|
a |
A |
(á) |
j |
J |
(jota) |
s |
S |
(esse) |
|
b |
B |
(bê) |
k |
K |
(capa ou cá) |
t |
T |
(tê) |
|
c |
C |
(cê) |
l |
L |
(ele) |
u |
U |
(u) |
|
d |
D |
(dê) |
m |
M |
(eme) |
v |
V |
(vê) |
|
e |
E |
(é) |
n |
N |
(ene) |
w |
W |
(dáblio) |
|
f |
F |
(efe) |
o |
O |
(ó) |
x |
X |
(xis) |
|
g |
G |
(gê ou guê) |
p |
P |
(pê) |
y |
Y |
(ípsilon) |
|
h |
H |
(agá) |
q |
Q |
(quê) |
z |
Z |
(zê) |
|
i |
I |
(i) |
r |
R |
(erre) |
|
|
|
Obs.: 1. Além destas letras, usam-se o ç (cê
cedilhado) e os seguintes dígrafos: rr (erre duplo), ss (esse
duplo), ch (cê-agá), lh (ele-agá), nh (ene-agá), gu
(guê-u) e qu (quê-u).
2. Os
nomes das letras acima sugeridos não excluem outras formas de as designar.
2º)As letras k, w e y usam-se nos seguintes casos
especiais:
a)Em antropónimos/antropônimos originários de outras
línguas e seus derivados: Franklin, frankliniano; Kant,
kantismo; Darwin, darwinismo; Wagner, wagneriano;
Byron, byroniano; Taylor, taylorista;
b)Em topónimos/topônimos originários de outras línguas
e seus derivados: Kwanza, Kuwait, kuwaitiano; Malawi,
malawiano;
c)Em siglas, símbolos e mesmo em palavras adotadas
como unidades de medida de curso internacional: TWA, KLM; K-potássio
(de kalium), W-oeste (West); kg-quilograma,
km-quilómetro, kW-kilowatt, yd-jarda (yard); Watt.
3º)Em congruência com o número anterior, mantêm-se nos
vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios estrangeiros quaisquer
combinações gráficas ou sinais diacríticos não peculiares à nossa escrita que
figurem nesses nomes: comtista, de Comte; garrettiano, de
Garrett; jeffersónia/jeffersônia, de Jefferson;
mülleriano, de Müller, shakespeariano, de Shakespeare.
Os vocabulários autorizados registrarão grafias
alternativas admissíveis, em casos de divulgação de certas palavras de tal tipo
de origem (a exemplo de fúcsia/ fúchsia e derivados,
buganvília/ buganvílea/ bougainvíllea).
4º)Os dígrafos finais de origem hebraica ch, ph e th
podem conservar-se em formas onomásticas da tradição bíblica, como Baruch,
Loth, Moloch, Ziph, ou então simplificar-se: Baruc, Lot, Moloc, Zif.
Se qualquer um destes dígrafos, em formas do mesmo tipo, é invariavelmente mudo,
elimina-se: José, Nazaré, em vez de Joseph, Nazareth; e se algum
deles, por força do uso, permite adaptação, substitui-se, recebendo uma adição
vocálica: Judite, em vez de Judith.
5º)As consoantes finais grafadas b, c, d, g e t
mantêm-se, quer sejam mudas, quer proferidas, nas formas onomásticas em que o
uso as consagrou, nomeadamente antropónimos/antropônimos e topónimos/topônimos
da tradição bíblica: Jacob, Job, Moab, Isaac; David, Gad; Gog, Magog;
Bensabat, Josafat.
Integram-se também nesta forma:
Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e Valhadolid, em
que o d ora é pronunciado, ora não; e Calecut ou Calicut, em que o
t se encontra nas mesmas condições.
Nada impede, entretanto, que dos
antropónimos/antopônimos em apreço sejam usados sem a consoante final Jó,
Davi e Jacó.
6º)Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas
estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando
estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam
entrar, no uso corrente. Exemplo: Anvers, substituído por Antuérpia;
Cherbourg, por Cherburgo; Garonne, por Garona;
Genève, por Genebra; Jutland, por Jutlândia; Milano,
por Milão; München, por Munique; Torino, por
Turim; Zürich, por Zurique, etc.
Base II
Do h inicial e final
1º)O
h inicial emprega-se:
a)Por força da etimologia: haver, hélice, hera,
hoje, hora, homem, humor.
b)Em virtude de adoção convencional: hã?,
hem?, hum!.
2º)O h inicial suprime-se:
a)Quando, apesar da etimologia, a sua supressão está
inteiramente consagrada pelo uso: erva, em vez de herva; e,
portanto, ervaçal, ervanário, ervoso (em contraste com
herbáceo, herbanário, herboso, formas de origem erudita);
b)Quando, por via de composição, passa a interior e o
elemento em que figura se aglutina ao precedente: biebdomadário,
desarmonia, desumano, exaurir, inábil, lobisomem,
reabilitar, reaver;
3º)O h inicial mantém-se, no entanto, quando,
numa palavra composta, pertence a um elemento que está ligado ao anterior por
meio de hífen: anti-higiénico/anti-higiênico, contra-haste; pré-história,
sobre-humano.
4º)O h final emprega-se em interjeições: ah!
oh!
Base III
Da homofonia de certos grafemas consonânticos
Dada
a homofonia existente entre certos grafemas consonânticos, torna-se necessário
diferençar os seus empregos, que fundamentalmente se regulam pela história das
palavras. É certo que a variedade das condições em que se fixam na escrita os
grafemas consonânticos homófonos nem sempre permite fácil diferenciação dos
casos em que se deve empregar uma letra e daqueles em que, diversamente, se deve
empregar outra, ou outras, a representar o mesmo som.
Nesta conformidade, importa notar, principalmente, os
seguintes casos:
1º)Distinção gráfica entre ch e x:
achar, archote, bucha, capacho, capucho, chamar, chave, Chico, chiste, chorar,
colchão, colchete, endecha, estrebucha, facho, ficha, flecha, frincha, gancho,
inchar, macho, mancha, murchar, nicho, pachorra, pecha, pechincha, penacho,
rachar, sachar, tacho; ameixa, anexim, baixel, baixo, bexiga, bruxa,
coaxar, coxia, debuxo, deixar, eixo, elixir, enxofre, faixa, feixe, madeixa,
mexer, oxalá, praxe, puxar, rouxinol, vexar, xadrez, xarope, xenofobia, xerife,
xícara.
2º)Distinção gráfica entre g, com valor de
fricativa palatal, e j: adágio, alfageme, Álgebra, algema, algeroz,
Algés, algibebe, algibeira, álgido, almargem, Alvorge, Argel, estrangeiro,
falange, ferrugem, frigir, gelosia, gengiva, gergelim, geringonça, Gibraltar,
ginete, ginja, girafa, gíria, herege, relógio, sege, Tânger, virgem;
adjetivo, ajeitar, ajeru (nome de planta indiana e de uma espécie de
papagaio), canjerê, canjica, enjeitar, granjear, hoje, intrujice, jecoral,
jejum, jeira, jeito, Jeová, jenipapo, jequiri, jequitibá, Jeremias, Jericó,
jerimum, Jerónimo, Jesus, jibóia, jiquipanga, jiquiró, jiquitaia, jirau, jiriti,
jitirana, laranjeira, lojista, majestade, majestoso, manjerico, manjerona,
mucujê, pajé, pegajento, rejeitar, sujeito, trejeito.
3º)Distinção gráfica entre as letras s, ss,
c, ç e x, que representam sibilantes surdas: ânsia,
ascensão, aspersão, cansar, conversão, esconso, farsa, ganso, imenso, mansão,
mansarda, manso, pretensão, remanso, seara, seda, Seia, Sertã, Sernancelhe,
serralheiro, Singapura, Sintra, sisa, tarso, terso, valsa; abadessa,
acossar, amassar, arremessar, Asseiceira, asseio, atravessar, benesse, Cassilda,
codesso (identicamente Codessal ou Codassal, Codesseda, Codessoso, etc.),
crasso, devassar, dossel, egresso, endossar, escasso, fosso, gesso, molosso,
mossa, obsessão, pêssego, possesso, remessa, sossegar; acém, acervo,
alicerce, cebola, cereal, Cernache, cetim, Cinfães, Escócia, Macedo, obcecar,
percevejo; açafate, açorda, açúcar, almaço, atenção, berço, Buçaco,
caçanje, caçula, caraça, dançar, Eça, enguiço, Gonçalves, inserção, linguiça,
maçada, Mação, maçar, Moçambique, Monção, muçulmano, murça, negaça, pança, peça,
quiçaba, quiçaça, quiçama, quiçamba, Seiça (grafia que pretere as
erróneas/errôneas Ceiça e Ceissa), Seiçal, Suíça, terço;
auxílio, Maximiliano, Maximino, máximo, próximo, sintaxe.
4º)Distinção gráfica entre s de fim de sílaba
(inicial ou interior) e x e z com idêntico valor fónico/fônico:
adestrar, Calisto, escusar, esdrúxulo, esgotar, esplanada, esplêndido,
espontâneo, espremer, esquisito, estender, Estremadura, Estremoz, inesgotável;
extensão, explicar, extraordinário, inextricável, inexperto, sextante, têxtil;
capazmente, infelizmente, velozmente. De acordo com esta distinção convém
notar dois casos:
a)Em final de sílaba que não seja final de palavra, o
x = s muda para s sempre que está precedido de i ou
u: justapor, justalinear, misto, sistino (cf. Capela Sistina),
Sisto, em vez de juxtapor, juxtalinear, mixto, sixtina, Sixto.
b)Só nos advérbios em –mente se admite z,
com valor idêntico ao de s, em final de sílaba seguida de outra consoante
(cf. capazmente, etc.); de contrário, o s toma sempre o lugar de
z: Biscaia, e não Bizcaia.
5º)Distinção gráfica entre s final de palavra e
x e z com idêntico valor fónico/fônico: aguarrás, aliás, anis,
após atrás, através, Avis, Brás, Dinis, Garcês, gás, Gerês, Inês, íris, Jesus,
jus, lápis, Luís, país, português, Queirós, quis, retrós, revés, Tomás, Valdés;
cálix, Félix, Fénix, flux; assaz, arroz, avestruz, dez, diz, fez
(substantivo e forma do verbo fazer), fiz, Forjaz, Galaaz, giz,
jaez, matiz, petiz, Queluz, Romariz, [Arcos de] Valdevez, Vaz.
A propósito, deve observar-se que é inadmissível z final equivalente a
s em palavra não oxítona: Cádis, e não Cádiz.
6º)Distinção gráfica entre as letras interiores s,
x e z, que representam sibilantes sonoras: aceso, analisar,
anestesia, artesão, asa, asilo, Baltasar, besouro, besuntar, blusa, brasa,
brasão, Brasil, brisa, [Marco de] Canaveses, coliseu, defesa,
duquesa, Elisa, empresa, Ermesinde, Esposende, frenesi ou frenesim,
frisar, guisa, improviso, jusante, liso, lousa, Lousã, Luso (nome de lugar,
homónimo/homônimo de Luso, nome mitológico), Matosinhos, Meneses,
narciso, Nisa, obséquio, ousar, pesquisa, portuguesa, presa, raso, represa,
Resende, sacerdotisa, Sesimbra, Sousa, surpresa, tisana, transe, trânsito, vaso;
exalar, exemplo, exibir, exorbitar, exuberante, inexato, inexorável;
abalizado, alfazema, Arcozelo, autorizar, azar, azedo, azo, azorrague, baliza,
bazar, beleza, buzina, búzio, comezinho, deslizar, deslize, Ezequiel, fuzileiro,
Galiza, guizo, helenizar, lambuzar, lezíria, Mouzinho, proeza, sazão, urze,
vazar, Veneza, Vizela, Vouzela.
Base IV
Das seqüências consonânticas
1º)O
c, com valor de oclusiva velar, das seqüências interiores cc
(segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p
das seqüências interiores pc (c com valor de sibilante), pç
e pt, ora se conservam, ora se eliminam.
Assim:
a)Conservam-se nos casos em que são invariavelmente proferidos nas pronúncias
cultas da língua: compacto, convicção, convicto, ficção, friccionar, pacto,
pictural; adepto, apto, díptico, erupção, eucalipto, inepto, núpcias,
rapto.
b)Eliminam-se nos casos em que são invariavelmente
mudos nas pronúncias cultas da língua: ação, acionar, afetivo, aflição,
aflito, ato, coleção, coletivo, direção, diretor, exato, objeção; adoção,
adotar, batizar, Egito, ótimo.
c)Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente,
quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou
então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e
aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres,
dicção e dição; facto e fato, sector e setor,
ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto
e corruto, recepção e receção.
d)Quando, nas seqüências interiores mpc, mpç e mpt se
eliminar o p de acordo com o determinado nos parágrafos precedentes, o
m passa a n, escrevendo-se, respectivamente nc, nç e
nt: assumpcionista e assuncionista; assumpção e
assunção; assumptível e assuntível; peremptório e
perentório, sumptuoso e suntuoso, sumptuosidade e
suntuosidade.
2º)Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente, quando se proferem numa
pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a
prolação e o emudecimento: o b da seqüência bd, em súbdito;
o b da seqüência bt, em subtil e seus derivados; o g
da seqüência gd, em amígdala, amigdalácea, amigdalar,
amigdalato, amigdalite, amigdalóide, amigdalopatia,
amigdalotomia; o m da seqüência mn, em amnistia,
amnistiar, indemne, indemnidade, indemnizar,
omnímodo, omnipotente, omnisciente, etc.; o t, da
seqüência tm, em aritmética e aritmético.
Base V
Das vogais átonas
1º)O emprego do e e do i, assim como o
do o e do u, em sílaba átona, regula-se fundamentalmente pela
etimologia e por particularidades da história das palavras. Assim se estabelecem
variadíssimas grafias:
a)Com e e i: ameaça, amealhar,
antecipar, arrepiar, balnear, boreal, campeão, cardeal (prelado, ave planta;
diferente de cardial = “relativo à cárdia”), Ceará, côdea, enseada,
enteado, Floreal, janeanes, lêndea, Leonardo, Leonel, Leonor, Leopoldo, Leote,
linear, meão, melhor, nomear, peanha, quase (em vez de quási),
real, semear, semelhante, várzea; ameixial, Ameixieira, amial, amieiro,
arrieiro, artilharia, capitânia, cordial (adjetivo e substantivo),
corriola, crânio, criar, diante, diminuir, Dinis, ferregial, Filinto, Filipe
(e identicamente Filipa, Filipinas, etc.), freixial, giesta,
Idanha, igual, imiscuir-se, inigualável, lampião, limiar, Lumiar, lumieiro,
pátio, pior, tigela, tijolo, Vimieiro, Vimioso;
b)Com o e u: abolir, Alpendorada,
assolar, borboleta, cobiça, consoada, consoar, costume, díscolo, êmbolo,
engolir, epístola, esbaforir-se, esboroar, farândola, femoral, Freixoeira,
girândola, goela, jocoso, mágoa, névoa, nódoa, óbolo, Páscoa, Pascoal, Pascoela,
polir, Rodolfo, távoa, tavoada, távola, tômbola, veio (substantivo e forma
do verbo vir); açular, água, aluvião, arcuense, assumir, bulir,
camândulas, curtir, curtume, embutir, entupir, fémur/fêmur, fístula, glândula,
ínsua, jucundo, légua, Luanda, lucubração, lugar, mangual, Manuel, míngua,
Nicarágua, pontual, régua, tábua, tabuada, tabuleta, trégua, virtualha.
2º)Sendo muito variadas as condições etimológicas e
histórico-fonéticas em que se fixam graficamente e e i ou o
e u em sílaba átona, é evidente que só a consulta dos vocabulários ou
dicionários pode indicar, muitas vezes, se deve empregar-se e ou i,
se o ou u. Há, todavia, alguns casos em que o uso dessas vogais
pode ser facilmente sistematizado. Convém fixar os seguintes:
a)Escrevem-se com e, e não com i, antes
da sílaba tónica/tônica, os substantivos e adjetivos que procedem de
substantivos terminados em – eio e – eia, ou com eles estão em
relação direta. Assim se regulam: aldeão, aldeola, aldeota por aldeia;
areal, areeiro, areento, Areosa por areia; aveal por
aveia; baleal por baleia; cadeado por cadeia;
candeeiro por candeia; centeeira e centeeiro por
centeio; colmeal e colmeeiro por colmeia; correada
e correame por correia.
b)Escrevem-se igualmente com e, antes de vogal
ou ditongo da sílaba tónica/tônica, os derivados de palavras que terminam em
e acentuado (o qual pode representar um antigo hiato: ea, ee):
galeão, galeota, galeote, de galé; coreano, de Coreia;
daomeano, de Daomé; guineense, de Guiné; poleame
e poleeiro, de polé.
c)Escrevem-se com i, e não com e, antes
da sílaba tónica/tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os
sufixos mistos de formação vernácula – iano e –iense, os quais são
o resultado da combinação dos sufixos –ano e –ense com um i
de origem analógica (baseado em palavras onde –ano e –ense estão
precedidos de i pertencente ao tema: horaciano, italiano, duriense,
flaviense, etc.): açoriano, acriano (de Acre), camoniano,
goisiano (relativo a Damião de Góis), siniense (de Sines),
sofocliano, torriano, torriense (de Torre(s)).
d)Uniformizam-se com as terminações –io e
–ia (átonas), em vez de –eo e –ea, os substantivos que
constituem variações, obtidas por ampliação, de outros substantivos terminados
em vogal: cúmio (popular), de cume; hástia, de haste;
réstia, do antigo reste; véstia, de veste.
e)Os
verbos em –ear podem distinguir-se praticamente, grande número de vezes,
dos verbos em –iar, quer pela formação, quer pela conjugação e formação
ao mesmo tempo. Estão no primeiro caso todos os verbos que se prendem a
substantivos em –eio ou –eia (sejam formados em português ou
venham já do latim); assim se regulam: aldear, por aldeia;
alhear, alheio; cear, por ceia; encadear, por
cadeia; pear, por peia; etc. Estão no segundo caso todos os
verbos que têm normalmente flexões rizotónicas/rizotônicas em –eio, -eias,
etc.: clarear, delinear, devanear, falsear, granjear, guerrear, hastear,
nomear, semear, etc. Existem, no entanto, verbos em –iar, ligados a
substantivos com as terminações átonas –ia ou –io, que admitem
variantes na conjugação: negoceio ou negocio (cf. negócio);
premeio ou premio (cf. prémio/prêmio); etc.
f)Não é lícito o emprego do u final átono em
palavras de origem latina. Escreve-se, por isso: moto, em vez de mótu
(por exemplo, na expressão de moto próprio); tribo, em vez de
tríbu.
g)Os verbos em –oar distinguem-se praticamente
dos verbos em –uar pela sua conjugação nas formas
rizotónicas/rizotônicas, que têm sempre o na sílaba acentuada:
abençoar com o, como abençoo, abençoas, etc.;
destoar, com o, como destoo, destoas, etc.: mas
acentuar, com u, como acentuo, acentuas, etc.
Base VI
Das vogais nasais
Na representação das vogais nasais devem observar-se
os seguintes preceitos:
1º)Quando uma vogal nasal ocorre em fim de palavra, ou
em fim de elemento seguido de hífen, representa-se a nasalidade pelo til, se
essa vogal é de timbre a; por m, se possui qualquer outro timbre e
termina a palavra; e por n, se é de timbre diverso de a e está
seguida de s: afã, grã, Grã-Bretanha, lã,
órfã, sã-braseiro (forma dialetal; o mesmo que são-brasense =
de S. Brás de Alportel); clarim, tom, vacum; flautins,
semitons, zunzuns.
2º)Os vocábulos terminados em –ã transmitem
esta representação do a nasal aos advérbios em –mente que deles se
formem, assim como a derivados em que entrem sufixos iniciados por z:
cristãmente, irmãmente, sãmente; lãzudo, maçãzita, manhãzinha, romãzeira.
Base VII
Dos ditongos
1º)Os
ditongos orais, que tanto podem ser tónicos/tônicos como átonos, distribuem-se
por dois grupos gráficos principais, conforme o segundo elemento do ditongo é
representado por i ou u: ai, ei, éi, ui; au, eu, éu, iu,
ou: braçais, caixote, deveis, eirado, farnéis (mas farneizinhos),
goivo, goivar, lençóis (mas lençoizinhos), tafuis, uivar,
cacau, cacaueiro, deu, endeusar, ilhéu (mas ilheuzito), mediu,
passou, regougar.
Obs:
Admitem-se, todavia, excepcionalmente, à parte destes dois grupos, os ditongos
grafados ae(= âi ou ai) e ao (= âu ou au):
o primeiro, representado nos antropónimos/antropônimos Caetano e
Caetana, assim como nos respectivos derivados e compostos (caetaninha,
são-caetano, etc.); o segundo, representado nas combinações da preposição
a com as formas masculinas do artigo ou pronome demonstrativo o,
ou seja, ao e aos.
2º)Cumpre fixar, a propósito dos ditongos orais, os
seguintes preceitos particulares:
a)É o ditongo grafado ui, e não a seqüência
vocálica grafada ue, que se emprega nas formas de 2a e
3a pessoas do singular do presente do indicativo e igualmente
na da 2a pessoa do singular do imperativo dos verbos em –
uir: constituis, influi, retribui. Harmonizam-se, portanto, essas
formas com todos os casos de ditongo grafado ui de sílaba final ou fim de
palavra (azuis, fui, Guardafui, Rui, etc.); e ficam assim em paralelo
gráfico-fonético com as formas de 2a e 3a
pessoas do singular do presente do indicativo e de 2a pessoa
do singular do imperativo dos verbos em – air e em – oer:
atrais, cai, sai; móis, remói, sói.
b)É o ditongo grafado ui que representa sempre,
em palavras de origem latina, a união de um u a um i átono
seguinte. Não divergem, portanto, formas como fluido de formas como
gratuito. E isso não impede que nos derivados de formas daquele tipo as
vogais grafadas u e i se separem: fluídico, fluidez
(u-i).
c)Além, dos ditongos orais propriamente ditos, os
quais são todos decrescentes, admite-se, como é sabido, a existência de ditongos
crescentes. Podem considerar-se no número deles as seqüências vocálicas
pós-tónicas/pós-tônicas, tais as que se representam graficamente por ea, eo,
ia, ie, io, oa, ua, ue, uo: áurea, áureo, calúnia, espécie, exímio,
mágoa, míngua, ténue/tênue, tríduo.
3º)Os ditongos nasais, que na sua maioria tanto podem
ser tónicos/tônicos como átonos, pertencem graficamente a dois tipos
fundamentais: ditongos representados por vogal com til e semivogal; ditongos
representados por uma vogal seguida da consoante nasal m. Eis a indicação de uns
e outros:
a)Os ditongos representados por vogal com til e
semivogal são quatro, considerando-se apenas a língua padrão contemporânea:
ãe (usado em vocábulos oxítonos e derivados), ãi (usado em vocábulos
anoxítonos e derivados), ão e õe. Exemplos: cães, Guimarães,
mãe, mãezinha; cãibas, cãibeiro, cãibra, zãibo; mão, mãozinha,
não, quão, sótão, sotãozinho, tão; Camões, orações, oraçõezinhas, põe,
repões. Ao lado de tais ditongos pode, por exemplo, colocar-se o ditongo
ũi; mas este, embora se exemplifique numa forma popular como rũi =
ruim, representa-se sem o til nas formas muito e mui, por
obediência à tradição.
b)Os ditongos representados por uma vogal seguida da
consoante nasal m são dois: am e em. Divergem, porém, nos
seus empregos:
i)am (sempre átono) só se emprega em flexões
verbais: amam, deviam, escreveram, puseram;
ii)em (tónico/tônico ou átono) emprega-se em
palavras de categorias morfológicas diversas, incluindo flexões verbais, e pode
apresentar variantes gráficas determinadas pela posição, pela acentuação ou,
simultaneamente, pela posição e pela acentuação: bem, Bembom, Bemposta, cem,
devem, nem, quem, sem, tem, virgem; Bencanta, Benfeito, Benfica,
benquisto, bens, enfim, enquanto, homenzarrão, homenzinho, nuvenzinha, tens,
virgens, amém (variação de ámen), armazém, convém, mantém,
ninguém, porém, Santarém, também; convêm, mantêm, têm (3as
pessoas do plural); armazéns, desdéns, convéns, reténs; Belenzada,
vintenzinho.
Base VIII
Da acentuação gráfica das palavras oxítonas
1º)Acentuam-se com acento agudo:
a)As palavras oxítonas terminadas nas vogais
tónicas/tônicas abertas grafadas –a, –e ou –o, seguidas ou
não de –s: está, estás, já, olá; até, é, és, olé, pontapé(s);
avó(s), dominó(s), paletó(s), só(s).
Obs.:
Em algumas (poucas) palavras oxítonas terminadas em –e tónico/tônico,
geralmente provenientes do francês, esta vogal, por ser articulada nas
pronúncias cultas ora como aberta ora como fechada, admite tanto o acento agudo
como o acento circunflexo: bebé ou bebê; bidé ou bidê,
canapé ou canapê, caraté ou caratê, croché ou
crochê, guiché ou guichê, matiné ou matinê,
nené ou nenê, ponjé ou ponjê, puré ou purê,
rapé ou rapê.
O
mesmo se verifica com formas como cocó e cocô, ró (letra do
alfabeto grego) e rô. São igualmente admitidas formas como judô, a
par de judo, e metrô, a par de metro.
b)As formas verbais oxítonas, quando, conjugadas com
os pronomes clíticos lo(s) ou la(s), ficam a terminar na vogal
tónica/tônica aberta grafada –a, após a assimilação e perda das
consoantes finais grafadas –r, –s ou –z: adorá-lo(s)
(de adorar-lo(s)), dá-la(s) (de dar-la(s) ou dá(s)-la(s)),
fá-lo(s) (de faz-lo(s)), fá-lo(s)-ás (de far-lo(s)-ás),
habitá-la(s)-iam (de habitar-la(s)-iam), trá-la(s)-á (de
trar-la(s)-á);
c)As palavras oxítonas com mais de uma sílaba
terminadas no ditongo nasal grafado –em (exceto as formas da 3a
pessoa do plural do presente do indicativo dos compostos de ter e vir:
retêm, sustêm; advêm, provêm; etc) ou –ens: acém, detém,
deténs, entretém, entreténs, harém, haréns, porém, provém, provéns, também;
d)As palavras oxítonas com os ditongos abertos
grafados –éi, –éu ou –ói, podendo estes dois últimos ser
seguidos ou não de –s: anéis, batéis, fiéis, papéis; céu(s),
chapéu(s), ilhéu(s), véu(s); corrói (de corroer), herói(s),
remói (de remoer), sóis.
2º)Acentuam-se com acento circunflexo:
a)As palavras oxítonas terminadas nas vogais
tónicas/tônicas fechadas que se grafam –e ou –o, seguidas ou não
de –s: cortês, dê, dês (de dar), lê, lês (de ler),
português, você(s); avô(s), pôs (de pôr), robô(s).
b)As formas verbais oxítonas, quando, conjugadas com
os pronomes clíticos –lo(s) ou –la(s), ficam a terminar nas vogais
tónicas/tônicas fechadas que se grafam –e ou –o, após a
assimilação e perda das consoantes finais grafadas –r, –s ou –z:
detê-lo(s) (de deter-lo(s)), fazê-la(s) (de fazer-la(s)),
fê-lo(s) (de fez-lo(s)), vê-la(s) (de ver-la(s)),
compô-la(s) (de compor-la(s)), repô-la(s) (de repor-la(s)),
pô-la(s) (de por-la(s) ou pôs-la(s)).
3º)Prescinde-se de acento gráfico para distinguir
palavras oxítonas homógrafas, mas heterofónicas/heterofônicas, do tipo de cor
(ô), substantivo, e cor (ó), elemento da locução de cor; colher
(ê), verbo, e colher (é), substantivo. Excetua-se a forma verbal pôr,
para a distinguir da preposição por.
Base IX
Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas
1º)As
palavras paroxítona não são em geral acentuadas graficamente: enjoo, grave,
homem, mesa, Tejo, vejo, velho, voo; avanço, floresta; abençoo,
angolano, brasileiro; descobrimento, graficamente, moçambicano.
2º)Recebem, no entanto, acento agudo:
a)As palavras paroxítonas que apresentam, na sílaba
tónica/tônica, as vogais abertas grafadas a, e, o e ainda
i ou u e que terminam em –l, –n, –r, –x
e –ps, assim como, salvo raras exceções, as respectivas formas do plural,
algumas das quais passam a proparoxítonas: amável (pl. amáveis),
Aníbal, dócil (pl. dóceis), dúctil (pl. dúcteis),
fóssil (pl. fósseis), réptil (pl. réptéis; var.
reptil, pl. reptis); cármen (pl. cármenes ou carmens;
var. carme, pl. carmes); dólmen (pl. dólmenes ou
dolmens), éden (pl. édenes ou edens), líquen
(pl. líquenes), lúmen (pl. lúmenes ou lumens);
açúcar (pl. açúcares), almíscar (pl. almíscares),
cadáver (pl. cadáveres), caráter ou carácter (mas pl.
carateres ou caracteres), ímpar (pl. ímpares);
Ájax, córtex (pl. córtex; var. córtice, pl. córtices),
índex (pl. index; var. índice, pl. índices),
tórax, (pl. tórax ou tóraxes; var. torace, pl.
toraces); bíceps (pl. bíceps; var. bicípite, pl.
bicípites), fórceps (pl. fórceps; var. fórcipe, pl.
fórcipes).
Obs.:
Muito poucas palavras deste tipo, com as vogais tónicas/tônicas grafadas e
e o em fim de sílaba, seguidas das consoantes nasais grafadas m e
n, apresentam oscilação de timbre nas pronúncias cultas da língua e, por
conseguinte, também de acento gráfico (agudo ou circunflexo): sémen e
sêmen, xénon e xênon; fémur e fêmur, vómer
e vômer; Fénix e Fênix, ónix e ônix.
b)As palavras paroxítonas que apresentam, na sílaba
tónica/tônica, as vogais abertas grafadas a, e, o e ainda i ou
u e que terminam em –ã(s), –ão(s), –ei(s), –i(s), –um, –uns ou –us:
órfã (pl. órfãs), acórdão (pl. acórdãos), órfão
(pl. órfãos), órgão (pl. órgãos), sótão (pl.
sótãos); hóquei, jóquei (pl. jóqueis), amáveis
(pl. de amável), fáceis (pl. de fácil), fósseis (pl.
de fóssil), amáreis (de amar), amáveis (id.),
cantaríeis (de cantar), fizéreis (de fazer),
fizésseis (id.); beribéri (pl. beribéris), bílis (sg. e
pl.), íris (sg. e pl.), júri (pl. júris), oásis (sg.
e pl.); álbum (pl. álbuns), fórum (pl. fóruns);
húmus (sg. e pl.), vírus (sg. e pl.).
Obs.:
Muito poucas paroxítonas deste tipo, com as vogais tónicas/tônicas grafadas e
e o em fim de sílaba, seguidas das consoantes nasais grafadas m e
n, apresentam oscilação de timbre nas pronúncias cultas da língua, o qual
é assinalado com acento agudo, se aberto, ou circunflexo, se fechado: pónei
e pônei; gónis e gônis, pénis e pênis,
ténis e tênis; bónus e bônus, ónus e ônus,
tónus e tônus, Vénus e Vênus.
3º)Não se acentuam graficamente os ditongos
representados por ei e oi da sílaba tónica/tônica das palavras
paroxítonas, dado que existe oscilação em muitos casos entre o fechamento e a
abertura na sua articulação: assembleia, boleia, ideia, tal
como aldeia, baleia, cadeia, cheia, meia;
coreico, epopeico, onomatopeico, proteico; alcaloide, apoio (do verbo
apoiar), tal como apoio (subst.), Azoia, boia, boina, comboio
(subst.), tal como comboio, comboias, etc. (do verbo comboiar),
dezoito, estroina, heroico, introito, jiboia,
moina, paranoico, zoina.
4º)É facultativo assinalar com acento agudo as formas
verbais de pretérito perfeito do indicativo, do tipo amámos, louvámos,
para as distinguir das correspondentes formas do presente do indicativo (amamos,
louvamos), já que o timbre da vogal tónica/tônica é aberto naquele caso em
certas variantes do português.
5º)Recebem acento circunflexo:
a)As
palavras paroxítonas que contêm, na sílaba tónica/tônica, as vogais fechadas com
a grafia a, e, o e que terminam em –l, –n, –r ou –x, assim
como as respectivas formas do plural, algumas das quais se tornam
proparoxítonas: cônsul (pl. cônsules), pênsil (pênseis),
têxtil (pl. têxteis); cânon, var. cânone, (pl.
cânones), plâncton (pl. plânctons); Almodôvar,
aljôfar (pl. aljôfares), âmbar (pl. âmbares), Câncer,
Tânger; bômbax (sg. e pl.), bômbix, var. bômbice,
(pl. bômbices).
b)As palavras paroxítonas que contêm, na sílaba
tónica/tônica, as vogais fechadas com a grafia a, e, o e que terminam em
–ão(s), –eis, –i(s) ou –us: bênção(s), côvão(s),
Estêvão, zângão(s); devêreis (de dever), escrevêsseis
(de escrever), fôreis (de ser e ir), fôsseis
(id.), pênseis (pl. de pênsil), têxteis (pl. de têxtil);
dândi(s), Mênfis; ânus.
c)As formas verbais têm e vêm, 3as
pessoas do plural do presente do indicativo de ter e vir, que são
foneticamente paroxítonas (respectivamente /tãjãj/, /vãjãj/ ou /tẽẽj/, /vẽẽj/ ou
ainda /tẽjẽj/, /vẽjẽj/; cf. as antigas grafias preteridas, tẽem, vẽem),
a fim de se distinguirem de tem e vem, 3as
pessoas do singular do presente do indicativo ou 2as pessoas
do singular do imperativo; e também as correspondentes formas compostas, tais
como: abstêm (cf. abstém), advêm (cf. advém),
contêm (cf. contém), convêm (cf. convém), desconvêm
(cf. desconvém), detêm (cf. detém), entretêm (cf.
entretém), intervêm (cf. intervém), mantêm (cf.
mantém), obtêm (cf. obtém), provêm (cf. provém),
sobrevêm (cf. sobrevém).
Obs.:
Também neste caso são preteridas as antigas grafias detẽem, intervẽem,
mantẽem, provẽem, etc.
6º)Assinalam-se com acento circunflexo:
a)Obrigatoriamente, pôde (3a
pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo), que se distingue da
correspondente forma do presente do indicativo (pode).
b)Facultativamente, dêmos (1a
pessoa do plural do presente do conjuntivo), para se distinguir da
correspondente forma do pretérito perfeito do indicativo (demos);
fôrma (substantivo), distinta de forma (substantivo; 3a
pessoa do singular do presente do indicativo ou 2a pessoa do
singular do imperativo do verbo formar).
7º)Prescinde-se de acento circunflexo nas formas
verbais paroxítonas que contêm um e tónico/tônico oral fechado em hiato
com a terminação –em da 3ª pessoa do plural do presente do indicativo ou
do conjuntivo, conforme os casos: creem, deem (conj.), descreem,
desdeem (conj.), leem, preveem, redeem (conj.), releem, reveem,
tresleem, veem.
8º)Prescinde-se igualmente do acento circunflexo para
assinalar a vogal tónica/tônica fechada com a grafia o em palavras
paroxítonas como enjoo, substantivo e flexão de enjoar, povoo,
flexão de povoar, voo, substantivo e flexão de voar, etc.
9º)Prescinde-se, quer do acento agudo, quer do
circunflexo, para distinguir palavras paroxítonas que, tendo respectivamente
vogal tónica/tônica aberta ou fechada, são homógrafas de palavras proclíticas.
Assim, deixam de se distinguir pelo acento gráfico: para (á), flexão de
parar, e para, preposição; pela(s) (é), substantivo e
flexão de pelar, e pela(s), combinação de per e la(s);
pelo (é), flexão de pelar, pelo(s) (ê), substantivo ou
combinação de per e lo(s); polo(s) (ó), substantivo, e
polo(s), combinação antiga e popular de por e lo(s); etc.
10º)Prescinde-se igualmente de acento gráfico para
distinguir paroxítonas homógrafas heterofónicas/heterofônicas do tipo de
acerto (ê), substantivo e acerto (é), flexão de acertar;
acordo (ô), substantivo, e acordo (ó), flexão de acordar;
cerca (ê), substantivo, advérbio e elemento da locução prepositiva cerca
de, e cerca (é), flexão de cercar; coro (ô),
substantivo, e coro (ó), flexão de corar; deste (ê),
contracção da preposição de com o demonstrativo este, e deste
(é), flexão de dar; fora (ô), flexão de ser e ir, e
fora (ó), advérbio, interjeição e substantivo; piloto (ô),
substantivo, e piloto (ó), flexão de pilotar, etc.
Base X
Da acentuação das vogais tónicas/tônicas grafadas i
e u das
palavras oxítonas e paroxítonas
1º)As
vogais tóncias/tônicas grafadas i e u das palavras oxítonas e
paroxítonas levam acento agudo quando antecedidas de uma vogal com que não
formam ditongo e desde de que não constituam sílaba com a eventual consoante
seguinte, excetuando o caso de s: adaís (pl. de adail),
aí, atraí (de atrair), baú, caís (de cair),
Esaú, jacuí, Luís, país, etc.; alaúde, amiúde, Araújo,
Ataíde, atraíam (de atrair), atraísse (id.), baía,
balaústre, cafeína, ciúme, egoísmo, faísca, faúlha, graúdo, influíste
(de influir), juízes, Luísa, miúdo, paraíso, raízes, recaída, ruína,
saída, sanduíche, etc.
2º)As vogais tónicas/tônicas grafadas i e u
das palavras oxítonas e paroxítonas não levam acento agudo quando, antecedidas
de vogal com que não formam ditongo, constituem sílaba com a consoante seguinte,
como é o caso de nh, l, m, n, r e z: bainha, moinho, rainha;
adail, paul, Raul; Aboim, Coimbra, ruim; ainda, constituinte,
oriundo, ruins, triunfo; at-rairn. demiuñrgo,
influir, influirmos; juiz, raiz; etc.
3º)Em conformidade com as regras anteriores leva
acento agudo a vogal tónica/tônica grafada i das formas oxítonas
terminadas em r dos verbos em –air e –uir, quando estas se
combinam com as formas pronominais clíticas –lo(s), –la(s), que
levam à assimilação e perda daquele –r: atraí-lo(s) (de
atrair-lo(s)); atraí-lo(s)-ia (de atrair-lo(s)-ia);
possuí-la(s) (de possuir-la(s)); possuí-la(s)-ia (de
possuir-la(s)-ia).
4º)Prescinde-se do acento agudo nas vogais
tónicas/tônicas grafadas i e u das palavras paroxítonas, quando
elas estão precedidas de ditongo: baiuca, boiuno, cauila (var. cauira),
cheiinho (de cheio), saiinha (de saia).
5º)Levam, porém, acento agudo as vogais
tónicas/tônicas grafadas i e u quando, precedidas de ditongo,
pertencem as palavras oxítonas e estão em posição final ou seguidas de s:
Piauí, teiú, teiús, tuiuiú, tuiuiús.
Obs.:
Se, neste caso, a consoante final for diferente de s, tais vogais
dispensam o acento agudo: cauim.
6º)Prescinde-se do acento agudo nos ditongos
tónicos/tônicos grafados iu e ui, quando precedidos de vogal:
distraiu, instruiu, pauis (pl. de paul).
7º)Os verbos arguir e redarguir
prescindem do acento agudo na vogal tónica/tônica grafada u nas formas
rizotónicas/rizotônicas: arguo, arguis, argui, arguem,
argua, arguas, argua, arguam. Os verbos do tipo de aguar,
apaniguar, apaziguar, apropinquar, averiguar, desaguar, enxaguar, obliquar,
delinquir e afins, por oferecerem dois paradigmas, ou têm as formas
rizotónicas/rizotônicas igualmente acentuadas no u mas sem marca gráfica
(a exemplo de averiguo, averiguas, averigua, averiguam; averigue,
averigues, averigue, averiguem; enxaguo, enxaguas, enxagua, enxaguam;
enxague, enxagues, enxague, enxaguem, etc.; delinquo, delinquis,
delinqui, delinquem; mas delinquimos, delinquís) ou têm as formas
rizotónicas/rizotônicas acentuadas fónica/fônica e graficamente nas vogais a
ou i radicais (a exemplo de averíguo, averíguas, averígua, averíguam;
averígue, averígues, averígue, averíguem; enxáguo, enxáguas, enxágua,
enxáguaim; enxágue, enxágues, enxágue, enxáguem; delínquo,
delínques; delínque, delínquem; delínqua, delínquas, delínqua, delinquám).
Obs.:
Em conexão com os casos acima referidos, registre-se que os verbos em –ingir
(atingir, cingir, constringir, infringir, tingir,
etc.) e os verbos em –inguir sem prolação do u (distinguir,
extinguir, etc.) têm grafias absolutamente regulares (atinjo, atinja,
atinge, atingimos, etc; distingo, distinga, distingue, distinguimos,
etc.)
Base XI
Da acentuação gráfica das palavras proparoxítonas
1º)Levam acento agudo:
a)As palavras proparoxítonas que apresentam na sílaba
tónica/tônica as vogais abertas grafadas a, e, o e ainda i, u ou
ditongo oral começado por vogal aberta: árabe, cáustico, Cleópatra,
esquálido, exército, hidráulico, líquido, míope, músico, plástico, prosélito,
público, rústico, tétrico, último;
b)As chamadas proparoxítonas aparentes, isto é, que
apresentam na sílaba tónica/tônica as vogais abertas grafadas a, e, o e
ainda i, u ou ditongo oral começado por vogal aberta, e que terminam por
seqüências vocálicas pós-tónicas/pós-tônicas praticamente consideradas como
ditongos crescentes (-ea, -eo, -ia, -ie, -io, -oa, -ua, -uo, etc.):
álea, náusea; etéreo, níveo; enciclopédia, glória;
barbárie, série; lírio, prélio; mágoa, nódoa; exígua,
língua; exíguo, vácuo.
2º)Levam acento circunflexo:
a)As palavras proparoxítonas que apresentam na sílaba
tónica/tônica vogal fechada ou ditongo com a vogal básica fechada:
anacreôntico, brêtema, cânfora, cômputo, devêramos (de dever),
dinâmico, êmbolo, excêntrico, fôssemos (de ser e ir),
Grândola, hermenêutica, lâmpada, lôstrego, lôbrego, nêspera, plêiade, sôfrego,
sonâmbulo, trôpego;
b)As chamadas proparoxítonas aparentes, isto é, que
apresentam vogais fechadas na sílaba tónica/tônica, e terminam por seqüências
vocálicas pós-tónicas/pós-tônicas praticamente consideradas como ditongos
crescentes: amêndoa, argênteo, côdea, Islândia, Mântua, serôdio.
3º)Levam acento agudo ou acento circunflexo as
palavras proparoxítonas, reais ou aparentes, cujas vogais tónicas/tônicas
grafadas e ou o estão em final de sílaba e são seguidas das
consoantes nasais grafadas m ou n, conforme o seu timbre é,
respectivamente, aberto ou fechado nas pronúncias cultas da língua:
académico/acadêmico, anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo,
fenómeno/fenômeno, género/gênero, topónimo/topônimo; Amazónia/Amazônia,
António/Antônio, blasfémia/blasfêmia, fémea/fêmea, gémeo/gêmeo, génio/gênio,
ténue/tênue.
Base XII
Do emprego do acento grave
1º)Emprega-se o acento grave:
a)Na contração da preposição a com as formas
femininas do artigo ou pronome demonstrativo o: à (de a + a),
às (de a + as);
b)Na contração da preposição a com os
demonstrativos aquele, aquela, aqueles, aquelas e aquilo ou ainda
da mesma preposição com os compostos aqueloutro e suas flexões:
àquele(s), àquela(s), àquilo; àqueloutro(s), àqueloutra(s);
Base XIII
Da supressão dos acentos em palavras derivadas
1º)Nos advérbios em –mente, derivados de
adjetivos com acento agudo ou circunflexo, estes são suprimidos: avidamente
(de ávido), debilmente (de débil), facilmente (de
fácil), habilmente (de hábil), ingenuamente (de
ingênuo), lucidamente (de lúcido), mamente (de má),
somente (de só), unicamente (de único), etc.;
candidamente (de cândido), cortesmente (de cortês),
dinamicamente (de dinâmico), espontaneamente (de espontâneo),
portuguesmente (de português), romanticamente (de
romântico).
2º)Nas palavras derivadas que contêm sufixos iniciados
por z e cujas formas de base apresentam vogas tónica/tônica com acento
agudo ou circunflexo, estes são suprimidos: aneizinhos (de anéis),
avozinha (de avó), bebezito (de bebê), cafezada
(de café), chapeuzinho (de chapéu), chazeiro (de
chá), heroizito (de herói), ilheuzito (de ilhéu),
mazinha (de má), orfãozinho (de órfão),
vintenzito (de vintém), etc.; avozinho (de avô),
bençãozinha (de bênção), lampadazita (de lâmpada),
pessegozito (de pêssego).
Base XIV
Do trema
O
trema, sinal de diérese, é inteiramente suprimido em palavras portuguesas ou
aportuguesadas. Nem sequer se emprega na poesia, mesmo que haja separação de
duas vogais que normalmente formam ditongo: saudade, e não saüdade,
ainda que tetrassílabo; saudar, e não saüdar, ainda que
trissílabo; etc.
Em virtude desta supressão, abstrai-se de sinal
especial, quer para distinguir, em sílaba átona, um i ou um u de
uma vogal da sílaba anterior, quer para distinguir, também em sílaba átona, um
i ou um u de um ditongo precedente, quer para distinguir, em
sílaba tónica/tônica ou átona, o u de gu ou de qu de um
e ou i seguintes: arruinar, constituiria, depoimento, esmiuçar,
faiscar, faulhar, oleicultura, paraibano, reunião; abaiucado, auiqui,
caiuá, cauixi, piauiense; aguentar, anguiforme, arguir, bilíngue (ou
bilingue), lingueta, linguista, linguístico; cinquenta,
equestre, frequentar, tranquilo, ubiquidade.
Obs.:
Conserva-se, no entanto, o trema, de acordo com a Base I, 3º, em palavras
derivadas de nomes próprios estrangeiros: hübneriano, de Hübner,
mülleriano, de Müller, etc.
Base XV
Do hífen em compostos, locuções e
encadeamentos vocabulares
1º)Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm
formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou
verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio,
podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz,
arcebispo-bispo, arco-íris, decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião,
rainha-cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor,
amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense,
sul-africano; afro-asiático, afro-luso-brasileiro, azul-escuro,
luso-brasileiro, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção,
segunda-feira; conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.
Obs.:
Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de
composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva,
pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.
2º)Emprega-se o hífen nos topónimos/topônimos
compostos, iniciados pelos adjetivos grã, grão ou por forma verbal ou
cujos elementos estejam ligados por artigo: Grã-Bretanha, Grão-Pará;
Abre-Campo; Passa-Quatro, Quebra-Costas, Quebra-Dentes, Traga-Mouros,
Trinca-Fortes; Albergaria-a-Velha, Baía de Todos-os-Santos,
Entre-os-Rios, Montemor-o-Novo, Trás-os-Montes.
Obs.:
Os outros topónimos/topônimos compostos escrevem-se com os elementos separados,
sem hífen: América do Sul, Belo Horizonte, Cabo Verde, Castelo Branco, Freixo
de Espada à Cinta, etc. O topónimo/topônimo Guiné-Bissau é, contudo,
uma exceção consagrada pelo uso.
3º)Emprega-se o hífen nas palavras compostas que
designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição
ou qualquer outro elemento: abóbora-menina, couve-flor, erva-doce,
feijão-verde; benção-de-deus, erva-do-chá, ervilha-de-cheiro,
fava-de-santo-inácio; bem-me-quer (nome de planta que também se dá à
margarida e ao malmequer); andorinha-grande, cobra-capelo,
formiga-branca; andorinha-do-mar, cobra-d’água,
lesma-de-conchinha; bem-te-vi (nome de um pássaro).
4º)Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios
bem e mal, quando estes formam com o elemento que se lhes segue
uma unidade sintagmática e semântica e tal elemento começa por vogal ou h.
No entanto, o advérbio bem, ao contrário do mal, pode não se
aglutinar com palavras começadas por consoante. Eis alguns exemplos das várias
situações: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado; mal-afortunado,
mal-estar, mal-humorado; bem-criado (cf. malcriado),
bem-ditoso (cf. malditoso), bem-falante (cf. malfalante),
bem-mandado (cf. malmandado), bem-nascido (cf.
malnascido), bem-soante (cf. malsoante), bem-visto (cf.
malvisto).
Obs.:
Em muitos compostos, o advérbio bem aparece aglutinado com o segundo
elemento, quer este tenha ou não vida à parte: benfazejo, benfeito,
benfeitor, benquerença, etc.
5º)Emprega-se o hífen nos compostos com os elementos
além, aquém, recém e sem: além-Atlântico, além-mar, além-fronteiras;
aquém-mar, aquém-Pirenéus; recém-casado, recém-nascido;
sem-cerimônia, sem-número, sem-vergonha.
6º)Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas
substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais,
não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso
(como é o caso de água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa,
mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa). Sirvam, pois,
de exemplo de emprego sem hífen as seguintes locuções:
a)Substantivas: cão de guarda, fim de semana, sala
de jantar;
b)Adjetivas: cor de açafrão, cor de café com leite,
cor de vinho;
c)Pronominais: cada um, ele próprio, nós mesmos,
quem quer que seja;
d)Adverbiais: à parte (note-se o substantivo
aparte), à vontade, de mais (locução que se contrapõe a de
menos; note-se demais, advérbio, conjunção, etc.), depois de
amanhã, em cima, por isso;
e)Prepositivas: abaixo de, acerca de, acima de, a
fim de, a par de, à parte de, apesar de, aquando de, debaixo de, enquanto a, por
baixo de, por cima de, quanto a;
f)Conjuncionais: a fim de que, ao passo que,
contanto que, logo que, por conseguinte, visto que.
7º)Emprega-se o hífen para ligar duas ou mais palavras
que ocasionalmente se combinam, formando, não propriamente vocábulos, mas
encadeamentos vocabulares (tipo: a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade,
a ponte Rio-Niterói, o percurso Lisboa-Coimbra-Porto, a ligação
Angola-Moçambique), e bem assim nas combinações históricas ou ocasionais de
topónimos/topônimos (tipo: Áustria-Hungria, Alsácia-Lorena,
Angola-Brasil, Tóquio-Rio de Janeiro, etc.).
Base XVI
Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e
sufixação
1º)Nas formações com prefixos (como, por exemplo: ante-, anti-, circum-,
co-, contra-, entre-, extra-, hiper-, infra-, intra-, pós-, pré-, pró-, sobre-,
sub-, super-, supra-, ultra-, etc.) e em formações por recomposição, isto é,
com elementos não autônomos ou falsos prefixos, de origem grega e latina (tais
como: aero-, agro-, arqui-, auto-, bio-, eletro-, geo-, hidro-, inter-,
macro-, maxi-, micro-, mini-, multi-, neo-, pan-, pluri-, proto-, pseudo-,
retro-, semi-, tele-, etc.), só se emprega o hífen nos seguintes casos:
a)Nas formações em que o segundo elemento começa por
h: anti-higiénico/anti-higiênico, circum-hospitalar, co-herdeiro,
contra-harmónico/contra-harmônico, extra-humano, pré-história, sub-hepático,
super-homem, ultra-hiperbólico; arqui-hipérbole, eletro-higrómetro,
geo-história, neo-helénico/neo-helênico, pan-helenismo, semi-hospitalar.
Obs.:
Não se usa, no entanto, o hífen em formações que contêm em geral os prefixos
des- e in- e nas quais o segundo elemento perdeu o h inicial:
desumano, desumidificar, inábil, inumano, etc.
b)Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo
termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico,
contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade,
auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.
Obs.:
Nas formações com o prefixo co-, este aglutina-se em geral com o segundo
elemento mesmo quando iniciado por o: coobrigação, coocupante,
coordenar, cooperação, cooperar, etc.
c)Nas formações com os prefixos circum- e
pan-, quando o segundo elemento começa por vogal, m ou n (além
de h, caso já considerado atrás na alínea a): circum-escolar,
circum-murado, circum-navegação; pan-africano, pan-mágico, pan-negritude.
d)Nas
formações com os prefixos hiper-, inter- e super-, quando
combinados com elementos iniciados por r: hiper-requintado,
inter-resistente, super-revista.
e)Nas formações com os prefixos ex- (com o
sentido de estado anterior ou cessamento), sota-, soto-, vice- e vizo-:
ex-almirante, ex-diretor, ex-hospedeira, ex-presidente, ex-primeiro-ministro,
ex-rei; sota-piloto, soto-mestre, vice-presidente, vice-reitor, vizo-rei.
f)Nas formações com os prefixos tónicos/tônicos
acentuados graficamente pós-, pré- e pró- quando o segundo
elemento tem vida à parte (ao contrário do que acontece com as correspondentes
formas átonas que se aglutinam com o elemento seguinte): pós-graduação,
pós-tónico/pós-tônicos (mas pospor); pré-escolar, pré-natal
(mas prever); pró-africano, pró-europeu (mas promover).
2º)Não se emprega, pois, o hífen:
a)Nas formações em que o prefixo ou falso prefixo
termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo
estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste
tipo pertencentes aos domínios científico e técnico. Assim: antirreligioso,
antissemita, contrarregra, comtrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom,
minissaia, tal como biorritmo, biossatélite, eletrossiderurgia,
microssistema, microrradiografia.
b)Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo
termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente, prática esta
em geral já adotada também para os termos técnicos e científicos. Assim:
antiaéreo, coeducação, extraescolar; aeroespacial, autoestrada,
autoaprendizagem, agroindustrial, hidroelétrico, plurianual.
3º)Nas formações por sufixação apenas se emprega o
hífen nos vocábulos terminados por sufixos de origem tupi-guarani que
representam formas adjetivas, como açu, guaçu e mirim, quando o
primeiro elemento acaba em vogal acentuada graficamente ou quando a pronúncia
exige a distinção gráfica dos dois elementos: amoré-guaçu, anajá-mirim,
andá-açu, capim-açu, Ceará-Mirim.
Base XVII
Do hífen na ênclise, na tmese e com o verbo haver
1º)Emprega-se o hífen na ênclise e na tmese: amá-lo, dá-se, deixa-o,
partir-lhe; amá-lo-ei, enviar-lhe-emos.
2º)Não se emprega o hífen nas ligações da preposição
de às formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver:
hei de, hás de, hão de, etc.
Obs.: 1. Embora estejam consagradas pelo uso as
formas verbais quer e requer, dos verbos querer e
requerer, em vez de quere e requere, estas últimas formas
conservam-se, no entanto, nos casos de ênclise: quere-o(s), requere-o(s).
Nestes contextos, as formas (legítimas, aliás) qué-lo e requé-lo
são pouco usadas.
2. Usa-se também o hífen nas ligações de formas
pronominais enclíticas ao advérbio eis (eis-me, ei-lo) e ainda nas
combinações de formas pronominais do tipo no-lo, vo-las, quando em
próclise (por ex.: esperamos que no-lo comprem).
Base XVIII
Do apóstrofo
1º)São os seguintes os casos de emprego do apóstrofo:
a)Faz-se uso do apóstrofo para cindir graficamente uma
contração ou aglutinação vocabular, quando um elemento ou fração respectiva
pertence propriamente a um conjunto vocabular distinto: d’ Os Lusíadas,
d’ Os Sertões; n’ Os Lusíadas, n’ Os Sertões; pel’ Os
Lusíadas, pel’ Os Sertões. Nada obsta, contudo, a que estas escritas
sejam substituídas por empregos de preposições íntegras, se o exigir razão
especial de clareza, expressividade ou ênfase: de Os Lusíadas, em
Os Lusíadas, por Os Lusíadas, etc.
As cisões indicadas são análogas às dissoluções
gráficas que se fazem, embora sem emprego do apóstrofo, em combinações da
preposição a com palavras pertencentes a conjuntos vocabulares imediatos: a
A Relíquia, a Os Lusíadas (exemplos: importância atribuída a A
Relíquia; recorro a Os Lusíadas). Em tais casos, como é óbvio, entende-se
que a dissolução gráfica nunca impede na leitura a combinação fonética: a A =
à, a Os = aos, etc.
b)Pode cindir-se por meio do apóstrofo uma contração
ou aglutinação vocabular, quando um elemento ou fração respectiva é forma
pronominal e se lhe quer dar realce com o uso de maiúscula: d’Ele, n’Ele,
d’Aquele, n’Aquele, d’O, n’O, pel’O, m’O, t’O, lh’O, casos em que a segunda
parte, forma masculina, é aplicável a Deus, a Jesus, etc.; d’Ela, n’Ela,
d’Aquela, d’A, n’A, pel’A, m’A, t’A, lh’A, casos em que a segunda parte,
forma feminina, é aplicável à mãe de Jesus, à Providência, etc. Exemplos
frásicos: confiamos n’O que nos salvou; esse milagre revelou-m’O;
está n’Ela a nossa esperança; pugnemos pel’A que é nossa padroeira.
À semelhança das cisões indicadas, pode dissolver-se
graficamente, posto que sem uso do apóstrofo, uma combinação da preposição a com
uma forma pronominal realçada pela maiúscula: a O, a Aquele, a
Aquela (entendendo-se que a dissolução gráfica nunca impede na leitura a
combinação fonética: a O = ao, a Aquela = àquela, etc.). Exemplos
frásicos: a O que tudo pode; a Aquela que nos protege.
c)Emprega-se o apóstrofo nas ligações das formas
santo e santa a nomes do hagiológio, quando importa representar a
elisão das vogais finais o e a: Sant’Ana, Sant’Iago, etc.
É, pois, correto escrever: Calçada de Sant’Ana, Rua de Sant’Ana; culto
de Sant’Iago, Ordem de Sant’Iago. Mas, se as ligações deste gênero,
como é o caso destas mesmas Sant’Ana e Sant’Iago, se tornam perfeitas unidades
mórficas, aglutinam-se os dois elementos: Fulano de Santana, ilhéu de
Santana, Santana de Parnaíba; Fulano de Santiago, ilha de Santiago,
Santiago do Cacém.
Em paralelo com a grafia Sant’Ana e congêneres,
emprega-se também o apóstrofo nas ligações de duas formas antroponímicas, quando
é necessário indicar que na primeira se elide um o final: Nun’Álvares,
Pedr’Eanes.
Note-se que nos casos referidos as escritas com
apóstrofo, indicativas de elisão, não impedem, de modo algum, as escritas sem
apóstrofo: Santa Ana, Nuno Álvares, Pedro Álvares, etc.
d)Emprega-se o apóstrofo para assinalar, no interior
de certos compostos, a elisão do e da preposição de, em combinação
com substantivos: borda-d’água, cobra-d’água, copo-d’água, estrela-d’alva,
galinha-d’água, mãe-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo.
2º)São os seguintes os casos em que não se usa o
apóstrofo:
Não é admissível o uso do apóstrofo nas combinações
das preposições de e em com as formas do artigo definido, com
formas pronominais diversas e com formas adverbiais (excetuado o que se
estabelece nas alíneas 1º) a) e 1º) b)). Tais combinações são representadas:
a)Por uma só forma vocabular, se constituem, de modo
fixo, uniões perfeitas:
i) do, da, dos, das; dele, dela, deles,
delas; deste, desta, destes, destas, disto; desse, dessa, desses,
dessas, disso; daquele, daquela, daqueles, daquelas, daquilo;
destoutro, destoutra, destoutros, destoutras; dessoutro, dessoutra,
dessoutros, dessoutras; daqueloutro, daqueloutra, daqueloutros,
daqueloutras; daqui; daí; dali; dacolá; donde;
dantes (= antigamente);
ii) no, na, nos, nas; nele, nela, neles,
nelas; neste, nesta, nestes, nestas, nisto; nesse, nessa, nesses,
nessas, nisso; naquele, naquela, naqueles, naquelas, naquilo;
nestoutro, nestoutra, nestoutros, nestoutras; nessoutro, nessoutra,
nessoutros, nessoutras; naqueloutro, naqueloutra, naqueloutros,
naqueloutras; num, numa, nuns, numas; noutro,
noutra, noutros, noutras, noutrem; nalgum,
nalguma, nalguns, nalgumas, nalguém.
b)Por uma ou duas formas vocabulares, se não
constituem, de modo fixo, uniões perfeitas (apesar de serem correntes com esta
feição em algumas pronúncias): de um, de uma, de uns, de umas, ou dum,
duma, duns, dumas; de algum, de alguma, de alguns, de algumas, de alguém,
de algo, de algures, de alhures, ou dalgum, dalguma, dalguns, dalgumas,
dalguém, dalgo, dalgures, dalhures; de outro, de outra, de outros, de
outras, de outrem, de outrora, ou doutro, doutra, doutros, doutras,
doutrem, doutrora; de aquém ou daquém; de além ou
dalém; de entre ou dentre.
De acordo com os exemplos deste último tipo, tanto se
admite o uso da locução adverbial de ora avante como do advérbio que
representa a contração dos seus três elementos: doravante.
Obs.:
Quando a preposição de se combina com as formas articulares ou
pronominais o, a, os, as, ou com quaisquer pronomes ou advérbios
começados por vogal, mas acontece estarem essas palavras integradas em
construções de infinitivo, não se emprega o apóstrofo, nem se funde a preposição
com a forma imediata, escrevendo-se estas duas separadamente: a fim de ele
compreender; apesar de o não ter visto; em virtude de os nossos
pais serem bondosos; o fato de o conhecer; por causa de aqui
estares.
Base XIX
Das minúsculas e maiúsculas
1º)A
letra minúscula inicial é usada:
a)Ordinariamente, em todos os vocábulos da língua nos
usos correntes.
b)Nos nomes dos dias, meses, estações do ano:
segunda-feira; outubro; primavera.
c)Nos bibliónimos/bibliônimos (após o primeiro
elemento, que é com maiúscula, os demais vocábulos, podem ser escritos com
minúscula, salvo nos nomes próprios nele contidos, tudo em grifo): O Senhor
do Paço de Ninães, O senhor do paço de Ninães, Menino de Engenho ou
Menino de engenho, Árvore e Tambor ou Árvore e tambor.
d)Nos usos de fulano, sicrano,
beltrano.
e)Nos pontos cardeais (mas não nas suas abreviaturas);
norte, sul (mas: SW sudoeste).
f)Nos axiónimos/axiônimos e hagiónimos/hagiônimos
(opcionalmente, neste caso, também com maiúscula): senhor doutor Joaquim da
Silva, bacharel Mário Abrantes, o cardeal Bembo; santa
Filomena (ou Santa Filomena).
g)Nos nomes que designam domínios do saber, cursos e
disciplinas (opcionalmente, também com maiúscula): português (ou
Português), matemática (ou Matemática); línguas e
literaturas modernas (ou Línguas e Literaturas Modernas).
2º)A letra maiúscula inicial é usada:
a)Nos antropónimos/antropônimos, reais ou fictícios:
Pedro Marques; Branca de Neve, D. Quixote.
b)Nos topónimos/topônimos, reais ou fictícios:
Lisboa, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro; Atlântida, Hespéria.
c)Nos nomes de seres antropomorfizados ou mitológicos:
Adamastor; Neptuno / Netuno.
d)Nos nomes que designam instituições: Instituto de
Pensões e Aposentadorias da Previdência Social.
e)Nos nomes de festas e festividades: Natal,
Páscoa, Ramadão, Todos os Santos.
f)Nos títulos de periódicos, que retêm o itálico: O
Primeiro de Janeiro, O Estado de São Paulo (ou S. Paulo).
g)Nos pontos cardeais ou equivalentes, quando
empregados absolutamente: Nordeste, por nordeste do Brasil, Norte,
por norte de Portugal, Meio-Dia, pelo sul da França ou de outros países,
Ocidente, por ocidente europeu, Oriente, por oriente asiático.
h)Em siglas, símbolos ou abreviaturas internacionais
ou nacionalmente reguladas com maiúsculas, iniciais ou mediais ou finais ou o
todo em maiúsculas: FAO, NATO, ONU; H2O;
Sr., V. Exa.
i)Opcionalmente, em palavras usadas reverencialmente,
aulicamente ou hierarquicamente, em início de versos, em categorizações de
logradouros públicos: (rua ou Rua da Liberdade, largo ou Largo
dos Leões), de templos (igreja ou Igreja do Bonfim, templo
ou Templo do Apostolado Positivista), de edifícios (palácio ou
Palácio da Cultura, edifício ou Edifício Azevedo Cunha).
Obs.:
As disposições sobre os usos das minúsculas e maiúsculas não obstam a que obras
especializadas observem regras próprias, provindas de códigos ou normalizações
específicas (terminologias antropológica, geológica, bibliológica, botânica,
zoológica, etc.), promanadas de entidades científicas ou normalizadoras,
reconhecidas internacionalmente.
Base XX
Da divisão silábica
A
divisão silábica, que em regra se faz pela soletração (a-ba-de, bru-ma,
ca-cho, lha-no, ma-lha, ma-nha, má-xi-mo, ó-xi-do, ro-xo, tme-se), e na
qual, por isso, se não tem de atender aos elementos constitutivos dos vocábulos
segundo a etimologia (a-ba-li-e-nar, bi-sa-vô, de-sa-pa-re-cer, di-sú-ri-co,
e-xâ-ni-me, hi-pe-ra-cú-sti-co, i-ná-bil, o-bo-val, su-bo-cu-lar, su-pe-rá-ci-do),
obedece a vários preceitos particulares, que rigorosamente cumpre seguir, quando
se tem de fazer em fim de linha, mediante o emprego do hífen, a partição de uma
palavra:
1º)São indivisíveis no interior da palavra, tal como
inicialmente, e formam, portanto, sílaba para a frente as sucessões de duas
consoantes que constituem perfeitos grupos, ou sejam (com exceção apenas de
vários compostos cujos prefixos terminam em b, ou d: ab-
legação, ad- ligar, sub- lunar, etc., em vez de a- blegação, a- dligar,
su- blunar, etc.) aquelas sucessões em que a primeira consoante é uma
labial, uma velar, uma dental ou uma labiodental e a segunda um l ou um
r: a- blução, cele- brar, du- plicação, re- primir, a- clamar, de-
creto, de- glutição, re- grado; a- tlético, cáte- dra, períme- tro;
a- fluir, a- fricano, ne- vrose.
2º)São divisíveis no interior da palavra as sucessões
de duas consoantes que não constituem propriamente grupos e igualmente as
sucessões de m ou n, com valor de nasalidade, e uma consoante:
ab- dicar, Ed- gardo, op- tar, sub- por, ab- soluto, ad- jetivo, af- ta, bet-
samita, íp- silon, ob- viar, des- cer, dis- ciplina, flores- cer, nas- cer, res-
cisão; ac- ne, ad- mirável, Daf- ne, diafrag- ma, drac- ma, ét- nico,
rit- mo, sub- meter, am- nésico, interam- nense; bir- reme, cor- roer,
pror- rogar, as- segurar, bis- secular, sos- segar, bissex- to, contex- to, ex-
citar, atroz- mente, capaz- mente, infeliz- mente; am- bição, desen-
ganar, en- xame, man- chu, Mân- lio, etc.
3º)As sucessões de mais de duas consoantes ou de m
ou n, com o valor de nasalidade, e duas ou mais consoantes são divisíveis
por um de dois meios: se nelas entra um dos grupos que são indivisíveis (de
acordo com o preceito 1º), esse grupo forma sílaba para diante, ficando a
consoante ou consoantes que o precedem ligadas à sílaba anterior; se nelas não
entra nenhum desses grupos, a divisão dá-se sempre antes da última consoante.
Exemplos dos dois casos: cam- braia, ec- tlipse, em- blema, ex- plicar, in-
cluir, ins- crição, subs- crever, trans- gredir, abs- tenção, disp- neia,
inters- telar, lamb- dacismo, sols- ticial, Terp- sícore, tungs- tênio.
4º)As vogais consecutivas que não pertencem a ditongos
decrescentes (as que pertencem a ditongos deste tipo nunca se separam: ai-
roso, cadei- ra, insti- tui, ora- ção, sacris- tães, traves- sões) podem, se
a primeira delas não é u precedido de g ou q, e mesmo que
sejam iguais, separar-se na escrita: ala- úde, áre- as, ca- apeba, co-
ordenar, do- er, flu- idez, perdo- as, vo- os. O mesmo se aplica aos casos
de contiguidade de ditongos, iguais ou diferentes, ou de ditongos e vogais:
cai- ais, cai- eis, ensai- os, flu- iu.
5º)Os digramas gu e qu, em que o u
se não pronuncia, nunca se separam da vogal ou ditongo imediato (ne- gue, ne-
guei; pe- que, pe- quei), do mesmo modo que as combinações gu
e qu em que o u se pronuncia: á- gua, ambí- guo, averi- gueis,
longín-quos, lo- quaz, quais- quer.
6º) Na translineação de uma palavra composta ou de uma
combinação de palavras em que há um hífen, ou mais, se a partição coincide com o
final de um dos elementos ou membros, deve, por clareza gráfica, repetir-se o
hífen no início da linha imediata: ex- -alferes, serená- -los-emos
ou serená-los- -emos, vice- -almirante.
Base XXI
Das assinaturas e firmas
Para
ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou
registro legal, adote na assinatura do seu nome.
Com o mesmo fim, pode manter-se a grafia original de
quaisquer firmas comerciais, nomes de sociedades, marcas e títulos que estejam
inscritos em registro público.
ANEXO II
NOTA EXPLICATIVA DO
ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA
(1990)
1. Memória breve dos acordos ortográficos
A existência de duas ortografias oficiais da língua
portuguesa, a lusitana e a brasileira, tem sido considerada como largamente
prejudicial para a unidade intercontinental do português e para o seu prestígio
no Mundo.
Tal situação remonta, como é sabido, a 1911, ano em
que foi adotada em Portugal a primeira grande reforma ortográfica, mas que não
foi extensiva ao Brasil.
Por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, em
consonância com a Academia das Ciências de Lisboa, com o objetivo de se
minimizarem os inconvenientes desta situação, foi aprovado em 1931 o primeiro
acordo ortográfico entre Portugal e o Brasil. Todavia, por razões que não
importa agora mencionar, este acordo não produziu, afinal, a tão desejada
unificação dos dois sistemas ortográficos, fato que levou mais tarde à convenção
ortográfica de 1943. Perante as divergências persistentes nos Vocabulários
entretanto publicados pelas duas Academias, que punham em evidência os parcos
resultados práticos do acordo de 1943, realizou-se, em 1945, em Lisboa, novo
encontro entre representantes daquelas duas agremiações, o qual conduziu à
chamada Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945. Mais uma vez, porém, este
acordo não produziu os almejados efeitos, já que ele foi adotado em Portugal,
mas não no Brasil.
Em 1971, no Brasil, e em 1973, em Portugal, foram
promulgadas leis que reduziram substancialmente as divergências ortográficas
entre os dois países. Apesar destas louváveis iniciativas, continuavam a
persistir, porém, divergências sérias entre os dois sistemas ortográficos.
No sentido de as reduzir, a Academia das Ciências de
Lisboa e a Academia Brasileira de Letras elaboraram em 1975 um novo projeto de
acordo que não foi, no entanto, aprovado oficialmente por razões de ordem
política, sobretudo vigentes em Portugal.
E é neste contexto que surge o encontro do Rio de
Janeiro, em Maio de 1986, e no qual se encontram, pela primeira vez na história
da língua portuguesa, representantes não apenas de Portugal e do Brasil mas
também dos cinco novos países africanos lusófonos entretanto emergidos da
descolonização portuguesa.
O Acordo Ortográfico de 1986, conseguido na reunião do
Rio de Janeiro, ficou, porém, inviabilizado pela reação polêmica contra ele
movida sobretudo em Portugal.
2.Razões do fracasso dos acordos ortográficos
Perante o fracasso sucessivo dos acordos ortográficos
entre Portugal e o Brasil, abrangendo o de 1986 também os países lusófonos de
África, importa refletir seriamente sobre as razões de tal malogro.
Analisando sucintamente o conteúdo dos acordos de 1945
e de 1986, a conclusão que se colhe é a de que eles visavam impor uma unificação
ortográfica absoluta.
Em termos quantitativos e com base em estudos
desenvolvidos pela Academia das Ciências de Lisboa, com base num corpus
de cerca de 110.000 palavras, conclui-se que o Acordo de 1986 conseguia a
unificação ortográfica em cerca de 99,5% do vocabulário geral da língua. Mas
conseguia-a sobretudo à custa da simplificação drástica do sistema de acentuação
gráfica, pela supressão dos acentos nas palavras proparoxítonas e paroxítonas, o
que não foi bem aceito por uma parte substancial da opinião pública portuguesa.
Também o acordo de 1945 propunha uma unificação
ortográfica absoluta que rondava os 100% do vocabulário geral da língua. Mas tal
unificação assentava em dois princípios que se revelaram inaceitáveis para os
brasileiros:
a)Conservação das chamadas consoantes mudas ou não articuladas, o que
correspondia a uma verdadeira restauração destas consoantes no Brasil, uma vez
que elas tinham há muito sido abolidas.
b)Resolução das divergências de acentuação das vogais
tônicas e e o, seguidas das consoantes nasais m e n,
das palavras proparoxítonas (ou esdrúxulas) no sentido da prática portuguesa,
que consistia em as grafar com acento agudo e não circunflexo, conforme a
prática brasileira.
Assim se procurava, pois, resolver a divergência de
acentuação gráfica de palavras como António e Antônio, cómodo
e cômodo, género e gênero, oxigénio e oxigênio,
etc., em favor da generalização da acentuação com o diacrítico agudo. Esta
solução estipulava, contra toda a tradição ortográfica portuguesa, que o acento
agudo, nestes casos, apenas assinalava a tonicidade da vogal e não o seu timbre,
visando assim resolver as diferenças de pronúncia daquelas mesmas vogais.
A inviabilização prática de tais soluções leva-nos à
conclusão de que não é possível unificar por via administrativa divergências que
assentam em claras diferenças de pronúncia, um dos critérios, aliás, em que se
baseia o sistema ortográfico da língua portuguesa.
Nestas condições, há que procurar uma versão de
unificação ortográfica que acautele mais o futuro do que o passado e que não
receie sacrificar a simplificação também pretendida em 1986, em favor da máxima
unidade possível. Com a emergência de cinco novos países lusófonos, os fatores
de desagregação da unidade essencial da língua portuguesa far-se-ão sentir com
mais acuidade e também no domínio ortográfico. Neste sentido importa, pois,
consagrar uma versão de unificação ortográfica que fixe e delimite as diferenças
atualmente existentes e previna contra a desagregação ortográfica da língua
portuguesa.
Foi, pois, tendo presentes estes objetivos, que se
fixou o novo texto de unificação ortográfica, o qual representa uma versão menos
forte do que as que foram conseguidas em 1945 e 1986. Mas ainda assim
suficientemente forte para unificar ortograficamente cerca de 98% do vocabulário
geral da língua.
3.Forma e substância do novo texto
O novo texto de unificação ortográfica agora proposto
contém alterações de forma (ou estrutura) e de conteúdo, relativamente aos
anteriores. Pode dizer-se, simplificando, que em termos de estrutura se aproxima
mais do acordo de 1986, mas que em termos de conteúdo adota uma posição mais
conforme com o projeto de 1975, atrás referido.
Em relação às alterações de conteúdo, elas afetam
sobretudo o caso das consoantes mudas ou não articuladas, o sistema de
acentuação gráfica, especialmente das esdrúxulas, e a hifenação.
Pode dizer-se ainda que, no que respeita às alterações
de conteúdo, de entre os princípios em que assenta a ortografia portuguesa, se
privilegiou o critério fonético (ou da pronúncia) com um certo detrimento para o
critério etimológico.
É o critério da pronúncia que determina, aliás, a
supressão gráfica das consoantes mudas ou não articuladas, que se têm conservado
na ortografia lusitana essencialmente por razões de ordem etimológica.
É também o critério da pronúncia que nos leva a manter
um certo número de grafias duplas do tipo de caráter e carácter,
facto e fato, sumptuoso e suntuoso, etc.
É ainda o critério da pronúncia que conduz à
manutenção da dupla acentuação gráfica do tipo de económico e
econômico, efémero e efêmero, género e gênero,
génio e gênio, ou de bónus e bônus, sémen e
sêmen, ténis e tênis, ou ainda de bebé e bebê,
ou metro e metrô, etc.
Explicitam-se em seguida as principais alterações
introduzidas no novo texto de unificação ortográfica, assim como a respectiva
justificação.
4.Conservação ou supressão das consoantes c, p, b,
g, m e t em certas seqüências consonânticas (Base IV)
4.1.Estado da questão
Como é sabido, uma das principais dificuldades na
unificação da ortografia da língua portuguesa reside na solução a adotar para a
grafia das consoantes c e p, em certas seqüências consonânticas
interiores, já que existem fortes divergências na sua articulação.
Assim, umas vezes, estas consoantes são
invariavelmente proferidas em todo o espaço geográfico da língua portuguesa,
conforme sucede em casos como compacto, ficção, pacto;
adepto, aptidão, núpcias; etc.
Neste caso, não existe qualquer problema ortográfico,
já que tais consoantes não podem deixar de grafar-se (v. Base IV, 1º a).
Noutros casos, porém, dá-se a situação inversa da
anterior, ou seja, tais consoantes não são proferidas em nenhuma pronúncia culta
da língua, como acontece em acção, afectivo, direcção;
adopção, exacto, óptimo; etc. Neste caso existe um problema. É
que na norma gráfica brasileira há muito estas consoantes foram abolidas, ao
contrário do que sucede na norma gráfica lusitana, em que tais consoantes se
conservam. A solução que agora se adota (v. Base IV, 1º b) é a de as suprimir,
por uma questão de coerência e de uniformização de critérios (vejam-se as razões
de tal supressão adiante, em 4.2.).
As palavras afectadas por tal supressão representam
0,54% do vocabulário geral da língua, o que é pouco significativo em termos
quantitativos (pouco mais de 600 palavras em cerca de 110.000). Este número é,
no entanto, qualitativamente importante, já que compreende vocábulos de uso
muito frequente (como, por ex., acção, actor, actual, colecção,
colectivo, correcção, direcção, director, electricidade, factor, factura,
inspector, lectivo, óptimo, etc.).
O terceiro caso que se verifica relativamente às
consoantes c e p diz respeito à oscilação de pronúncia, a qual
ocorre umas vezes no interior da mesma norma culta (cf. por ex., cacto ou
cato, dicção ou dição, sector ou setor,
etc.), outras vezes entre normas cultas distintas (cf., por ex., facto,
receção em Portugal, mas fato, recepção no Brasil).
A solução que se propõe para estes casos, no novo
texto ortográfico, consagra a dupla grafia (v. Base IV, 1º c).
A estes casos de grafia dupla devem acrescentar-se as
poucas variantes do tipo de súbdito e súdito, subtil e
sutil, amígdala e amídala, amnistia e anistia,
aritmética e arimética, nas quais a oscilação da pronúncia se
verifica quanto às consoantes b, g, m e t (v. Base IV, 2º).
O número de palavras abrangidas pela dupla grafia é de
cerca de 0,5% do vocabulário geral da língua, o que é pouco significativo (ou
seja, pouco mais de 575 palavras em cerca de 110.000), embora nele se incluam
também alguns vocábulos de uso muito frequente.
4.2. Justificação da supressão de consoantes não
articuladas (Base IV 1º b)
As razões que levaram à supressão das consoantes mudas
ou não articuladas em palavras como ação (acção), ativo (activo),
diretor (director), ótimo (óptimo) foram
essencialmente as seguintes:
a)O argumento de que a manutenção de tais consoantes
se justifica por motivos de ordem etimológica, permitindo assinalar melhor a
similaridade com as palavras congêneres das outras línguas românicas, não tem
consistência. Por outro lado, várias consoantes etimológicas se foram perdendo
na evolução das palavras ao longo da história da língua portuguesa. Vários são,
por outro lado, os exemplos de palavras deste tipo, pertencentes a diferentes
línguas românicas, que, embora provenientes do mesmo étimo latino, revelam
incongruências quanto à conservação ou não das referidas consoantes.
É o caso, por exemplo, da palavra objecto,
proveniente do latim objectu-, que até agora conservava o c, ao
contrário do que sucede em francês (cf. objet), ou em espanhol (cf.
objeto). Do mesmo modo projecto (de projectu-) mantinha até
agora a grafia com c, tal como acontece em espanhol (cf. proyecto),
mas não em francês (cf. projet). Nestes casos o italiano dobra a
consoante, por assimilação (cf. oggetto e progetto). A palavra
vitória há muito se grafa sem c, apesar do espanhol victoria,
do francês victoire ou do italiano vittoria. Muitos outros
exemplos se poderiam citar. Aliás, não tem qualquer consistência a ideia de que
a similaridade do português com as outras línguas românicas passa pela
manutenção de consoantes etimológicas do tipo mencionado. Confrontem-se, por
exemplo, formas como as seguintes: port. acidente (do lat. accidente-),
esp. accidente, fr. accident, it. accidente; port.
dicionário (do lat. dictionariu-), esp. diccionario, fr.
dictionnaire, it. dizionario; port. ditar (do lat. dictare),
esp. dictar, fr. dicter, it. dettare; port. estrutura
(de structura-), esp. estructura, fr. structure, it.
struttura; etc.
Em conclusão, as divergências entre as línguas
românicas, neste domínio, são evidentes, o que não impede, aliás, o imediato
reconhecimento da similaridade entre tais formas. Tais divergências levantam
dificuldades à memorização da norma gráfica, na aprendizagem destas línguas, mas
não é com certeza a manutenção de consoantes não articuladas em português que
vai facilitar aquela tarefa.
b)A justificação de que as ditas consoantes mudas
travam o fechamento da vogal precedente também é de fraco valor, já que, por um
lado, se mantêm na língua palavras com vogal pré-tónica aberta, sem a presença
de qualquer sinal diacrítico, como em corar, padeiro, oblação,
pregar (= fazer uma prédica), etc., e, por outro, a conservação de tais
consoantes não impede a tendência para o ensurdecimento da vogal anterior em
casos como accionar, actual, actualidade, exactidão,
tactear, etc.
c)É indiscutível que a supressão deste tipo de
consoantes vem facilitar a aprendizagem da grafia das palavras em que elas
ocorriam.
De fato, como é que uma criança de 6-7 anos pode
compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção,
a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como
correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c?
Só à custa de um enorme esforço de memorização que
poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da
língua.
d)A divergência de grafias existente neste domínio
entre a norma lusitana, que teimosamente conserva consoantes que não se
articulam em todo o domínio geográfico da língua portuguesa, e a norma
brasileira, que há muito suprimiu tais consoantes, é incompreensível para os
lusitanistas estrangeiros, nomeadamente para professores e estudantes de
português, já que lhes cria dificuldades suplementares, nomeadamente na consulta
dos dicionários, uma vez que as palavras em causa vêm em lugares diferentes da
ordem alfabética, conforme apresentam ou não a consoante muda.
e)Uma outra razão, esta de natureza psicológica,
embora nem por isso menos importante, consiste na convicção de que não haverá
unificação ortográfica da língua portuguesa se tal disparidade não for
revolvida.
f)Tal disparidade ortográfica só se pode resolver
suprimindo da escrita as consoantes não articuladas, por uma questão de
coerência, já que a pronúncia as ignora, e não tentando impor a sua grafia
àqueles que há muito as não escrevem, justamente por elas não se pronunciarem.
4.3. Incongruências aparentes
A aplicação do princípio, baseado no critério da
pronúncia, de que as consoantes c e p em certas sequências
consonânticas se suprimem, quando não articuladas, conduz a algumas
incongruências aparentes, conforme sucede em palavras como apocalítico ou
Egito (sem p, já que este não se pronuncia), a par de apocalipse
ou egipcio (visto que aqui o p se articula), noturno (sem c,
por este ser mudo), ao lado de noctívago (com c por este se
pronunciar), etc.
Tal incongruência é apenas aparente. De fato,
baseando-se a conservação ou supressão daquelas consoantes no critério da
pronúncia, o que não faria sentido era mantê-las, em certos casos, por razões de
parentesco lexical. Se se abrisse tal exceção, o utente, ao ter que escrever
determinada palavra, teria que recordar previamente, para não cometer erros, se
não haveria outros vocábulos da mesma família que se escrevessem com este tipo
de consoante.
Aliás, divergências ortográficas do mesmo tipo das que
agora se propõem foram já aceites nas Bases de 1945 (v. Base VI, último
parágrafo), que consagraram grafias como assunção ao lado de
assumptivo, cativo, a par de captor e captura,
dicionário, mas dicção, etc. A razão então aduzida foi a de que tais
palavras entraram e se fixaram na língua em condições diferentes. A justificação
da grafia com base na pronúncia é tão nobre como aquela razão.
4.4.Casos de dupla grafia (Base IV, 1º c, d e 2º)
Sendo
a pronúncia um dos critérios em que assenta a ortografia da língua portuguesa, é
inevitável que se aceitem grafias duplas naqueles casos em que existem
divergências de articulação quanto às referidas consoantes c e p e
ainda em outros casos de menor significado. Torna-se, porém, praticamente
impossível enunciar uma regra clara e abrangente dos casos em que há oscilação
entre o emudecimento e a prolação daquelas consoantes, já que todas as
sequências consonânticas enunciadas, qualquer que seja a vogal precedente,
admitem as duas alternativas: cacto e cato, caracteres e
carateres, dicção e dição, facto e fato,
sector e setor; ceptro e cetro; concepção e
conceção, recepção e receção; assumpção e assunção,
peremptório e perentório, sumptuoso e suntuoso; etc.
De um modo geral pode dizer-se que, nestes casos, o
emudecimento da consoante (exceto em dicção, facto, sumptuoso
e poucos mais) se verifica, sobretudo, em Portugal e nos países africanos,
enquanto no Brasil há oscilação entre a prolação e o emudecimento da mesma
consoante.
Também os outros casos de dupla grafia (já mencionados
em 4.1.), do tipo de súbdito e súdito, subtil e sutil,
amígdala e amídala, omnisciente e onisciente,
aritmética e arimética, muito menos relevantes em termos
quantitativos do que os anteriores, se verificam sobretudo no Brasil.
Trata-se, afinal, de formas divergentes, isto é, do
mesmo étimo. As palavras sem consoante, mais antigas e introduzidas na língua
por via popular, foram já usadas em Portugal e encontram-se nomeadamente em
escritores dos séculos XVI e XVII.
Os dicionários da língua portuguesa, que passarão a
registrar as duas formas, em todos os casos de dupla grafia, esclarecerão, tanto
quanto possível, sobre o alcance geográfico e social desta oscilação de
pronúncia.
5.Sistema de acentuação gráfica (Bases VIII a XIII)
5.1.Análise geral da questão
O sistema de acentuação gráfica do português
atualmente em vigor, extremamente complexo e minucioso, remonta essencialmente à
Reforma Ortográfica de 1911.
Tal sistema não se limita, em geral, a assinalar
apenas a tonicidade das vogais sobre as quais recaem os acentos gráficos, mas
distingue também o timbre destas.
Tendo em conta as diferenças de pronúncia entre o
português europeu e o do Brasil, era natural que surgissem divergências de
acentuação gráfica entre as duas realizações da língua.
Tais divergências têm sido um obstáculo à unificação
ortográfica do português.
É certo que em 1971, no Brasil, e em 1973, em
Portugal, foram dados alguns passos significativos no sentido da unificação da
acentuação gráfica, como se disse atrás. Mas, mesmo assim, subsistem
divergências importantes neste domínio, sobretudo no que respeita à acentuação
das paroxítonas.
Não tendo tido viabilidade prática a solução fixada na
Convenção Ortográfica de 1945, conforme já foi referido, duas soluções eram
possíveis para se procurar resolver esta questão.
Uma era conservar a dupla acentuação gráfica, o que
constituía sempre um espinho contra a unificação da ortografia.
Outra era abolir os acentos gráficos, solução adotada
em 1986, no Encontro do Rio de Janeiro.
Esta solução, já preconizada no I Simpósio
Luso-Brasileiro sobre a Língua Portuguesa Contemporânea, realizada em 1967 em
Coimbra, tinha sobretudo a justificá-la o fato de a língua oral preceder a
língua escrita, o que leva muitos utentes a não empregarem na prática os acentos
gráficos, visto que não os consideram indispensáveis à leitura e compreensão dos
textos escritos.
A abolição dos acentos gráficos nas palavras
proparoxítonas e paroxítonas, preconizada no Acordo de 1986, foi, porém,
contestada por uma larga parte da opinião pública portuguesa, sobretudo por tal
medida ir contra a tradição ortográfica e não tanto por estar contra a
prática ortográfica.
A questão da acentuação gráfica tinha, pois, de ser
repensada.
Neste sentido, desenvolveram-se alguns estudos e
fizeram-se vários levantamentos estatísticos com o objetivo de se delimitarem
melhor e quantificarem com precisão as divergências existentes nesta matéria.
5.2.Casos de dupla acentuação
5.2.1.Nas proparoxítonas (Base XI)
Verificou-se assim que as divergências, no que
respeita às proparoxítonas, se circunscrevem praticamente, como já foi destacado
atrás, ao caso das vogais tônicas e e o, seguidas das consoantes
nasais m e n, com as quais aquelas não formam sílaba (v. Base XI,
3º).
Estas vogais soam abertas em Portugal e nos países
africanos recebendo, por isso, acento agudo, mas são do timbre fechado em grande
parte do Brasil, grafando-se por conseguinte com acento circunflexo:
académico/ acadêmico, cómodo/ cômodo, efémero/
efêmero, fenómeno/ fenômeno, génio/ gênio,
tónico/ tônico, etc.
Existem uma ou outra exceção a esta regra, como, por
exemplo, cômoro e sêmola, mas estes casos não são significativos.
Costuma, por vezes, referir-se que o a tônico
das proparoxítonas, quando seguido de m ou n com que não forma
sílaba, também está sujeito à referida divergência de acentuação gráfica. Mas
tal não acontece, porém, já que o seu timbre soa praticamente sempre fechado nas
pronúncias cultas da língua, recebendo, por isso, acento circunflexo: âmago,
ânimo, botânico, câmara, dinâmico, gerânio, pânico, pirâmide.
As únicas exceções a este princípio são os nomes
próprios de origem grega Dánae/ Dânae e Dánao/ Dânao.
Note-se que se as vogais e e o, assim
como a, formam sílaba com as consoantes m ou n, o seu
timbre é sempre fechado em qualquer pronúncia culta da língua, recebendo, por
isso, acento circunflexo: êmbolo, amêndoa, argênteo, excêntrico, têmpera;
anacreôntico, cômputo, recôndito, cânfora, Grândola, Islândia, lâmpada,
sonâmbulo, etc.
5.2.2.Nas paroxítonas (Base IX)
Também nos casos especiais de acentuação das
paroxítonas ou graves (v. Base IX, 2º), algumas palavras que contêm as vogais
tônicas e e o em final de sílaba, seguidas das consoantes nasais
m e n, apresentam oscilação de timbre, nas pronúncias cultas da
língua.
Tais palavras são assinaladas com acento agudo, se o
timbre da vogal tônica é aberto, ou com acento circunflexo, se o timbre é
fechado: fémur ou fêmur, Fénix ou Fênix, ónix
ou ônix, sémen ou sêmen, xénon ou xênon;
bónus ou bônus, ónus ou ônus, pónei ou pônei,
ténis ou tênis, Vénus ou Vênus; etc. No total, estes
são pouco mais de uma dúzia de casos.
5.2.3.Nas oxítonas (Base VIII)
Encontramos igualmente nas oxítonas (v. Base VIII, 1º
a, Obs.) algumas divergências de timbre em palavras terminadas em e
tônico, sobretudo provenientes do francês. Se esta vogal tônica soa aberta,
recebe acento agudo; se soa fechada, grafa-se com acento circunflexo. Também
aqui os exemplos pouco ultrapassam as duas dezenas: bebé ou bebê,
caraté ou caratê, croché ou crochê, guiché ou
guichê, matiné ou matinê, puré ou purê; etc.
Existe também um caso ou outro de oxítonas terminadas em o ora aberto ora
fechado, como sucede em cocó ou cocô, ró ou rô.
A par de casos como este há formas oxítonas terminadas
em o fechado, às quais se opõem variantes paroxítonas, como acontece em
judô e judo, metrô e metro, mas tais casos são muito
raros.
5.2.4.Avaliação estatística dos casos de dupla
acentuação gráfica
Tendo em conta o levantamento estatístico que se fez
na Academia das Ciências de Lisboa, com base no já referido corpus de
cerca de 110.000 palavras do vocabulário geral da língua, verificou-se que os
citados casos de dupla acentuação gráfica abrangiam aproximadamente 1,27% (cerca
de 1.400 palavras). Considerando que tais casos se encontram perfeitamente
delimitados, como se referiu atrás, sendo assim possível enunciar a regra de
aplicação, optou-se por fixar a dupla acentuação gráfica como a solução menos
onerosa para a unificação ortográfica da língua portuguesa.
5.3.Razões da manutenção dos acentos gráficos nas
proparoxítonas e paroxítonas
Resolvida a questão dos casos de dupla acentuação
gráfica, como se disse atrás, já não tinha relevância o principal motivo que
levou em 1986 a abolir os acentos nas palavras proparoxítonas e paroxítonas.
Em favor da manutenção dos acentos gráficos nestes
casos, ponderaram-se, pois, essencialmente as seguintes razões:
a)Pouca representatividade (cerva de 1,27%) dos casos
de dupla acentuação.
b)Eventual influência da língua escrita sobre a língua
oral, com a possibilidade de, sem acentos gráficos, se intensificar a tendência
para a paroxitonia, ou seja, deslocação do acento tônico da antepenúltima para a
penúltima sílaba, lugar mais frequente de colocação do acento tônico em
português.
c)Dificuldade em apreender corretamente a pronúncia em
termos de âmbito técnico e científico, muitas vezes adquiridos através da língua
escrita (leitura).
d)Dificuldades causadas, com a abolição dos acentos, à
aprendizagem da língua, sobretudo quando esta se faz em condições precárias,
como no caso dos países africanos, ou em situação de auto-aprendizagem.
e)Alargamento, com a abolição dos acentos gráficos,
dos casos de homografia, do tipo de análise(s)/ analise(v.),
fábrica(s.)/ fabrica(v.), secretária(s.)/ secretaria(s.
ou v.), vária(s.)/ varia(v.), etc., casos que apesar de dirimíveis
pelo contexto sintático, levantariam por vezes algumas dúvidas e constituiriam
sempre problema para o tratamento informatizado do léxico.
f)Dificuldade em determinar as regras de colocação do
acento tônico em função da estrutura mórfica da palavra. Assim, as
proparoxítonas, segundo os resultados estatísticos obtidos da análise de um
corpus de 25.000 palavras, constituem 12%. Destes, 12%, cerca de 30% são
falsas esdrúxulas (cf. génio, água, etc.). Dos 70% restantes, que
são as verdadeiras proparoxítonas (cf. cômodo, gênero, etc.),
aproximadamente 29% são palavras que terminam em –ico /–ica (cf.
ártico, econômico, módico, prático, etc.). Os restantes 41% de verdadeiras
esdrúxulas distribuem-se por cerca de duzentas terminações diferentes, em geral
de caráter erudito (cf. espírito, ínclito, púlpito; filólogo;
filósofo; esófago; epíteto; pássaro; pêsames;
facílimo; lindíssimo; parêntesis; etc.).
5.4.Supressão de acentos gráficos em certas palavras
oxítonas e paroxítonas (Bases VIII, IX e X)
5.4.1.Em casos de homografia (Bases VIII, 3º e IX, 9º
e 10º)
O novo texto ortográfico estabelece que deixem de se
acentuar graficamente palavras do tipo de para (á), flexão de parar,
pelo (ê), substantivo, pelo (é), flexão de pelar, etc., as
quais são homógrafas, respectivamente, das proclíticas para, preposição,
pelo, contração de per e lo, etc.
As razões por que se suprime, nestes casos, o acento
gráfico são as seguintes:
a)Em primeiro lugar, por coerência com a abolição do
acento gráfico já consagrada pelo Acordo de 1945, em Portugal, e pela Lei nº
5.765, de 18/12/1971, no Brasil, em casos semelhantes, como, por exemplo:
acerto (ê), substantivo, e acerto (é), flexão de acertar;
acordo (ô), substantivo, e acordo (ó), flexão de acordar;
cor (ô), substantivo, e cor (ó), elemento da locação de cor;
sede (ê) e sede (é), ambos substantivos; etc.
b)Em segundo lugar, porque, tratando-se de pares cujos
elementos pertencem a classes gramaticais diferentes, o contexto sintático
permite distinguir claramente tais homógrafas.
5.4.2.Em paroxítonas com os ditongos ei e oi
na sílaba tônica (Base IX, 3º)
O novo texto ortográfico propõe que não se acentuem
graficamente os ditongos ei e oi tônicos das palavras paroxítonas.
Assim, palavras como assembleia, boleia, ideia, que na
norma gráfica brasileira se escrevem com acento agudo, por o ditongo soar
aberto, passarão a escrever-se sem acento, tal como aldeia, baleia, cheia,
etc.
Do mesmo modo, palavras como comboio, dezoito,
estroina, etc., em que o timbre do ditongo oscila entre a abertura e o
fechamento, oscilação que se traduz na facultatividade do emprego do acento
agudo no Brasil, passarão a grafar-se sem acento.
A generalização da supressão do acento nestes casos
justifica-se não apenas por permitir eliminar uma diferença entre a prática
ortográfica brasileira e a lusitana, mas ainda pelas seguintes razões:
a) Tal supressão é coerente com a já consagrada
eliminação do acento em casos de homografia heterofônica (v. Base IX, 10º, e,
neste texto atrás, 5.4.1.), como sucede, por exemplo, em acerto,
substantivo, e acerto, flexão de acertar, acordo,
substantivo, e acordo, flexão de acordar, fora, flexão de
ser e ir, e fora, advérbio, etc.
b)No sistema ortográfico português não se assinala, em
geral, o timbre das vogais tônicas a, e e o das palavras
paroxítonas, já que a língua portuguesa se caracteriza pela sua tendência para a
paroxitonia. O sistema ortográfico não admite, pois, a distinção entre, por
exemplo cada (â) e fada (á), para (â) e tara (á);
espelho (ê) e velho (é), janela (é) e janelo (ê),
escrevera (ê), flexão de escrever, e Primavera (é); moda
(ó) e toda (ô), virtuosa (ó) e virtuoso (ô); etc.
Então, se não se torna necessário, nestes casos,
distinguir pelo acento gráfico o timbre da vogal tónica, por que se há-de usar o
diacrítico para assinalar a abertura dos ditongos ei e oi nas
paroxítonas, tendo em conta que o seu timbre nem sempre é uniforme e a presença
do acento constituiria um elemento perturbador da unificação ortográfica?
5.4.3.Em paroxítons do tipo de abençoo, enjoo, voo,
etc. (Base IX, 8º)
Por razões semelhantes às anteriores, o novo texto
ortográfico consagra também a abolição do acento circunflexo, vigente no Brasil,
em palavras paroxítonas como abençoo, flexão de abençoar, enjoo,
substantivo e flexão de enjoar, moo, flexão de moer,
povoo, flexão de povoar, voo, substantivo e flexão de voar,
etc.
O uso do acento circunflexo não tem
aqui qualquer razão de ser, já que ele ocorre em palavras paroxítonas cuja vogal
tônica apresenta a mesma pronúncia em todo o domínio da língua portuguesa. Além
de não ter, pois, qualquer vantagem nem justificação, constitui um fator que
perturba a unificação do sistema ortográfico.
5.4.4.Em formas verbais com u e ui
tônicos, precedidos de g e q (Base X, 7º)
Não há justificação para se acentuarem graficamente
palavras como apazigue, arguem, etc., já que estas formas verbais
são paroxítonas e a vogal u é sempre articulada, qualquer que seja a
flexão do verbo respectivo.
No caso de formas verbais como argui,
delinquis, etc., também não há justificação para o acento, pois se trata de
oxítonas terminadas no ditongo tónico ui, que como tal nunca é acentuado
graficamente.
Tais formas só serão acentuadas se a seqüência ui
não formar ditongo e a vogal tônica for i, como, por exemplo, arguí
(1a pessoa do singular do pretérito perfeito do
indicativo).
6.Emprego do hífen (Bases XV a XVIII)
6.1.Estado da questão
No que respeita ao emprego do hífen, não há
propriamente divergências assumidas entre a norma ortográfica lusitana e a
brasileira. Ao compulsarmos, porém, os dicionários portugueses e brasileiros e
ao lermos, por exemplo, jornais e revistas, deparam-se-nos muitas oscilações e
um largo número de formações vocabulares com grafia dupla, ou seja, com hífen e
sem hífen, o que aumenta desmesurada e desnecessariamente as entradas lexicais
dos dicionários. Estas oscilações verificam-se sobretudo nas formações por
prefixação e na chamada recomposição, ou seja, em formações com pseudoprefixos
de origem grega ou latina.
Eis alguns exemplos de tais oscilações: ante-rosto
e anterrosto, co-educação e coeducação, pré-frontal
e prefrontal, sobre-saia e sobressaia, sobre-saltar
e sobressaltar, aero-espacial e aeroespacial,
auto-aprendizagem e autoaprendizagem, agro-industrial e
agroindustrial, agro-pecuária e agropecuária,
alvéolo-dental e alveolodental, bolbo-raquidiano e
bolborraquidiano, geo-história e geoistória, micro-onda
e microonda; etc.
Estas oscilações são, sem dúvida, devidas a uma certa
ambiguidade e falta de sistematização das regras que sobre esta matéria foram
consagradas no texto de 1945. Tornava-se, pois, necessário reformular tais
regras de modo mais claro, sistemático e simples. Foi o que se tentou fazer em
1986.
A simplificação e redução operadas nessa altura, nem
sempre bem compreendidas, provocaram igualmente polêmica na opinião pública
portuguesa, não tanto por uma ou outra incongruência resultante da aplicação das
novas regras, mas sobretudo por alterarem bastante a prática ortográfica neste
domínio.
A posição que agora se adota, muito embora tenha tido
em conta as críticas fundamentadas ao texto de 1986, resulta, sobretudo, do
estudo do uso do hífen nos dicionários portugueses e brasileiros, assim como em
jornais e revistas.
6.2.O hífen nos compostos (Base XV)
Sintetizando, pode dizer-se que, quanto ao emprego do
hífen nos compostos, locuções e encadeamentos vocabulares, se mantém o que foi
estatuído em 1945, apenas se reformulando as regras de modo mais claro, sucinto
e simples.
De fato, neste domínio não se verificam praticamente
divergências nem nos dicionários nem na imprensa escrita.
6.3.O hífen nas formas derivadas (Base XVI)
Quanto ao emprego do hífen nas formações por
prefixação e também por recomposição, isto é, nas formações com pseudoprefixos
de origem grega ou latina, apresenta-se alguma inovação. Assim, algumas regras
são formuladas em termos contextuais, como sucede nos seguintes casos:
a)Emprega-se o hífen quando o segundo elemento da
formação começa por h ou pela mesma vogal ou consoante com que termina o
prefixo ou pseudoprefixo (por ex. anti-higiênico, contra-almirante,
hiper-resistente).
b)Emprega-se o hífen quando o prefixo ou falso prefixo
termina em m e o segundo elemento começa por vogal, m ou n
(por ex. circum-murado, pan-africano).
As restantes regras são formuladas em termos de
unidades lexicais, como acontece com oito delas (ex-, sota- e
soto-, vice- e vizo-; pós-, pré- e pró-).
Noutros casos, porém, uniformiza-se o não emprego do
hífen, do modo seguinte:
a)Nos casos em que o prefixo ou o pseudoprefixo
termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, estas
consoantes dobram-se, como já acontece com os termos técnicos e científicos (por
ex. antirreligioso, microssistema).
b)Nos casos em que o prefixo ou pseudoprefixo termina
em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente daquela, as duas formas
aglutinam-se, sem hífen, como já sucede igualmente no vocabulário científico e
técnico (por ex. antiaéreo, aeroespacial)
6.4.O hífen na ênclise e tmese (Base XVII)
Quanto ao emprego do hífen na ênclise e na tmese
mantêm-se as regras de 1945, exceto no caso das formas hei de, hás de, há de,
etc., em que passa a suprimir-se o hífen. Nestas formas verbais o uso do hífen
não tem justificação, já que a preposição de funciona ali como mero
elemento de ligação ao infinitivo com que se forma a perífrase verbal (cf.
hei de ler, etc.), na qual de é mais proclítica do que apoclítica.
7.Outras alterações de conteúdo
7.1.Inserção do alfabeto (Base I)
Uma inovação que o novo texto de unificação
ortográfica apresenta, logo na Base I, é a inclusão do alfabeto, acompanhado das
designações que usualmente são dadas às diferentes letras. No alfabeto português
passam a incluir-se também as letras k, w e y, pelas
seguintes razões:
a)Os dicionários da língua já registram estas letras,
pois existe um razoável número de palavras do léxico português iniciado por
elas.
b)Na aprendizagem do alfabeto é necessário fixar qual
a ordem que aquelas letras ocupam.
c)Nos países africanos de língua oficial portuguesa
existem muitas palavras que se escrevem com aquelas letras.
Apesar da inclusão no alfabeto das letras k,
w e y, mantiveram-se, no entanto, as regras já fixadas anteriormente,
quanto ao seu uso restritivo, pois existem outros grafemas com o mesmo valor
fônico daquelas. Se, de fato, se abolisse o uso restritivo daquelas letras,
introduzir-se-ia no sistema ortográfico do português mais um fator de
perturbação, ou seja, a possibilidade de representar, indiscriminadamente, por
aquelas letras fonemas que já são transcritos por outras.
7.2.Abolição do trema (Base XIV)
No Brasil, só com a Lei nº 5.765, de 18/12/1971, o
emprego do trema foi largamente restringido, ficando apenas reservado às
sequências gu e qu seguidas de e ou i, nas quais
u se pronuncia (cf. aguentar, arguente, eloquente, equestre, etc.).
O novo texto ortográfico propõe a supressão completa
do trema, já acolhida, aliás, no Acordo de 1986, embora não figurasse
explicitamente nas respectivas bases. A única ressalva, neste aspecto, diz
respeito a palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros com trema (cf.
mülleriano, de Müller, etc.).
Generalizar a supressão do trema é eliminar mais um
fator que perturba a unificação da ortografia portuguesa.
8.Estrutura e ortografia do novo texto
Na organização do novo texto de unificação ortográfica
optou-se por conservar o modelo de estrutura já adotado em 1986. Assim, houve a
preocupação de reunir, numa mesma base, matéria afim, dispersa por diferentes
bases de textos anteriores, donde resultou a redução destas a vinte e uma.
Através de um título sucinto, que antecede cada base,
dá-se conta do conteúdo nela consagrado. Dentro de cada base adotou-se um
sistema de numeração (tradicional) que permite uma melhor e mais clara arrumação
da matéria aí contida.