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HISTÓRIA DA MÚSICA
A música (a arte das musas) constitui-se basicamente de uma sucessão de sons e silêncio organizada ao longo do tempo. É considerada por diversos autores como uma prática cultural e humana. Atualmente não se conhece nenhuma civilização ou agrupamento que não possua manifestações musicais próprias. Embora nem sempre seja feita com esse objetivo, a música pode ser considerada como uma forma de arte, considerada por muitos como sua principal função.
A música representa uma linguagem intelectual e emotiva que penetra qualquer barreira, pois não depende de uma semântica pré-estabelecida e conceitual. É atemporal, transcende ideologias e o mundo tangível. Desde o ponto de vista pragmático, estimula nossa imaginação e fomenta o desenvolvimento cerebral. A música, em poucas palavras, enobrece muitos aspectos de nossas vidas.
A música nos proporciona momentos de grande iluminação. A experiência musical nos aproxima dos princípios estéticos de transcendência e sublimidade. Ela nos dá a sensibilidade de entender e olhar para dentro de conceitos tão grandes e misteriosos, como o amor, e os eleva ao sublime.
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A
trajetória principal da música na primeira parte da Idade Média
tem sido definida pelo canto gregoriano e com um sentido mais
amplo, como se recorda, pelo controle da igreja. Não é propriamente
um controle intencionado, como se verificará em outras etapas
futuras, mas sim uma conseqüência lógica da organização social
dos povos. O latim ocupa o centro de umas preocupações culturais
das quais o povo se vai afastando com o nascimento das língua
vernáculas. E, no seio da própria igreja, nasce também a inquietação
criadora e a necessidade de variar, enriquecer e ampliar esse
único canto com que ela conta. A essas inquietações junta-se
uma necessidade imperiosa. Essas línguas vernáculas vão afastando
o povo dos ofícios, dado que o latim deixa de ser língua comum,
criando uma barreira para a sua participação nos ofícios religiosos.
E . por um lodo e por outro, surgem novos campos para a música.
Não
é o momento idôneo para alterar as regras da música, mas para
criar novas formas relativas à organização gregoriana. E o primeiro
e mais fácil passo para a variedade foi dado pelos instrumentos,
que passaram a acompanhar a voz humana, até então única protagonista
do canto.
As
primeiras contribuições produzem-se na própria liturgia. Os
"melismas"eram cantados pelo povo sobre uma só sílaba,
o que dificultava extraordinariamente que fossem recordados,
sobretudo se tinham uma duração considerável. Para consegui
a "cumplicidade" fiéis, alguns homens da igreja criaram
as "seqüências", ou letras novas, distintas do texto
religioso, que os ajudaram a recordar as linhas melódicas. Nasce
assim a primeira aventura criadora, à qual se seguirá
uma conseqüência lógica. Se se "inventam" letras para
a música religiosa, por que não inventar também novas músicas
? E nascem as "prosas", com as quais surge a
figura de um novo compositor, também autor dos textos. Naturalmente,
o canto gregoriano também tinha contado com compositores, dos
quais alguns são conhecidos, tal como os livros sagrados tiveram,
em cada época, os seus correspondentes autores, mas o processo,
neste preciso momento, é diferente. Recupera-se, num sentido
lato, a figura do compositor, identificada quase sempre à do
poeta da música grega.
Esta
nova função de compositor-poeta será exercida por três grupos
principais de novos intérpretes "goliards", jograis
e trovadores, e virá a criar o primeiro corpus da música profana,
ao mesmo tempo que a música instrumental se vai introduzindo
nos serviços religiosos.
O
processo arranca, como se viu, de uma maior liberdade ou concepção
da música religiosa, através das "seqüências"e das
"prosas", para se vir a desenvolver, no campo popular,
com as "goliards". Conhecem-se com este nome os frades
que, tendo abandonado os seus conventos, pediam esmola e vagabundeavam
de uma região para outra. Durante a sua estadia nos conventos,
tenham recebido uma dupla formação: musical e literária, e exploravam
os seus conhecimentos por meio de um série de canções, regra
geral dedicadas ao vinho, à comida e ao amor. Os textos estavam
cheios de brincadeiras dirigidas ao clero, à vida de convento
e aos costumes religiosos. Dirigiram-se a uma classe social
muito concreta e dizia-se deles, também chamados clerici vagante,
que constituíram uma primeira evidência de contra-cultura ou
de cultura "underground". Perdeu-se uma grande parte
das canções dos "goliards", mas chegaram até nós testemunhos
dessas obras desde o século. XI. O primeiro que foi localizado
foi o manuscrito de Munique, que procede da abadia de Beuron,
e que foi conhecido com o nome de Carmina Burana, datado do
século XII. A atividade dos "goiliards"estendeu-se
até ao século XV. No nosso século, compositor alemão Carl Orff
fez uma "recriação"do mencionado manuscrito, utilizando
alguns dos seus textos. A sua obra, que tem o mesmo título,
Carmina Burana cantiones profanae, foi estreada, em Frankfurt
em 1973. A importância dos "goliards" na evolução
da música é muito significativa, dado que a separaram do mundo
religioso e trocaram o cenário das igrejas pelos das praças
das aldeias.
No
confuso elo da progressão musical chegamos à figura do jogral.
Não há testemunhos que confirmem a sua presença anterior ou
posterior à dos "goliards", mas alguns investidores
inclinam-se por situá-los mais de um século antes. A razão é
simples. A falta de testemunhos faz supor que a sua atividade
foi anterior à conhecida e que, por outro lado, a sua figura
responde a uma tradição pagã. É óbvio que parece efetivamente
surpreendente que surgissem quase sem antecedentes numa série
de cortes medievais que protegeram e cultivaram a música e outras
diversões. Caracterizam-se por duas aptidões complementares:
o seu domínio da arte musical e a sua habilidade no uso da palavra.
Sucessor, antecedente ou coetâneo do "goliard", jogral
participa ativamente nos mesmos objetivos, ou seja, em
independentizar a música do âmbito religioso e em procurar novos
palcos para as suas atividades. Ambos os propósitos os levaram
à utilização dos instrumentos e à mudança de temas nos seus
textos. Os recursos da sua profissão permitem-lhes ampliar o
seu raio de ação, da praça pública ao castelo ou à corte, passando
pele taberna. As suas habilidades abarcam também as de ator,
acrobata, etc, no sentido que hoje damos a essa atividades circense.
O
século XII vai ser também palco do nascimento de outra figura
da música, a do trovador. A lenda criou uma imagem, em grande
parte falsa, do trovador que, na prática, era um cavaleiro,
com formação humanística e musical, que "exercia"como
compositor e poeta. A sua língua é sempre a vernácula da sua
terra e o seu "público", as cortes medievais para
as quais era convidado ou às chegava numa espécie de peregrinação.
O tema das suas canções, o amor, um amor quase sempre ideal
e impossível, que seria mais tarde o dos livros de cavaleiros.
Junto aos cantos amorosos, os heróicos, a exaltação das grandes
figuras, reais e próximas, convertidas em lendas. Os feitos
de Carlos Magno, Roldão ou do Cid, os das figuras que
rodeavam de uma auréola as aventuras das cruzadas. Tal como
hoje, e sempre, os nomes que incitam à fantasia e ajudam, na
vida cotidiana, a sentir as experiências.
Assim,
amor e glória formam a trama de uns textos rimados, dos quais
são originais "uns cavaleiros-músicos-poetas. Na longa
relação de trovadores encontram-se os nomes de reis, como Ricardo
de Plantegenet, de nobres, como Guilherme da Aquitânia e de
personagens, de origem desconhecida que alcançaram a glória
de atuar nas cortes européias, tal como Marcabrú. E esse caráter
nobre da sua atividade permite-nos verificar que também algumas
mulheres alcançaram pleno reconhecimento na sua atividade. Os
jogos, os enfrentamentos improvisados, tanto na música como
nos textos, e as manifestações mais eloqüentes sobre a mulher
amada, constituem um amplíssimo repertório do qual nos chegaram
numerosos testemunhos, em muitos casos com a correspondente
notação musical, que foi possível transcrever para a atual,
apesar da dificuldade que acarreta a ausência de referências
rítmicas nos originais.
Desde
os fins do século XI até ao termo do XIII, no qual a cavalaria
tem o seu declínio, tem-se referencia de 460 trovadores nos
países do sul da Europa, aos quais se devem juntar os do norte,
conhecidos como "minnesänger". Todos coincidem na
romântica exaltação do amor ou do heroísmo, o que transcende
a sua obra para além do simples entretenimento ou diversão,
características comuns aos "goliards"e aos jograis,
embora existam, naturalmente, algumas exceções. De qualquer
maneira, os três contribuíram para essa referida independência
da música do seu caráter religioso e para criar um mundo de
recreio espiritual que não estivesse subordinado aos objetivos
de louvar e glorificar a Deus que constituíam a essência do
canto gregoriano.
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Se
tivermos em conta o sentido literal da palavra, ou seja, a idéia
da sobre posição de duas ou mais linhas melódicas simultâneas
que resultam de um conjunto uniforme e homogêneo, deve dizer-se
que os seus começos rigorosas se situam no organum e no discantus.
Mas também há um elemento posterior e essencial que vai dar
um novo sentido de verticalidade. Até isto ficar estabelecido,
essas linhas melódicas apresentavam-se, por uma bi-tonalidade
não intencionada. A definição da tonalidade na qual as notas
da escala se organizam em ordem hierárquica, dependendo da que
dá o nome à escala, dá um novo sentido aos resultados verticais,
provoca a homogeneidade rítmica e melódica das diferentes vozes
e desenvolve o papel e funcional de baixo, sobre o qual se constrói
a arquitetura dos acordes.
Compositores
como Josquin des Près, já mencionado, completam o novo panorama
criativo com o uso da imitação ou do canon, que passa a ser
o procedimento característico do estilo polifônico gerador da
sua coerência de forma. Pouco depois, na segunda metade do século
XVI, será o verticalismo harmônico o que se vai impor, o que
não teria sido possível sem o estabelecimento prévio da tonalidade.
Porque será a tonalidade a origem das regras da harmonia, partindo
de uma só escala para cada nota, igual em todos os casos,
com uma única exceção: a das suas duas variedades, o tom maior
e o tom menor, com as suas diferentes posições dos semi-tons.
Abandonam-se, assim, os modos gregorianos, nos quais o caráter
era definido pela variável situação do semi-tom no interior
da escala.
Ao
longo desta etapa e tal como tinha sucedido na época anterior,
a evolução da música religiosa decorre de forma paralela à da
profana e, em ambos os casos, juntamente com a instrumental.
É um desenvolvimento, em parte similar ao que se dá em outras
artes, no qual a música se vai libertando das ataduras e da
rigidez do gótico para se aproximar do Renascimento. SUrgem
novas formas na música profana e na instrumental, mais breve,
menos grandiosas e que, por sua vez, influirão na altura própria
na música dedicada ao culto. Os limites de cada etapa, tal como
sucede sempre na história, não estão completamente definidos
e encontramos, como fundamento de todos eles, a sombra da extraordinária
descoberta que foi a da tonalidade . De fato, trata-se de um
fenômeno único que se apresenta na música ocidental e do qual
não se encontram equivalências, nem sequer aproximadas, nas
de outrs culturas.
Na
transição para o Renascimento, será também a polifonia que terá
um papel e protagonista dentro e fora da música religiosa. Nesta
última, com os três grandes nomes que cobrem por completo o
século XVI e entram pelo XVII: Giovanni Pierluigi da Palestrina,
de 1525 a 1594: Orlandus Lasus, de 1532 a 1594, e Tomás Luis
de Victoria, de 1545 a 1644. Representam ao mesmo tempo a tradição
da Polifonia desde as suas origens e a sua inclusão nas novas
correntes do Renascimento. No caso dos primeiros, tanto no que
se refere ao campo religioso como ao profano, no qual não se
pode incluir Victoria, que se seguiu no seu trabalho à música
de igreja. No profano, a concepção polifônica manisfesta-se
fundamentalmente com o madrigal, que se prolonga no tempo e
atinge também o representativo mundo do Renascimento. Juntamente
com ela, aparecem outras formas que ficaram mais unidas, quanto
ao nome, aos estilos de cada país, enquanto que o madrigal se
estendeu por toda a Europa. Na Itália, aparece a frottla, o
ricercari, a canzona, os rispeti e alguns outros, enquanto que,
na Espanha, se desenvolve o villancico, com uma dimensão
que não se limita à variedade. Natalícia que, às vezes, se aplica
ao mesmo.
Mas
o Madrigal vai ter o ponto de apoio de toda a polifonia renascentista,
em especial no campo profano, embora também no religioso e com
os madrigais "espirituais". É impossível citar
todos os compositores que cultivaram o madrigal, mas convém
seguir o rasto dos mais representativos, tal como podem ser
Giuseppe Zarlino, Andrea e Giovanni Gabrielli, Adrian Wlaert
e Gesualdo da Vnosa, na Itália, Clement Jannequin, na França,
Mateo Flecha e um sobrinho com o mesmo nome, que prolongam uma
tradição iniciada por Juan del Enzina, Juan Brudieu ou Francisco
Guerrero, na Espanha, William Byrd, John Dowland, Thomas Weelkes
e Orlando Gibbons, na Inglaterra, e Orlandus Lassus, já menciondo.
na Alemanha. Entretanto, prossegue a tradição polifônica religiosa,
representada na Alemanha por Heinrich Schütz e na Espanha, juntamente
com Victoria, pelos nomes de Cristóbal de Motales e de Francisco
Guerrero.
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Ao
considerar a existência do Renascimento musical, estamos perante
um dos freqüentes casos de imprecisão terminológica. A influência
de conceitos das outras artes e o desejo de unificar as suas
tendências levou ao uso de qualificações cuja correlação é difícil
de defender. No entanto, é um fato que se divulgou um conceito,
o de "música renascentista", com umas características
e coincidências no tempo que não é possível ignorar. Outra questão
é a da confirmação, ou não, da correlação com outras artes.
No mundo do pensamento e as letras, a descoberta da Antiguidade
clássica é efetivamente clara nos movimentos literários e filosóficos
da passagem do século XV para o XVI, mas na música, temos que
esperar a chegada do XVII para encontrar elementos modificadores
da anterior tradição, sobretudo no que se refere às formas.
Já
comentamos como se apresentaram estas modificações nas novas
formas da música instrumental, mas inclusivamente na mais característica,
a música vocal, conservam-se no Renascimento, as exigências
da polifonia. A forma típica desses tempos, do Renascimento,
é o Madrigal, que se serve dos fundamentos estruturais e conceituais
da polifonia cultivada até finais do século XVI. Mas o importante,
nessa transformação que se dá nos fins do século XVI é sem dúvida,
a mudança de sentido do conceito da polifonia, Assim, o que
antes tinha sido um estilo, um mio de expressão que caracterizou
uma época, passou a ser uma fórmula ou uma possibilidade técnica
com um sentido muito mais amplo, com um posto na música vocal,com
ou sem intervenção de instrumentos. Ou seja, o que era um "estilo",
passou a formar um "gênero".
A
alteração produz-se, efetivamente, na transição do século XVI
para o XVII e tem um nome muito concreto: "melodia acompanhada".
É um meio de expressão no qual se ouve o eco das aspirações
dos humanistas. Mas, para os historiadores da música, o que
noutras artes se entende por Renascimento, deve situar-se entre
o último terço do século XV e os últimos anos XVI. Nessa altura
sucedem-se várias e importantes transformações na música.
ë o momento em que a polifonia atinge o cume, em que, tal como
já dissemos, o "Madrigal" representa a unificação
do poético e do musical, ao mesmo tempo que aparece o sentimento
da harmonia. Não interessa tanto a sucessão de vozes, consideradas
como predominantes, mas sim a malha criada por essas vozes.
E essa organização harmônica será o ponto de apoio da melodia
acompanhada, independentemente, por outro lado, do desenvolvimento
e da evolução dos instrumentos. E, embora estes dados não constituam,
por si próprios, uma definição das elementos, de um Renascimento
musical, conseguem fundamentar uma vitalidade e um espírito
criativo.
Esse
ímpeto assoma igualmente na Reforma religiosa, que coincide
com o Renascimento musical. Tem-se dito que não é possível estabelecer
entre esses fatos uma relação de causa efeito, mas é evidente
que coincidem no impulso. A melodia acompanhada conduz ao nascimento
da ópera, como gênero de mais amplos horizontes e orientado
para um público mais numeroso. Da mesmo maneira, Lutero, que
aceita o latim, procura no uso das línguas vernáculas uma maior
relação do povo com uma música religiosa. Na prática, uma grande
número de compositores dedicam os seus esforços criativos a
formar um repertório de canções religiosas, dentro de um movimento
que nasce na Alemanha, com a Reforma como ponto de partida,
e que se estende a outros países, em especial à França, no qual
aparece o corpo da música religiosa hugonote.
Como
resumo deste período, antecedente do nascimento da melodia acompanhada,
ou monodia, pode dizer-se que coincidem, nas diversas escolas,
as tendências para usar a voz, os instrumentos e as suas
possibilidades de combinação, como partes independentes de um
todo que as pode englobar parcial ou totalmente.
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Ao
finalizar o Barroco, sucede algo similar ao que representa na
música a idéia do Renascimento. O estilo Barroco, que responde
a uma concepção pictória e arquitetônica, translada-se, novamente,
para a música sem fundamento. Tal como sucedeu no Renascimento,
as possíveis características musicais do Barraco definem-se
posteriormente e são uma justificação do uso desse terno, mais
do que uma definição do mesmo. Pode dizer-se que, em ambos os
casos, foram as correntes da música e, sobretudo, o extraordinário
progresso dos meios de difusão e dos suportes dos registros
musicais, os fatores que impuseram esses termos. A mensagem
das casas discográficas precisava da utilização de uma terminologia
que fosse familiar a um amplo setor do público, mais conhecedor
das diversas tendências e escolas da arte e literatura do que
da música.
No
entanto, também no Barroco é possível encontrar uns elementos
que justificam o uso desse termo, partindo de conceitos de outras
artes. Verificou-se uma certa relação entre o estilo concertante
da música e o estilo barroco na arquitetura e nas artes plásticas.
A alternância de vozes e instrumentos foi a resposta musical
à idéia de contraste que caracteriza a arte do barroco. O uso
de vozes solistas, coros - inclusivamente duplos e triplos coros,
a organização de instrumentos por famílias e a sua combinação
e número crescente, definem, sem dúvida, a tendência para o
grandioso que responde à imagem tópica e típica da arte barroca.
Essa
tendência para o que a música poderia vir a ter de espetáculo,
num movimento paralelo no tempo ao da monodia acompanhada e,
claro está, ao da ópera, une diretamente o Renascimento com
o barroco. Os chori spezzati, enfrentados como dois elementos
dispares do conjunto, marcam a trajetória da música em São Marcos
de Veneza, primeiro com Adrian Willaert e depois com Gabrieli.
Um caminho que leva, sem interrupções, às Paixões de Johnn Sebastian
Bach, aos grandes oratórios de Haendel e à estabilização, com
todas as suas variantes, do novo gênero que surge nos fins do
século XVII: a ópera. E, em todas essas formas e gêneros,
torna-se clara a preocupação comum por tudo o que é dramático.
De certa maneira, parece que o dramatismo, possível de por em
cena ou não, é consubstancial com a idéia do Barroco. Assim
acontece na pintura, em Rembrandt, por exemplo, na tragédia
francesa, com as obras de Corneille e Racine e na Espanha, com
Calderón de la Barca, entre outros numerosos exemplos.
Na
música, a idéia da monodia acompanhada afirma o uso do "baixo
continuo", que passa a ser uma das características da música
barroca, embora junto a ela coexistam outras manifestações
musicais que não recorrem a este sistema de notação. Sistema
esse que permite uma completa improvisação harmônica, dado que
a "interpretação"dos indicativos que implica o baixo
contínuo depende do intérprete, valha a redundância. Desenvolvem-se
sob o seu império, as modas de adornos e elementos acrescentados
que, na arquitetura simbolizarão também a idéia do "barroco".
E, se tivermos em conta o longo processo da sua imposição, verificamos
que surge quando ainda está vigente o Renascimento , no século
XVI, e, isso sim, que se prolonga até começos do século XVII,
quando o Renascimento já só é uma recordação e uns testemunhos.
Por
isso se tem dito que o Barroco leva até às suas últimas conseqüências
os impulsos de renovação que tinham nascido no renascimento.
Na música, à margem de identificações mais ou menos rebuscadas
com as outras artes, verifica-se que se produz um movimento
com as mesmas
conseqüências: a música coral religiosa expande-se desde a polifonia
até às manifestações do que viria a ser o fundamento sa música
sinfônica-coral, enriquece-se monodia, produzem-se primeiras
experiências do melodrama e da favola, nasce o sentido
da expressão melódica de Alessandro Scarlatti.
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Se
bem que já foi dito, convém esclarecer como se produz o desenvolvimento
do conceito romântico na música e as diferenças com o seu equivalente
literário. Para um filósofo como Emmanuel Kant, que divide as
artes na sua Crítica da Razão, a música ocupa o nível
inferior na compreensão, depois das artes da palavra e inclusivamente
das plásticas. Não vamos entrar em considerações sobre a exatidão
destas afirmações, mas, na evolução da música, tem grande
importância não ser este o primeiro caso em que o literário
está à frente do musical, pelo menos no tempo. Assim, as idéias
que conformam o Romantismo literário situam-se aproximadamente
entre 1765 e 1805, enquanto que nessas datas a música se encontra
em pleno desenvolvimento do classicismo com a obra de Haydn,
Mozart e inclusivamente Beethoven. Quem analisou estes três
compositores e os definiu como integrantes do " Estilo
Clássico " foi o crítico Charles Rosen, que deu esse título
ao seu livro sobre o assunto.
No
entanto, a aparente confusão está bem justificada na evolução
da música na Alemanha, em que aparece a influencia da nova corrente
do nacionalismo. Uma corrente que se junta com o movimento que
se conhece como Sturm und Drang ( Trovoada e Tensão ),
depois da publicação em 1776 da obra com esse título de Friedrich
Klinger. A veemência será o espírito que define o seu caráter
pré romântico. E essa expressão dos sentimentos de forma
apaixonada aparece ocasionalmente nas obras de Haydn, de Carl
Ph. E. Bach. e outros, pelo que foi assim assimilada nos princípios
de Klinger e, em conseqüência, ao nascimento do Romantismo musical.
Na prática, ainda terá de se produzir a obra de compositores
como Carl Maria von Weber, Franz Schubert e, como já se comentou
Ludwig van Beethoven, para se poder falar de Romantismo. A sua
origem real situa-se à volta de 1830, com as primeiras obras
importantes de Robert Schumann, na Alemanha, e com a Sinfonia
Fantástica de Hector Berlioz na França.
Enquanto
na literatura se abriam novos caminhos à expressão, a música
continuou a viver o seu "atraso", aderida à produção
romântica. Nasce o "poema sinfônico", no qual a criação
musical se submete à linha argumental do tema literário escolhido
pelo compositor, e desenvolve-se extraordinariamente a canção,
o "lied". Somam-se novos poetas à lista dos mais musicais,
mas essa lista continua fundamentada nos grandes nomes da transição
do século XVIII ao XIX, à cabeça dos quais, sem dúvida, está
Goethe. Há uma exceção: Shakespeare, mas tinha acontecido a
sua recuperação no mesmo período. E será este poeta quem vai
servir de estímulo para uma das primeiras demonstrações de romantismo:
a abertura para o "Sonho de uma noite de Verão", de
Felix Mendelssohn, datada de 1826. Coisa que aparece curiosa
visto que Mendelssohn significa, em parte, a representação das
formas clássicas no novo século.
Salvo
as exceções, como Berlioz, nascido em 1803, a primeira geração
de compositores românticos nasce cerca de 1810, com Schumann,
Chopin, Mendelssohn, Wagner e Verdi, assinalando apenas os mais
representativos. Entre as coincidências que se produzam nas
suas trajetórias, lugar importante é ocupado pela sua dedicação
à que se pode chamar, com um critério muito geral, "crítica
musical". No caso de Schumann, por exemplo, porque nos
seus primeiros anos hesitou entre música e literatura, no de
Berlioz, porque exerceu como crítico e finalmente, no de Wagner,
porque encontra no ensaio, assim como nos sue libretos para
ópera, o meio de comunicação das suas idéias estéticas, que
ilustram as páginas musicais.
E
as orientações românticas, na expressão exaltada dos sentimentos,
manifestam-se em todas as formas musicais já existentes, às
quais se acrescentam algumas novas, como o poema sinfônico já
mencionado, a transformação da ópera, a partir de uma sucessão
de árias, duos, etc., num conceito de "continuo" e
de ação, num texto, na própria música e num amplo repertório
de pequenas formas instrumentais.
Também
muda o âmbito de influência. Ao mesmo influência as literaturas
não alemãs se abrem à influência de Goethe, a sede do Romantismo
desloca-se para Paris que, pelo menos, detém o centro de influência
de Viena. Diz-se que o espírito fáustico invade a música a partir
das propostas do poeta alemão. Um dos primeiros incluídos no
novo grupo será, como já se comentou, Hector Berlioz com a sua
"Sinfonia Fantástica", ou o virtuosismo de Paganini,
com a carga diabólica tomada da literatura. E o mesmo acontece
com List, húngaro mas triunfador na Alemanha e principalmente
em Paris, cuja influência chegará, inclusivamente, ao pós-romantismo.
Enquanto
isto acontece, na Alemanha unem-se duas tendências, sem dúvida
com um ponto comum: as respostas por Mendolssohn e por Schumann,
com uma preocupação pelo cenário que herdaram de Carl Maria
von Webwe, mas que não encontra eco positivo até à chegada de
Wagner. Mendelssohn representa o nexo entre o classicismo e
o romantismo, assim como a atualização das exigências formais
do passado com a sua atualização da obra de Johann Sebastian
Bach.
No
outro lado está efetivamente, Robert Schumann, exemplo excepcional
do compositor literato, que sente a música e a exprime em função
da sua carga literária. A sua influência na expressão romântica
é mais importante do que poderia parecer à primeira vista. O
mundo de Schumann interessa-se mais pela expressão dos sentimentos
que pela sua descrição. A idéia de "impressão"literária
projetada na música vai estar na essência do poema sinfônico,
que se desenvolve plenamente na última etapa do romantismo,
entre outros, com Liszt, mas será a partir de 1848. A origem
do poema sinfônico, como forma com entidade e definição próprias,
é consequ6encia da abertura do concerto com fundamento literário,
que tem em Beethoven com obras que vão desde "As criaturas
de Prometeo", de 1801 até à "A Consagração do Lar",
de 1822, passando por "Coriolano"ou "Egmont".
Acabado
esse primeiro período, o romantismo entra numa nova época, a
segunda, que começa a partir da Revolução de 1848. A evolução
dos conteúdos musicais, dos meios de expressão, fixa as suas
características. Não se tratava tanto de criar novas formas
mas de renovar as possibilidades da linguagem. Diz-se que começa
um novo mundo com a estreia de "Tristão e Isolda",
de Wagner. COm Wagner chega, efetivamente, uma primeira "descomposição"
da tonalidade, através dos acordes equívocos que podem fazer
parte de algumas tonalidades bem distantes. No extremo, especialmente
na música francesa, aparecem as tensões harmônicas, alteradas,
que enriquecem muito especialmente a nova música para piano.
Mas a recuperação da obra de Johann Sebastian Bach, depois da
reaparição em Berlim e Leipzig, graças ao esforço de Menelssohn,
da "Paixão Segundo São Mateus", faz surgir outro foco
de influências que se reflete em compositores como Johannes
Brahms e depois em Cesar Frank e Max Reger. Neste processo,
mantem-se como elemento romântico principal o interesse pelas
essências racionalistas.
Dessa
mistura de tendências nasce uma terceira etapa do romanticismo
que reúne, e significa para todos os efeitos, um pós-romanticismo.
Caracteriza-se pela preferência pelos grandes conjuntos sinfônicos
e corais, pelas grandes massas sonoras e pela aspiração de chegar
a uma combinação de tendência está presente na última ópera
de Wagner, "Parsifal", e nas últimas sinfônias de
Bruckner, como antecedentes do sinfonismo mahleriano e straussiano,
que marca praticamente o fim do pós-romanticismo. E, para além
dos epígonos, dos quais existem exemplos em todos os países
europeus, aceita-se que o seu fim começa com a Primeira Guerra
Mundial. É o momento no qual se consumam as rupturas iniciadas
nos últimos anos do século XIX, com o cromatismo, que começa
em Wagner e que leva ao atonalismo, formulado, primeiro como
aumento dessa ruptura e depois como teoria organizada, por Arnold
Schönberg, e confirmado pela segunda Escola de Viena.
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