Hino Nacional Brasileiro
Ensaio Prof. Alvacyr Pedrinha
O
Hino Nacional de cada povo expressa, em todas as suas gamas, o modo
de ser da psique coletiva de sua gente. A identificação
do povo com o Hino é mais do que necessária para que,
ao ouví-lo ou cantá-lo, se possa sentir ser ele, realmente,
o porta-voz da nação, da alma do povo. Tanto isto é
verdade que, no Império, a composição musical
da autoria de Francisco Manuel da Silva teve mais de uma letra; os
versos, porém, expressavam momentos históricos e não
a alma do povo como ocorre com a partitura; esta continuou a ser executada
nos grandes momentos e nas solenidades da Pátria, enquanto
as letras caíram no esquecimento; Se o Hino Nacional
tivesse, desde o início, letra compatível com a beleza
e pujança da música instrumental, teria por certo comprovado
sua filiação monárquica e, como tal, jamais poderia
continuar vigorando após a Proclamação da República.
Providencialmente o Hino Nacional recebeu, no período imperial,
diferentes versos, os quais, por sorte, não se ajustavam muito
bem aos desenhos musicais e, por isso, nas duas últimas décadas
do século passado, era ele conhecido apenas por meio das execuções
das bandas militares ou orquestras nos momentos de fervor patriótico,
sem vinculação ostensiva com a forma de governo imperante.
Assim, aquele brotar de energias humanas, surgido pouco depois da
vitória do movimento republicano, pôde ser controlado
no seu impulso vivificador antes de se haver constituído em
arma positiva contra o velho Hino de Francisco Manuel da Silva.
Baptista Siqueira tem toda a razão ao elogiar a partitura musical
que, pela sua riqueza polifônica, evoca, esplendidamente, a
alma brasileira.
As letras do Hino, portanto, com o decorrer do tempo, foram postas
de lado, esquecidas, enquanto a música, lídima representante
de uma nacionalidade, se fazia presente nos grandes momentos da Pátria.
A atual letra do Hino Nacional ainda não completou seu centenário.
É da autoria de Osório Duque Estrada e de outubro de
1909; e o projeto original da letra se encontra na Biblioteca Nacional.
O poema, oficializado pelo decreto nº 15.671 de 6 de setembro
de 1922, apresenta algumas variantes, mas, em linhas gerais, segue
o original de 1909.
A música é, pois, bem anterior à letra; foi feita
no Império, na época de Pedro I. O comum é fazer-se
a música para a letra. A tarefa de ajustar a partitura musical
aos versos de Osório Duque Estrada coube a Alberto Nepomuceno,
e o exímio maestro o fez magistralmente.
Depois deste bosquejo histórico, vamos ao poema. Constitui-se
ele de duas partes. Em sua execução vocal, tem de ser
cantado integralmente. Se a execução é sem acompanhamento
vocal, só uma parte se ouve.
A letra do Hino Nacional compõe-se de duas partes, cada uma
com vinte e cinco versos, assim distribuídos: doze decassílabos,
sete tetrassílabos, dois heptassílabos, dois hendecassílabos
e dois trissílabos. Poema de natureza polimétrica afina-se,
admiravelmente, com sua música polifônica. E a variedade
dos versos enriquece de expressividade a letra.
O decassílabo heróico, pelo seu ritmo bem marcado, confere
à narrativa vigor e pujança: Ouviram do Ipiranga
as margens plácidas / De um povo heróico o brado retumbante,
/ E o sol da liberdade em raios fúlgidos, / Brilhou no céu
da Pátria nesse instante.
A estrofe formada de heptassílabo e hendecassílabo se
beneficia do dinanismo que decorre da mudança súbita
do número de sílabas dos versos. O hendecassílabo,
por ser, naturalmente, mais longo se beneficia disso, o que aviva
e refrisa a sua conteudística semântica: Se o penhor
dessa igualdade / Conseguimos conquistar com braço forte, /
Em teu seio, ó liberdade, / Desafia o nosso peito a própria
morte - Do que a terra mais garrida, / Teus risonhos,
lindos campos têm mais flores, / Nossos bosques têm
mais vida, / Nossa vida, no teu seio, mais
amores"!
Aparecem dois tipos de refrão. O primeiro tem três versos
tetrassílabos, cuja mensagem é a divinização
da Pátria: Ó Pátria amada, / Idolatrada,
/ Salve! Salve!. O segundo refrão vem assim estruturado:
quatro versos tetrassílabos, seguidos de um verso decassílabo
e de dois versos trissílabos. Quase todos os versos são
curtos, por conseguinte, rápidos e concludentes e cresce o
processo de divinização da Pátria, que chega
à mitificação: Terra adorada, / entre outras
mil, / És tu, Brasil, / Ó Pátria amada! / Dos
filhos deste solo és mãe gentil, / Pátria amada!
/ Brasil!
Quanto à tonicidade rímica, aparecem no poema, as agudas,
as graves e as esdrúxulas. Estas últimas, pela sua natureza
dactílica, podem descrever alongamentos como em plácidas,
ou reforçam a intensidade, sema que se detecta no vocábulo
fúlgidos. A presença
da vogal tônica posterior alta /u/ sugere também intensidade.
O verso medido recorre, não poucas vezes, para efeitos rítmicos,
à inversão das palavras na frase. E a letra do Hino
Nacional não fugiu à regra. Logo no primeiro verso se
nos depara a ordem indireta dos sintagmas: Ouviram do Ipiranga
as margens plácidas. O sintagma nominal sujeito: do
Ipiranga as margens plácidas vem proposto ao sintagma
verbal: Ouviram.
A metonímia do Ipiranga as margens
plácidas, naquele momento histórico, configura
o Brasil. E o animismo Ouviram
expresso no verbo que tem por sujeito, conforme foi dito acima, as
margens plácidas do Ipiranga, é empregado
para referir-se aos brasileiros.
Além do hipérbato, aparece uma anástrofe: do
Ipiranga. A antecipação do determinante põe
em relevo o rio e traz-nos à lembrança o acontecimento
memorável que fez mudar o destino de nossa Pátria.
Outras mudanças da situação das palavras na frase
detectamos no poema, objetivando a métrica, mas, em algumas
inversões, podemos reconhecer conotações estilísticas:
de um povo heróico; o nosso peito.
O léxico do Hino Nacional merece um comentário especial.
O elenco dos substantivos ricos de semas é bem expressivo e
avultam os nomes de natureza conotativa:
Ipiranga, margens, povo, brado, sol, liberdade, raios, céu,
Pátria, instante, penhor, igualdade, braço, seio, liberdade,
peito, morte, Pátria, Brasil, sonho, raio, amor, esperança,
terra, céu, imagem, Cruzeiro, gigante, natureza, colosso, futuro,
grandeza, terra, Brasil, Pátria, filhos, solo, mãe,
Pátria, Brasil, berço, som, mar, luz, céu, Brasil,
florão, América, Novo Mundo, terra, campos, flores,
bosques, vida, vida, seio, amores, Pátria, amor, símbolo,
lábaro, verde-louro, flâmula, paz, futuro, glória,
passado, justiça, clava, filho, luta, morte, terra, Brasil,
Pátria, filhos, solo, mãe, Pátria, Brasil.
Feito o levantamento dos substantivos, salta à vista a repetição
dos substantivos Pátria e Brasil,
sete vezes cada um. O emprego frequente destes nomes caracteriza bem
o conteúdo do poema: Hino de exaltação à
Pátria. Ser-nos-ia fácil arrolar outros substantivos
da área semântica de Pátria, mas o número
dos substantivos mencionados já diz tudo.
Outra presença que merece ser posta em evidência é
a dos substantivos, adjetivos e verbos relacionados a brilho e luz:
sol, raios, Cruzeiro, luz, florão, sol; fúlgidos, vívido,
límpido, esplêndido, iluminado, estrelado; brilhou, resplandece,
fulguras. Em parte, o aspecto tropicalístico do
Brasil está bem representado aqui pelo sol,
luz, Cruzeiro.
A nossa Pátria, pela sua imensa área territorial, é
um continente encravado em outro continente: Gigante
pela própria natureza, / És belo, és forte, impávido
colosso. / E o teu futuro espelha
essa grandeza!
O vocábulo Pátria
vem sempre acompanhado do determinante amada
e idolatrada, e terra,
do determinante adorada. As palavras
desta natureza no refrão sacralizam a Pátria. Já
que se fala em religiosidade, há uma passagem do poema em que
se implicitam as virtudes teologais: a Fé, a Esperança
e a Caridade, se atentarmos bem para a segunda estrofe da primeira
parte, constituída de versos decassílabos: Brasil,
um sonho intenso, um raio vívido / De amor
e de esperança à
terra desce, / Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
/ A imagem do Cruzeiro resplandece!.
O sujeito, aparentemente composto, Um sonho
intenso, um raio vívido, contém em si as
duas virtudes teologais: o amor (caridade) e a esperança, e
a fé está representada pelo Cruzeiro.
A pessoa originária de uma pequena ou grande cidade, de um
simples povoado ou da capital, considera a sua terra natal, qualquer
que seja ela, o lugar mais bonito do mundo. Nada se lhe compara em
beleza. É um comportamento natural, ditado pelo alto grau de
afetividade. Nós, brasileiros, procedemos da mesma maneira.
E o autor da letra do Hino Nacional, interpretando admiravelmente
a alma do povo, não fez por menos e, com razão, exaltou
a beleza de nossa Pátria. E para fazer, houve por bem inserir
na letra alguns versos extraídos da Canção
do Exílio de Gonçalves Dias: Do que
a terra mais garrida, / Teus risonhos lindos campos têm mais
flores, / Nossos bosques têm
mais vida, / Nossa
vida, / no teu seio, mais
amores. E os adjetivos referentes ao Brasil, ou a
algo que lhe pertença, são: formoso, belo, risonho,
lindo.
A tônica dominante do Hino Nacional é, indiscutivelmente,
o amor acima de tudo à Pátria e à liberdade.
O número de substantivos, adjetivos e verbos com que se faz
profissão de amor ao Brasil é apreciável. O poema
composto por Osório Duque Estrada é um belo canto libertário
e entrosa-se muito bem com a música de Francisco Manuel da
Silva. Ambos os autores, nascidos em épocas bem distintas,
se unem pelo sentimento de brasilidade.
Osório Duque Estrada intuiu de maneira bem feliz o fato histórico
da nossa Independência, pois atribuiu ao povo
heróico o brado retumbante. O imperador, naquele
momento, pressionado pelo povo que aspirava a libertar-se de Portugal,
foi o legítimo intérprete da vontade popular.
É incompatível com um povo heróico viver sem
liberdade, a qual deve vir sempre associada à responsabilidade,
à justiça, para que a nação caminhe na
realização dos seus altos destinos. Sem o sol da liberdade,
não viceja o progresso. O sol está para o dia como a
noite está para as trevas. O dia liberta o homem das trevas
da noite que o deixa inseguro, e o sol da liberdade o liberta das
trevas do medo. Sem liberdade, não há vida, mas um simulacro
de vida. A liberdade, bem diz o autor da letra do Hino Nacional, é
uma conquista do homem. Viver sem liberdade é ser um vivo-morto.
É ser um espectro de gente. Em teu seio, ó liberdade,
/ Desafia o nosso peito a própria morte!. A morte passa
a ser uma entidade, concretiza-se. Não temer a morte para defender
o direito de viver com dignidade é o que se deve fazer. E não
faltam nomes, nas páginas de nossa História, de brasileiros,
que ofereceram a sua vida em holocausto para que nós conquistássemos
a nossa Independência. Morreram em sua defesa, mas hoje, imortais,
vivem no coração da Pátria agradecida.
