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História do Cinema
no Espírito Santo
Em 1926, Ludovico Percisi estreou o cinema capixaba com o filme “Bang Bang” e até “A fuga”, de Saskia de Sá, finalizado em julho de 2007, pesquisadores haviam
comprovado 81 anos de história do Cinema Capixaba, com 102 filmes listados no “Catálogo de filmes: 81 anos do cinema capixaba”, que foi lançado na abertura da mostra “A vida é curta”, no dia 14 de Agosto de 2007, na Universidade Federal do Espírito Santo, UFES.
Dos filmes do Ludovico Persici, que seriam as obras mais antigas e, portanto, as mais raras, resta apenas uma delas, conhecida como "Cenas de Família" (1926 a 1929), nome dado pelo laboratório que revelou o filme. O filme foi descoberto pelo pesquisador José Eugênio Vieira na Bahia, e encontra-se atualmente sob os cuidados da Cinemateca Brasileira. Do outro filme de Ludovico, "Bang bang", (1926) restam apenas fragmentos dos negativos, que foram incorporados ao documentário, "O sonho e a máquina", produzido por Ney Modenesi na década de 70, que trata da vida e obra do cineasta.
Na história do Cinema Capixaba existem ainda registros de pequenos filmes documentários que foram feitos, a partir de 1920, entre eles, produções de Julio Monjardim sobre a cidade de Vitória.
Entre as Obras Raras do Cinema Capixaba, encontramos registros do documentário "O Mastro de Bino Santo" (1971), realizado pelo diretor Ramon Alvarado sobre a Festa de São Benedito, no Município da Serra.
Outra Obra Rara é "Paraíso no Inferno" (1977), um dos poucos longas em que o ator Joel Barcellos atuou como diretor e que foi filmado em Nova York, Jacaraípe (Serra) e no Morro do Suá (Vitória), sendo que o longa tem uma história surreal de estudantes pesquisadores num cemitério e a poluição do Porto de Tubarão...
A verdade é que na produção fílmica local destaca-se com os diretores e produtores
Paulo Eduardo Torres, Luiz Tadeu Teixeira, Ramon Alvarado, Antonio Carlos Neves, Orlando
Bonfim Neto, Júlio César Monjardim, Paulo Thiago, Ney Modenese e Jece Valadão.
Como pioneiro cita-se
Ludovico Persici, (foto), inventor de uma máquina registrada em 1927 que ao mesmo tempo filmava,
revelava e projetava filmes. Ludovico Persici nasceu em Alfredo Chaves e faleceu em
Castelo (1899-1944). Era relojoeiro por tradição familiar, mas sua paixão era o cinema.
Com a sua máquina fez diversos filmetes sobre a paisagem urbana de Castelo. No município de Castelo, Ludovico Persici, um relojoeiro, usando sucatas, criou uma máquina que filmava, revelava e projetava. Ludovico Percise fundava o cinema capixaba. Documentou o dia a dia da região e também fez filmes de ficção. Utilizava atores e técnicos não profissionais, e produzia até faroestes.
Nosso precursor inventor registrou seu projeto na Biblioteca Nacional, mas sem condições de desenvolvê-lo, acabou esquecido, incompreendido e não reconhecido. Em 70, o cineasta, critico e historiador carioca, Alex Viany, dirigiu um curta-metragem sobre o Ludovico, chamado O Sonho e a Máquina.
PRIMEIRAS PRODUÇÕES
Na segunda metade dos anos 60, alguns jovens elegeram o cinema como meio de expressão. No começo de 1965, um grupo de jovens, entre os quais, Marcelo Osório, Edgar Bastos e Ramon Alvarado, resolveram, levados pelo clima de entusiasmo que o cinema despertava em todo o Brasil, criar um Cine-Clube.
Dessas sessões semanais do Cine Clube, dois jovens entraram em campo e decidiram realizar um filme, Ramon Alvarado e Rubens de Freitas Rocha, sem nenhuma experiência prática, com uma câmera "Paillard Bolex" realizaram o filme "Indecisão", um marco no engatinhante cinema capixaba. Rubens produziu e foi diretor de fotografia, enquanto Ramon escreveu e dirigiu.
O filme "Indecisão", conta a história de um mecânico apaixonado por uma moça burguesa, daí nascendo um conflito que é a base do filme.
A noite de estréia foi no Clube do Estudante Universitário se constituindo em grande sucesso.
Em Agosto de 1967 a Revista Capixaba, Ano I, N° 6, publica reportagem sobre o assunto, com texto e fotos. Na foto ao lado, a equipe do Filme, destacando-se a esquerda com camisa e calça brancas, o ator Milson Henriques.
Na década de 60, Antônio Carlos Neves, que chegou a estudar em Moscou, na Rússia, voltou de Brasília, onde fazia, na Universidade Nacional, o curso de Cinema dirigido por Nelson Pereira dos Santos e começou a rodar "No Meio do Caminho", em Campinho de Santa Isabel, filme que trata de um grave problema social de uma cidadezinha do interior, causado pela miséria e pelo subdesenvolvimento.
Na mesma época, Paulo Eduardo Torre, carioca, recém-vindo do Rio de Janeiro, realiza "A Queda", um curta metragem que trata de problemas comuns a todos os jovens. Uma moça de condições econômicas pequeno-burguesa vive em conflito entre as mais legítimas e autênticas aspirações da sua personalidade e as imposições e preconceitos da sociedade em que vive. A estréia do filme, na Aliança Francesa, revestiu-se de um absoluto êxito, tendo o público a aplaudido intensamente; as opiniões foram variáveis, mas unânimes em reconhecer as qualidades de A Queda, que acabou concorrendo ao III Festival de Cinema Amador promovido pelo Jornal do Brasil.
Em seguida, Luiz Eduardo Lages, um dos atores de "A Queda", termina a montagem de "Palladium"; Rubens Freitas Rocha começa um novo projeto e Antônio Carlos Neves filma "Boa Sorte, Palhaço, Boa Sorte", enquanto Ramon Alvarado terminava o roteiro de "A Engrenagem".
VALENTINA, A CINEASTA RUSSA
Valentina Ivanovna Krupnova, (foto) cursava cinema na Universidade de Moscou.
Lá conheceu um estudante capixaba com quem se casou e veio para o Brasil.
Após alguns anos o casal se separou.Com a separação, Valentina continuou residindo em Vitória, ES, passando a trabalhar no então DEC - Departamento Estadual de Cultura, atual Secretaria Estadual de Cultura.
Em 1989 conheceu os Trovadores Capixabas e resolveu participar de um Congresso Brasileiro realizado na Cidade de Porto Velho, Rondônia, onde produziu e dirigiu o filme em vídeo "Trovadores do Neotrovismo na Amazônia", (1989), com locações em Barco no Rio Madeira e a participação de vários Poetas Trovadores de diversas Cidades Brasileiras presentes no referido Congresso, entre os quais Clério José Borges, Narceu Paiva Filho e Kátia Maria Bobbio Lima, do Estado do Espírito Santo e Zeni de Barros Lana (MG). O filme teve o apoio do Departamento Estadual de Cultura do Estado do Espírito Santo e foi exibido várias vezes na TV Educativa do Espírito Santo.
Produção e Direção de Valentina Ivanovna Krupnova; Filmagem do cinematografista Ricardo Nespoli e Fotografia de Celmy Morena Santiago. O lançamento do filme em vídeo foi no Auditório da Rede Gazeta no dia 07 de Julho de 1989, segundo dia do Nono Seminário Nacional da Trova, conforme Nota abaixo, inserida no Boletim do Clube dos Trovadores Capixabas, com o título "Vídeo".
Ao lado notícia publicada sobre três filmes de Valentina com os Poetas Trovadores, inclusive um filme durante o Congresso realizado na Cidade de Salvador, no Estado da Bahia, onde foi destaque o Poeta Trovador Repentista Bule Bule. Mais abaixo notícia publicada no Jornal A Gazeta de Vitória, ES em 18/03/1989, sobre o Filme "Trovadores do Neotrovismo na Amazônia".
Valentina realizaria posteriormente um trabalho de destaque intitulado "Gringa Miranda" (1995), resultado de um curso de realização cinematográfica
promovido pelo antigo Departamento Estadual de Cultura, o DEC, e que foi
coordenado e protagonizado por Valentina Krupnovna. A sinopse retrata uma estrangeira que chega ao Brasil e, deslumbrada com a tropicalidade,
torce a perna ao tentar imitar Carmen Miranda. No hospital, conhece uma
enfermeira que a leva para um pai-de-santo, onde baixa o espírito de sua
musa. Tudo termina numa escola de samba com a gringa fantasiada de Carmen
Miranda, em ritmo de happy end, mas com um pequeno imprevisto.
DEPOIMENTO DE LUIZ EDUARDO LAGES
Recentemente, em e-mail datado de 08/07/2009, Luiz Eduardo Lages, (foto ao lado) de Finspång, Sweden, relata sobre o seu filme "Palladium":
Sou Luiz Eduardo Lages, carioca do Jardim Botânico, que com o filme "Palladium", em 1967, participou do movimento cinematográfico no Espírito Santo. "Meu filme "Palladium" era de muita profundidade, segundo os críticos, com dois personagens básicos, um introvertido e outro extrovertido. Eu fiz o papel do introvertido, alheio à sociedade. Aracati Correia de Mendonça ficou com o papel do empresário endinheirado, vulgar e falastrão, enquanto a excelente e consagrada atriz Elizabeth Galdino, foi a menina dos olhos dos dois. Aliás, Beth brilhou intensamente, já que não obstante ser uma grande profissional do teatro, fotografa muito bem. No meio da história (um triângulo amoroso), as contradições da cidade e suas diferenças, refletidas pela urbanização, o nível social e intelectual das pessoas que nela habitavam e as injustiças sociais inerentes, consequência de séculos de domínio de uma classe social arcaica, impondo uma política escravagista. Era o retrato de todo Brasil naquela época de ditadura militar. A cena que abre o filme é muito linda. Pedi para o Ramon Alvarado, meu fotógrafo, ir para o topo estratégico de uma pequena montanha na entrada da cidade e filmar desde a entrada da barra até a ponte principal na entrada da ilha. Fizemos toda a marcação. Quando eu (personagem alienado, introspectivo, que andava apegado à um boneco que tinha desde a infância, um pequeno elefante chamado Lima), entrasse na ponte para entrar na cidade, ele daria um zoom fechando o enquadramento em cima de mim. Ramon fez a tomada magnificamente".
Prossegue Luiz Eduardo Lages:
"Palladium" foi levado para festivais de curta-metragem na Europa pelo cineasta mineiro Carlos Federico Vaz de Carvalho, que estudou comigo no Walt Whitman High School, em 1965, na cidade de Bethesda, Maryland, perto de Washington D.C., para uma bem sucedida amostra do cinema brasileiro emergente, isto em junho e julho de 1968. Foi exibido nos Institutos de Cinema de Estocolmo, Viena e Roma, onde obteve sucesso, sobretudo pela direção, argumento e pela obra como um todo. Daí a razão de minha viagem para cá com o intuito de residir, começando logo na Rádio e Televisão da Suécia (na época, um monopólio estatal). No "Svensk Filminstitutet" (Instituto de Cinema Sueco) está documentado até hoje. Uma referência aqui na Suécia, já que este instituto já foi dirigido por Ingmar Bergman, Harry Shein, austríaco que foi casado com a atriz sueca Ingrid Thulin e por Tage Danielsson. Os três com critérios rigorosíssimos. Na época da exibição, era Harry Shein quem estava à frente do festival e que levou o filme para Viena e Roma. Justamente ele, o mais rigoroso e sério dos três citados! Uma honra para mim e Iréne que Harry, nos anos 70, levantou-se de onde estava num restaurante e veio nos cumprimentar. Eu, como sempre aéreo, não tinha notado que ele estava no restaurante... (...)".
No seu e-mail, Luiz Eduardo Lages conclui:
"Bem, dito isto, acho que de qualquer forma, a melhor coisa que fiz no Espírito Santo foi ter levado o Paulo Torre para lá, que mesmo depois de minha saída para a Suécia, manteve-se sediado em Vitória e seguiu fazendo teatro e atuando como jornalista, tendo chegado a redator-chefe de "A Gazeta", o melhor jornal capixaba, posição que exerceu até a sua morte. Com o aperto da ditadura e com a saída do meu pai de lá, as coisas ficaram difíceis e não seria possível dar sequência ao movimento cinematográfico, tampouco com peças de teatro. Nós fomos muito além, porque meu pai, tolerante, fez vista grossa, apesar de reclamar muito com todos nós quando nos encontrava para assistir alguma peça, como por exemplo, "A Moratória", de Jorge Andrade, em que fiz o papel de Marcelo. Dizia eu, "mas papai esta é uma crítica à ditadura do Getúlio. Que eu saiba, você nunca foi getulista, pois não?" E ele trancava os dentes e respondia enfaticamente, de bate-pronto: -"Seu canalha!". Sinceramente, com toda a censura daquela época em cima, controlando todas as espécies de expressão, era uma arte extra fazer teatro, ou qualquer tipo de comunicação. Tínhamos que ter flexibilidade e jogo de cintura para driblar os gorilas de plantão. De qualquer forma, agradeço ao Comandante Lages, meu pai, por ter tolerado aquele proveitoso movimento e sobretudo ao público capixaba (pelo excelente nível cultural) e todos os colegas, tanto os atores, como os da imprensa, agradecimento que, com saudade, quero estender ao velho amigo Paulo Torre, que certamente muita falta faz à atividade artística no Espírito Santo, já que teria muito tempo ainda para por em prática suas ideias. Fizemos, ainda adolescentes, teatro e cinema com profissionais, a maioria dos quais, que vieram a obter a consagração na arte de representar, fotografar, dirigir e/ou produzir teatro e cinema com o correr dos anos".
MILSON HENRIQUES E OS FESTIVAIS DE CINEMA
Através de e-mail datado de 03/04/2010, Luiz Eduardo Lages, de Finspång, Sweden, envia-me material
onde Milson Henriques na Internet, divulga um texto contando sobre um dos Festivais de Cinema que organizou em Vitória, ES. Eis um trecho:
"(...) Desde 1967 eu tinha uma página inteira dominical de humor no jornal A
Tribuna. Era mais deboche e provocação ao pessoal da ditadura. Tanto que
fui em cana 12 vezes por causa de notas e alguns artigos. Antes de mais
nada tinha a preocupação de apoiar qualquer manifestação de arte. Foi
assim que, no dia 3 de dezembro de 1967, às 10 horas da manhã, competindo
com o sol e a praia, consegui colocar no cinema Jandaia, cedido por
Marcelo Abaurre, mais de 200 pessoas ao realizar o “I Festival de Cinema
Amador Capixaba” (depois, por meio da mesma página, que se chamava
Jornaleco, realizei um Festival de Teatro Amador Capixaba e cinco festivais
de música). Dos nove filmes exibidos, sete tiveram a participação de Ramón
Alvarado e outro era um documentário feito pelo pai dele, Luiz Gonzáles
Batan, com imagens da cidade de Vitória de 1938. Outra curiosidade
foi um documentário científico, a cores, mostrando a primeira operação de
coração feita no Espírito Santo. O mais importante é que a moça operada
estava presente e viu o filme pela primeira vez. No final, quando chamei
Ramón ao palco para lhe entregar um troféu – que desejei fosse o primeiro
dos muitos que viriam – ele foi aplaudido de pé.
Vejam a lista dos nove
filmes apresentados:
1 - Indecisão: direção de Ramón Alvarado e fotografia de Rubens Freitas Rocha.
Intérpretes: Cláudio Lachini, Miriam Calmon, Luís Manoel, Nalim, Zélia
Stein (1966).
2 - O Cristo e o Cristo: documentário de Ramón Alvarado sobre a Festa da
Penha (1966).
3 - Palladium: direção de Luiz Eduardo Lages e fotografia de Ramón Alvarado.
Intérpretes: Elizabeth Galdino e Luiz Eduardo Lages (1966).
4 - Automobilismo: documentário colorido de Rubens Freitas Rocha (1966).
5 - Kaput: direção de Paulo Eduardo Torre e fotografia de Ramón Alvarado.
Intérpretes: Rubens Azevedo, Marlene Simonetti e Ewerton Guimarães
(1967).
6 - Cirurgia do Coração no Espírito Santo: documentário científico colorido, de
Ramón Alvarado (1967).
7 - O pêndulo: direção e fotografia de Ramón Alvarado. Intérpretes: Zélia Stein
e Carlos Chenier (1967).
8 - Alto a la agression!: direção de Antônio Carlos Neves e fotografia de Ramón
Alvarado. Intérpretes: Sílvia Renata Cohen, Milson Henriques, Alberto
Cristóvão e Raimundo Oliveira (1967).
9 - Vitória 1938: Documentário de Luiz Gonzáles Batan (pai de Ramón) mostrando
aspectos da vitória no ano do título (1938).
Além desses nove, ainda fazem parte do I Ciclo Cinematográfico Capixaba
(1965-69), a chamada “época de ouro” do nosso cinema amador, filmes de
16 mm, preto e branco, em celulose realizados de forma quase artesanal.
São os seguintes:
1 - A queda: direção de Paulo Eduardo Torre e fotografia de Ramón Alvarado.
Intérpretes: Marlene Simonetti (aqui estou em dúvida se foi com Ewerton
Guimarães ou Rubens Azevedo). (1966)
2 - Boa sorte, palhaço!: direção de Antônio Carlos Neves e fotografia de Ramón
Alvarado. Alguém me disse que o filme foi finalmente terminado, mas
nunca perguntei a Toninho. Por isso, não sei os atores (1967)
3 - Veia partida: direção de Antônio Carlos Neves e fotografia de Ramón Alvarado
(prêmio de melhor fotografia no festival de Cinema do Jornal do
Brasil/Mesbla, de 1968). Intérprete: Rubens Azevedo.
4 - Primeira revolta: direção de Luiz Eduardo Lages. Não sei mais nada sobre
esse filme. Quem me falou com entusiasmo sobre ele foi Paulo Eduardo
Torre, mas nunca assisti nem sei o elenco.
5 - Ponto e vírgula: direção de Luiz Tadeu Teixeira. Intérpretes: Luiz Tadeu Teixeira
e Milson Henriques (1969).
6 - Variações para um tema de Maiakovski: direção de Luiz Tadeu Teixeira. Também
não assisti e desconheço a ficha técnica (1971).
São 15 filmes, em sua maioria, realizados por jovens entusiastas, num tempo
em que a censura era cruel, numa cidade que não tem o vício da cultura
(até hoje), motivados pela famosa frase de Glauber Rocha: “Fazer cinema é
uma câmera na mão e uma (boa) idéia na cabeça”, e procurando desmistificar
o cinema como uma indústria de diversão alienante." (...)
Milson Henriques (foto) é jornalista, desenhista, ator, trovador e poeta.
É também o protagonista de um documentário, narrando sua história de vida. Natural de São João da Barra, norte do Rio de Janeiro, fugiu de casa aos 14 anos, quando morava com a avó, para viver na cidade do Rio de Janeiro. Desde então, abandonou a escola. Embora não tenha nascido no Estado, o pai da Marly, a solteirona de Hello, Creuzodete,se considera um capixaba de coração. O documentário "Minha vida não é só teatro" é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Angela Buaiz e Andréa Nunes Ambrósio, formadas em jornalismo pela faculdade Estácio de Sá em dezembro de 2009. CRÉDITOS: "Minha vida não é só teatro" Duração: 15 minutos Roteiro/Direção:Angela Buaiz Pesquisa: Angela Buaiz e Andrea Nunes Ambrósio Produção: Angela Buaiz e Romulo Mussiello Iluminação: Romulo Mussiello Maquiagem: Luciana Farias Diretor de Fotografia: José Lúcio Campos Assistente de Câmera Pedro Henrique Edição: Sander Calmon Áudio: Fábio Pirajá Finalização: Alessandro Calmon \ Produtora-Jucutuquara filmes.
OUTRAS PRODUÇÕES INICIAIS
Ainda com recursos próprios, outros curtas, foram produzidos, como "Kaput", de Paulo Torre e "Ponto e Virgula", de Luiz Tadeu Teixeira. Eles utilizavam uma câmera 16mm, e quase sempre enfocavam temas relacionados com a repressão política.
Com a chegada do Super 8, na década de 70, e do vídeo, em 80, o audiovisual tornou-se instrumento de registro.
Na Década de 70, surge no Estado, uma produção fértil de documentários. Festas religiosas, etnias e folclore faziam parte do repertório desses cineastas.
Destaque para Orlando Bomfim Netto, (foto), que produziu uma série sobre a cultura popular do Espírito Santo, que nessa mesma década, tornou-se cenário de longas-metragens de ficção. "A Vida de Cristo", com Fernanda Montenegro no papel de Samaritana, foi rodado em São Roque, então Santa Teresa, com total participação da população local.
O ator e produtor capixaba Jece Valadão filmou em Santa Leopoldina uma adaptação de "Canaã", de Graça Aranha. Transformou o romance sociológico em um faroeste espaguete, bem em voga na época. Paulo Thiago filmou "Sagarana, o Duelo", em São Mateus. E outro ator capixaba de sucesso, o Joel Barcellos, presença marcante em vários filmes do Cinema Novo, também veio filmar o seu "Paraíso no Inferno".
Nos anos 80, o jornalista e crítico de cinema Amylton de Almeida foi premiado pelos documentários que dirigiu para a TV Gazeta, afiliada da TV Globo. Destaque para o excelente "São Sebastião dos Boêmios", sobre o bairro de São Sebastião, hoje Novo Horizonte na Serra, ES e para "Lugar de Toda Pobreza", esse último uma produção independente que mostrava a relação dos moradores do bairro de São Pedro com o lixão a céu aberto.
MAIS PRODUÇÕES CAPIXABAS
Na década seguinte (90), Luiz Trevisan mostrou em Cuba o documentário "Cachoeiro em Três Tons", dedicado à família Sampaio, um autêntico clã de compositores cachoeirenses. O designer gráfico Ronaldo Barbosa levou pros Estados Unidos e Japão a vídeo-arte "Graúna Barroca". Tempos depois, uniu-se a Arlindo Castro e Hans Donner e realizou TV Reciclada. Todos filmes premiados. Tinha ficção sendo produzida em Super 8, em vídeo, e tinha ainda a produção experimental do multimídia Nenna B, incluindo um documentário com o escultor Franz Krazjberg.
O presidente Fernando Collor de Mello, que governou o Brasil de 15.03.1990 a 29.12.1992, extinguiu toda a legislação e os órgãos de apoio e fiscalização ao setor cinematográfico. A época ficou marcada como um período de obscuridade para o cinema brasileiro, e o Espírito Santo surgia como uma luz no fim do túnel. O Bandes criou uma carteira de financiamento destinada aos projetos culturais, que contemplou sobretudo a área cinematográfica.
Num momento em que a produção de longas no país praticamente zerou, a imprensa nacional voltou seus olhos para o estado, e atribui a alcunha Pólo de Cinema do Espírito Santo. "Lamarca", "Vagas Para Moças de Fino Trato", "Fica Comigo" e a primeira ficção do capixaba Amylton de Almeida, "O Amor Está no Ar", foram produzidas através dessa linha de financiamento do BANDES.
Os filmes acabam diminuindo de tamanho e cresceram em quantidade, e acima de tudo se tornaram locais. Realizados aqui, por gente daqui e pro mundo.
Um dos primeiros foi Marcel Cordeiro e seu 16 mm, "Passo a Passo com as Estrelas", premiado no Rio e na Itália. Fizeram filmes e ganharam prêmios também, Ricardo Sá, Luiza Lubiana e Glecy Coutinho. Na virada do século, surgiu uma nova geração produzindo curtas como "Macabéia", "Olhos Mortos", "Mundo Cão" e "Céu de Anil".
São também destaques no Cinema Capixaba: Tião Xará, (Sebastião Ribeiro Filho - foto), cineclubista nos anos 70. Orlando Bonfim, (foto), Diretor e Documentarista. A Luiza Lubiana, oriunda dos 80 e o Ricardo Sá.
Da galera que no começou nos 90, veio "Saudosa", falso documentário de Erly Vieira Jr e o Fabrício Coradello. Carlos Augusto, capixaba radicado na Dinamarca, veio a Vitória pra filmar João, que fala da perda da inocência do garotinho de mesmo nome.
Têm ainda videomaker iniciante se destacando no Festival do Minuto, a rapaziada de Guarapari fazendo vídeos de terror, e o pessoal do Cine Falcatrua.
UMA ANÁLISE HISTÓRICA DOS ANOS 90 (1990 - 1999).
João Barreto,jornalista, mestre em Estudos Literários da Ufes e
doutorando em Comunicação Social da UFRJ em texto na Internet faz um histórico dos anos 90. Relata em "Catálogo de Filmes: 81 anos de cinema no Espírito Santo" que:
"Criada em 1991, a Lei Rubem Braga, do município de Vitória, consagra-se
como marco nacional na questão de incentivo à cultura e passa a inspirar
outros municípios. Da lei, apesar do debate sobre sua fiscalização, saem
projetos que vão mudar a aparência cultural do Estado. O período também
se conjuga com as primeiras mostras de cinema, organizadas por Orlando
Bomfim, Ernandes Zanon e Amylton de Almeida, que preparam o espírito
para os anos seguintes, ao criarem um certo hábito de debater a produção
audiovisual. Em 1997, a quarta edição do Vitória Cine Vídeo apresenta
sua primeira mostra competitiva. Comandado por Lucia Caos e Beatriz
Lindenberg, o festival adquire uma organização sólida e projeção nacional,
fazendo parte definitivamente do calendário da cidade e participando também
do ritmo da realização local. Além de uma vitrine privilegiada, o Vitória
Cine Vídeo passou a investir na formação de nossos profissionais de cinema
e também viabilizou produções.
A promessa da formação de um pólo de cinema acirrou ânimos. Quem
investia contra a iniciativa argumentava que se não houvesse uma transferência
de tecnologia dos grandes centros, com formação de mão-de-obra,
o Espírito Santo seria uma mera fonte de recursos para cineastas de outros
estados.
Mesclando atores globais e capixabas, o primeiro filme do pólo, Vagas para
moças de fino trato, foi lançado em 1993, sob forte polêmica capitaneada
pelo crítico de cinema Amylton de Almeida, que no Caderno Dois do jornal
A Gazeta, emitiu as mais duras críticas em relação à qualidade da obra.
O diretor Paulo Thiago respondeu à altura e estava lançado o debate sobre
a realização cinematográfica em terras capixabas.
A realização cinematográfica, por se tratar de um produto caro, conferiu
um certo orgulho à classe artística local. Os artistas sentiam orgulho de se
reconhecerem na tela e de ter o trabalho valorizado. Bem antes do início
de uma produção, diretores de outros estados passaram a visitar o Estado
para checar as condições de produção. Atores, diretores e técnicos davam
entrevistas. O cinema estava sempre em evidência nos jornais.
Em 1994, Sérgio Rezende inicia as filmagens de Lamarca, com locações
no Espírito Santo, no Rio de Janeiro e na Bahia. Com o mesmo esquema
do anterior, a obra traz atores de projeção nacional contracenando com
atores capixabas. E, como não poderia deixar de ser, o filme rendeu muita
polêmica e muitas páginas de jornal.
As condições de financiamento do Bandes (Banco de Desenvolvimento
do Estado do Espírito Santo) também trouxeram ao Estado em 1996 a
cineasta Tizuka Yamasaki, que chegou a montar oficinas de formação em
cinema, na tentativa de gerar um clima de boa vontade para sua atividade.
Fica Comigo, o longa de Tizuka - totalmente rodado em Guarapari, teve
pré-lançamento em São Paulo, em 1998.
O último filme do pólo, O amor está no ar, foi dirigido e roteirizado por
Amylton de Almeida que também trabalhou com uma receita consagrada
pela simpatia: elenco matizado de atores globais e locais.Como os anteriores,
a temática existencial predomina. O filme teve sérios problemas de
produção e, mais tarde, de distribuição, tornando-se obra pouco conhecida
dos brasileiros e, em especial, dos capixabas. Iniciado em 1994, O amor
está no ar foi concluído em 1997, sob o comando da produtora Luciana
Vellozo. Morto em 1995, Amylton não viu o seu filme finalizado e não
participou de sua montagem.
Enquanto na produção de longa-metragem, a participação dos realizadores
locais é limitada e de certa forma mapeada, é no curta-metragem que
são ressaltadas as características estilísticas de cada autor e o traço do que
poderíamos chamar de identidade. Sacramento, de 1992, marca o trabalho
autoral de Luiza Lubiana, que divide a direção com Ricardo Sá. . O trabalho
conta com a belíssima música de Jaceguay Lins, que poderia ser ouvida à
parte. O filme é completamente Luiza, como afirma o próprio Ricardo , e
inaugura um trabalho autoral completado por A Lenda de Proitner (1995) e
Manada ( 2005). Luiza investe em trabalhos de forte evocação arquetípica
apelando para o onírico e o simbólico. Em todos os trabalhos, a fé e os
ritos civilizatórios não aliviam o peso da constatação de que a violência é
constituinte da condição humana
A miragem das fontes (1990) é um filme feito para ver. Gelson Santana
trabalha com um sentido de narrativa mínima. Sendo assim, o que resta
em cena é para ser visualizado. Completamente alegórico, o filme funciona
muito mais como um estudo das condições de filmagem, dos resultados da
imagem e das reflexões relativas à linguagem cinematografia.
Caso curioso é do cineasta Marcel Cordeiro que, mesmo morando na
Itália, sempre dá um jeito de dirigir algum trabalho no Espírito Santo. Dessa
forma, garante à carreira de suas produções uma visibilidade mais ampla,
como é o caso de Flora (1996) que também foi exibido em TVs na Espanha,
em Portugal e na Itália. Flora apresenta uma história melancólica,
nostálgica, cheia de lirismo. No trabalho anterior, Passo a Passo com as
estrelas (1995), Marcel Cordeiro partira para a crítica social, utilizando da
ficção-científica para narrar problemas do cotidiano.
Também em 1995, Margarete Taqueti aborda uma lenda tipicamente capixaba.
O título do filme, O fantasma da mulher algodão, é suficiente para
tocar de lembranças gerações inteiras. O filme de Taqueti investiga como o
universo imaginário pode estar a serviço de regimes disciplinares e como a
sexualidade tende a incorporar situações consideradas intratáveis.
Gringa Miranda (1995) brinca em seu roteiro com os contratempos e a
necessidade de se reinventar o cotidiano a partir do que a vida coloca em
xeque. O filme é resultado de um curso de realização cinematográfica
promovido pelo antigo Departamento Estadual de Cultura, o DEC, e foi
coordenado e protagonizado por Valentina Krupnova. Numa segunda
edição do curso surge Labirintos Móveis (1997), formando uma leva de realizadores
que viriam a atuar na produção cinematográfica capixaba a partir
da virada da década. Valentina também atuou em outra frente, a da crítica,
ajudando a manter aceso o debate sobre cinema no Estado.
Rito de Passagem (1996), de Sergio de Medeiros, funciona no limiar da
linguagem entre o vídeo e o cinema, dispensando a solenidade da atividade
cinematográfica, em busca do há de mais bestial, a notar pelo tema e pela
estética trash. É também de autoria de Medeiros O amor e o humor na
música brasileira dos séculos XVIII e XIX (1998), no qual se faz um estudo
musical muito pouco ortodoxo, aproveitando-se de antigas composições
dos séculos XVIII e XIX.
Solidão Vadia (1997), de Ricardo Sá, completamente alegórico, traz um
desfile de imagens de impacto em fotografia sofisticada. O diretor trabalha
com temas que aparecerão, de outra forma, em filmes futuros, como a
condição humana diante do ambiente, sempre com uma visão irônica, mas
mantendo uma militância elegante.
Eu sou Buck Jones (1997), de Glecy Coutinho, mostra como a indústria
cultural é apropriada em locais periféricos. Aqui, no caso, uma história de
western, de uma “cultura dominante”, é entendida de maneira singular,
pois antes de demonstrar dominação representa linhas de fuga do pensamento
hegemônico. Um formidável exercício de metalinguagem, baseado
em fatos reais, já apontando um sintoma do debate contemporâneo: a
dificuldade de se traçar fronteiras entre real e imaginário, documentário e
ficção.
Novos ares na cena cinematográfica com Virginia Jorge e o seu De amor e
bactérias (1999), um exercício de descongestionamento da visão e criação
de múltiplos pontos de vista. Completamente lírico. Os trabalhos dessa
época parecem sugerir que a produção de curtas locais vai perder um pouco
de sua aura, a partir de produções mais despojadas em seus roteiros e
menos solenes, como é o caso de O Enforcado (1998) que, mesmo em
sua pequenina metragem, dá conta de oferecer alternativas narrativas para
a questão da duração de um filme.
Bem-Vindos ao Paraíso (1998), com roteiro do autor de telenovelas João
Emanuel Carneiro e o diretor da obra Marcos Figueiredo, traz o choque
entre o mundo da natureza e da cultura, no sentido antropológico, e extrai
a força a partir da ruptura do que se convencionou chamar de civilização.
Os filmes realizados em curta-metragem no Estado parecem sugerir, por
um lado, uma investida na força que habita o minúsculo, o que passou
despercebido, gerando o movimento de localizar a produção. Num viés
contrário, numa tendência completamente contemporânea, apresenta um
humor marcadamente ácido, como quem ri de si mesmo tanto num sentido
completamente autodestrutivo, como numa despreocupação lúdica.
Essa ausência de solenidade, acentuada pela desistência da busca de grandes
ideais e temas nobres, soa como uma constatação da participação do
Estado no bolo nacional. Já que não dá para participar, dá pelo menos para
avacalhar. A partir daí, embora toda generalização seja injusta, se criou um
modo de fazer as histórias e as imagens funcionarem como forma de pensamento
e traduzir, de maneira ampla e possível, a condição de ter uma
identidade tão etérea". (Texto de João Barreto).
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