que vem chegando com tanta
animação? Quem é. Quem é, "Chapéu do Lado" do meu coração.
Era
só instrumento de corda e percussão, puxadas por um cavaquinho ou
banjo. "Jaime Cachacinha" puxava com seu banjo a "Chapéu do Lado".
Sob o aspecto social, o interessante era que cada uma das
organizações era dirigida por um líder, cuja família fazia parte, e
as reuniões eram feitas em sua casa. Por exemplo: "Mocidade da Fonte
Grande" era da família de Nestor Lima; "Chapéu do Lado" do seu
Eduardo e a filharada; "Centenário" da família de João da Cruz e
agregados; "Santa Lúcia" de Júlio Henrique, um estivador com o
apelido de "Júlio Tripa de Oca", com uma enorme família entre
filhos, genros e netos.
A UNIÃO DAS
BATUCADAS
_________________________
Foi por volta de 1950 que
os batuqueiros decidiram criar uma União, no sentido de congregar
todos os carnavalescos e tomar decisões para solução dos problemas,
procurando unir suas organizações, com a elaboração de estatuto para
obter personalidade jurídica e licenças da Polícia. Esse foi o
primeiro trabalho que coube a UBES.
Depois os trabalhos de
preparação dos desfiles passaram a ser também por eles mesmos
organizados. Em torno dessa organização, se congregaram, sem nenhuma
influência política que pudesse provocar a desunião, não obstante,
por fora, alguns psicopatas do golpe de 64 considerarem que era foco
de subversão.
OS CONCURSOS
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Os
primeiros concursos foram realizados na porta da redação de A
Tribuna, sob a direção de José Luiz Holzmeister, e o critério de
julgamento era simbólico. Ali mesmo se discutia qual a melhor e se
anunciava a vencedora, que recebia os prêmios e se mandava sem
protestos. Depois se achou por bem ter uma concentração no estádio
Governador Bley, com comissão julgadora, estabelecendo-se critério
quanto aos figurantes, porta-bandeira, bateria, fantasia e música.
Não havia enredo e o desfile era em ritmo de marcha. Como
esse julgamento e escolha dos julgadores deu encrenca, elaborou-se
um regulamento, estabelecendo-se regras e condições, assim como a
escolha dos jurados, quando muita confusão e protestos se
verificaram.
AS
MÚSICAS
_______________
No início, havia pouca divulgação das
músicas cariocas e só umas poucas, de grande sucesso eram cantadas
pelo rádio, como o "Seu Cabelo não Nega", que se imortalizou até
hoje. Cada batucada tinha o seu corpo de compositores, que levavam
as músicas para os ensaios. No princípio, os integrantes do
"Trapiche" e "Cais do Porto" eram os autores, aproveitando os fatos
vivenciados, como aquela de "Mulher Ingrata"
REI
MOMO
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Ninguém sabe quando e como apareceu a
figura de Rei Momo. Quem poderia dizer isso era o João Gualberto,
que faleceu no ano passado. Mas infelizmente ninguém registrou suas
memórias dos velhos carnavais. Houve vários, mas o que mais tempo
permaneceu no reinado foi Chico Mussielo, que tinha uma fábrica de
calçados na rua 7 de Setembro e era o ponto de encontro de todos os
dirigentes de organizações carnavalescas. Quando o Chico Musuelo
morreu, escolheu-se um português que tinha um bar na rua Duque de
Caxias. Mas, no dia de uma passeata pré-carnavalesca, ele não
apareceu, ficando de longe, apenas observando.
Como A Gazeta
tinha uma página dedicada ao carnaval, malhou Lázaro, o que foi
defendido pelo jornal "Ao Roncar da Cuíca" dirigido por José Luiz.
Mas fizeram-se as pazes no boteco do Lázaro e se resolveu fazer a
chegada do Rei das Arábias, com Pitomba e sua mulher Terezinha
montados no camelo e no dromedário. Foi um grande espetáculo, com
uma multidão da Capixaba à Praça 8. Outros Reis surgiram
democraticamente eleitos. As notícias dos jornais denominavam os
dirigentes carnavalescos de Lords. Era Lord João da Cruz, Lord
Nestor e tantos outros. Essa história toda, escrevendo-se os
diversos acontecimentos e rememorando-se os grupos e as famílias,
sem dúvida nenhuma, daria um interessante livro sobre a vida de
Vitória.
SÁBADO GORDO
__________________
No sábado,
véspera de carnaval, saía o pessoal do Banco do Brasil com um bloco
sujo denominado "Alegria da Vaca", à tarde, que abria o carnaval.
Depois apareceu o "Tristeza do Boi" do pessoal do DNC (Departamento
Nacional do Café), posteriormente IBC. Com a transferência de
funcionários do Banco, o "Alegria da Vaca" acabou
desaparecendo.
OS BLOCOS DE
SALÃO
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Com o desaparecimento das
grandes sociedades, o carnaval passou para os clubes Saldanha,
Vitória, Álvares Cabral e Náutico Brasil, formando os blocos de
salão com o "Solta a Negra" do Vitória. Também os rapazes e moças
organizavam seus blocos. No Saldanha, se organizou o "Bate-Papo",
que cresceu e até saiu em desfile em grande estilo. A música do
"Bate-Papo" tornou-se conhecida por todo o povo e todos a cantavam:
Bate-papo. Bate-papo, meu povo...
A música e a letra eram de
autoria de Moacyr e Clóvis Cruz. Por causa de uma briga no Saldanha,
saiu o pessoal da família Grijó, que foi para o Vitória, clube
conhecido como aristocrático, que só admitia gente da alta
sociedade. Clóvis, então, fez uma marcha com a letra: "Maria você é
mulata, como é que pode ser aristocrata", que ele, no final de sua
vida, negou ser alusiva à saída dos Grijós do Saldanha. Era cantada
pelos "Street Boys" só para provocar.
AUXÍLIOS DA
PREFEITURA
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No princípio, ninguém
cogitava em pedir auxílio à Prefeitura, pois tudo era feito com
amor. Cada participante se esforçava em fazer a sua fantasia e as
dos figurantes, conseguidos com Livro de Ouro, corrido no comércio,
onde quem assinava dava sua contribuição em dinheiro ou em material.
Só mais tarde se consignou uma verba no orçamento municipal como
auxílio para o carnaval, contando-se com a boa vontade de Adelpho
Monjardim, que era um saldanhista ligado a essas organizações, tinha
seus conhecidos e ia assistir aos ensaios. Era conhecido como "Bio"
e tinha entre seus amigos "Mané Donêncio" e outros. "Bio" chegava
aos ensaios e se sentava rodeado dos amigos. Era, sem dúvida, um
grande incentivador desse povo. O Barão no meio de seus
vassalos.
ADVENTO DAS
ESCOLAS
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Tudo começou com o
"Rominho da Fonte Grande", organizando a "Unidos da Piedade", com a
maioria do pessoal da "Chapéu de Lado". Foi uma grande novidade
naquele ano, com seu ritmo diferente e seu enredo apresentando-se
com toda a pompa. Também no Rio de Janeiro era a Mangueira, a
Estácio e outras que iniciavam o carnaval carioca, que chegou a esse
grande espetáculo, atraindo gente do estrangeiro para ver o que é
considerada a maior festa do mundo. As escolas desceram do morro
para o asfalto, a princípio na Praça 11, com suas alegorias
críticas. Mas, na ditadura de Getúlio, houve intervenção e sequer
elas podiam ser registradas com o nome de Escola. A não ser
acrescentando a expressão Grêmio Recreativo Escola de
Samba.
Os sambas só podiam ser de exaltação ao Brasil, quando
foi organizada a Federação das Escolas sob a presidência de um
coronel. O folclorista Édison Carneiro escreveu a história das
escolas desde o início, registrando que a sua origem se deu com o
ritmo das folias de reis e dos lundus com as chulatas. Várias
escolas forma organizadas pelo povo do subúrbio, seguindo as mesmas
normas das escolas cariocas, com seus enredos e alegorias.
Hoje, a preparação de uma escola de samba é uma ciência, que
envolve muita gente em cada setor, desde o enredo, os figurinistas,
os mestres de harmonia, a bateria, os preparativos pelas alas com
suas posições e seus chefes, os ensaios supervisionados, a posição
de cada ala, composta de gente de todo o tipo de atividade
profissional - médicos, advogados, professores, com suas respectivas
famílias, todos fiéis à sua escola. OS
DESFILES
___________
O carnaval capixaba nada fica
devendo aos de outros lugares. Há muitos Joõezinhos Trinta por aqui,
no anonimato. Logo após um carnaval, eles já começam a trabalhar
para o próximo. Os enredos são discutidos e estudados. Começa-se por
aí. Depois de escolhido o enredo, entram em ação os compositores,
que fazem o samba e o submetem a julgamento e, em seguida, os
figurinistas. Na Independente de São Torquato, certa vez me
procuraram para fazer um enredo folclórico e tive que proferir uma
palestra para os compositores sobre como era o folclore capixaba.
Dois deles conversaram longamente comigo e, confesso que não
dei crédito à capacidade deles de colocarem tudo em um samba. No dia
do ensaio do samba vitorioso, caí de costas pela descrição e pela
beleza do samba, concluído com o refrão: Ticumbi, ticumbi. Ticumbi
fenomenal. Ticumbi, ticumbi, de fama nacional. O desfile não é nada
fácil no seu deslocamento. Unidos da Piedade, Novo Império,
Independentes de São Torquato, Mocidade da Praia, Unidos de
Jucutuquara e todas as demais que enriquecem o desfile e passam por
uma coisa de doido. Cada ala tem o seu chefe, que conhece o roteiro.
São milhares de pessoas a se juntarem dentro de uma rígida
organização, com tempo determinado, alegorias, tudo previsto,
controlado e comandado: ritmo, som, bailado, evolução, posição de
cada ala, obediência, amor, paixão, cores da escola a serem
honradas, comissão de frente, figurantes, destaques, carros
deslizando. Tudo isso é uma grande demonstração de capacidade de
nosso povo, englobando gente de toda a espécie, onde não há
discriminação entre doutores e doqueiros, médicos com suas famílias
junto com o povaréu. É a maior demonstração de democracia.
Hermógenes Lima
Fonseca
Quem foi Hermógenes
- Criador da União das Batucadas e Escolas de Samba, Hermógenes
Lima Fonseca nasceu em Conceição da Barra no dia 12 de dezembro
de 1916 e faleceu no ano de 1996. Contador, folclorista, jornalista
e político, realizou todos os seus estudos em Vitória. Formou-se
contador pela Escola Superior de Comércio de Vitória. Folclorista,
foi um incansável pesquisador da cultura capixaba e brasileira.
Como político e membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi
eleito vereador (pela sigla do Partido Republicano, visto que
o PCB já havia voltado à ilegalidade) de Vitória com a maior votação
proporcional da história do município até os dias de hoje, obtendo
aproximadamente 10,45% dos votos válidos.
Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo,
da Comissão Espírito-santense de Folclore, na qual ocupou praticamente
todos os cargos de diretoria, atuou como membro do Conselho Regional
de Contabilidade, do qual também foi presidente; e como sindicalista
que participou da organização do Movimento Unificado dos Trabalhadores
(MUT) no estado, do qual foi 1º secretário e da Central Geral
dos Trabalhadores (CGT). Como jornalista foi colaborador, entre
outros, dos jornais "A Gazeta" e "A Tribuna" e foi diretor do
jornal "Folha Capixaba".