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CLÉRIO JOSÉ BORGES DE SANT´ANNA                                             VOLTAR


DEFINIÇÕES E ORIGEM DA TROVA

Texto de Clério José Borges
(Autor do Livro "Origem Capixaba da Trova")

Trovador é uma palavra derivada do latim, acusativo singular de "trobaire" (poeta), do verbo trobar (inventar, achar). Todo trovador é poeta, mas nem todo poeta é trovador, pois nem todos Poetas sabem metrificar, fazer o verso medido.
A trova possui o seu conceito plenamente estabelecido: É o poema de quatro versos setessilábicos com rima e sentido completo. Mas, quando surgiu, não era assim. Seu aparecimento está intimamente ligado à poesia da Idade Média, onde a trova era sinônimo de poema e letra de música. A cultura trovadoresca refletia bem o panorama histórico desse período: as Cruzadas, a luta contra os mouros, o feudalismo, o poder espiritual do clero. Quanto à arquitetura, o estilo gótico é o que predominava. Na literatura, desenvolveu-se, no sul da França e em Portugal, um movimento poético chamado Trovadorismo. Os poemas produzidos nessa época eram feitos para serem cantados por poetas e músicos, e foram os primeiros a serem sistematicamente publicados.
Hoje, entretanto, a trova possui a sua conceituação própria, diferenciando-se da quadra e da poesia de cordel, da Trova Gauchesca, do Repente, bem como do poema musicado da Idade Média. Um movimento cultural em torno da trova surgiu no Brasil a partir de 1950 e chamou-se Trovismo. A palavra foi criada pelo poeta e político falecido J. G. de Araújo Jorge e pelo escritor e historiado, Eno Theodoro Wanke.
Em 1960, foram realizados os Primeiros Jogos Florais, com sucesso, e a fundação oficial da União Brasileira de Trovadores, juntamente com uma plêiade de idealistas do Rio de Janeiro.
O Dentista Gilson de Castro é considerado o maior divulgador da Trova nos anos 50 e 60. Usava o pseudônimo de Luiz Otávio. Era carioca, nascido em 18 de Julho de 1916 e deixou o seu nome inscrito nas páginas literárias desse país como o Príncipe dos Trovadores Brasileiros, pelo seu trabalho incessante e gigantesco em prol da causa da trova. No dia 31 de Janeiro de 1977, Luiz Otávio, alçou vôo para a eternidade.
Em 1980, ao criar o Clube dos Trovadores Capixabas, o poeta Clério José Borges fez despontar o Neotrovismo, que é a renovação do movimento em torno da Trova no Brasil.

Trovismo: Movimento cultural em torno da Trova no Brasil, surgido a partir de 1950. A palavra foi criada pelo poeta e político falecido J. G. de Araújo Jorge. O escritor Eno Teodoro Wanke publica em 1978 o livro "O Trovismo", onde conta a história do movimento de 1950 em diante.
Neotrovismo: É a renovação do movimento em torno da Trova no Brasil. Surge em 1980, com a criação por Clério José Borges do Clube dos Trovadores Capixabas. Foram realizados 15 Seminários Nacionais da Trova no Espírito Santo e o Presidente Clério Borges já foi convidado e proferiu palestras no Brasil e no Uruguai. Em 1987 concedeu inclusive entrevista em Rede Nacional, no programa "Sem Censura" da TV Educativa do Rio de Janeiro.

A Trova possui o seu conceito plenamente estabelecido: É o poema de quatro versos setessilábicos com rima e sentido completo. Já Quadra é toda estrofe formada por quatro linhas de uma poesia.
Assim, não é verdade que Quadra e Trova sejam a mesma coisa e que a Trova evoca mais os Trovadores da Provença Medieval e que a Quadra seria uma forma de se fazer poesia mais moderna. A Quadra pode ser feita sem métrica e com versos brancos, sem rima. Aí então será só uma quadra sem ser a Trova que obrigatoriamente terá que ser metrificada.
Trova, nos dias atuais, é cultuada como Obra de Arte, como Literatura.
A Trova é uma composição poética, ou seja, uma poesia que deve obedecer as seguintes características:
1- Ser uma quadra. Ter quatro versos. Em poesia cada linha é denominada verso.
2- Cada verso deve ter sete sílabas poéticas. Cada verso deve ser setessilábico. As sílabas são contadas pelo som.
3- Ter sentido completo e independente. O autor da Trova deve colocar nos quatro versos toda a sua idéia. A Trova difere dos versos da Literatura de Cordel, onde em quadra ou sextilhas, o autor conta uma história que no final soma mais de cem versos, ou seja, linhas. A Trova possui apenas 4 versos, ou seja, 4 linhas.
4- Ter rima. A rima poderá ser do primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto, no esquema ABAB, ou ainda, somente do segundo com o quarto, no esquema ABCB. Existem Trovas também nos esquemas de rimas ABBA e AABB.
Segundo o escritor Jorge Amado:
"Não pode haver criação literária mais popular e que mais fale diretamente ao coração do povo do que a Trova. É através dela que o povo toma contato com a poesia e por isto mesmo a Trova e o Trovador são imortais"
Poeta para ser Poeta precisa saber metrificação, saber contar o verso. Se não souber o que é escansão, ou seja, medir o verso, não é Poeta.

Trova é uma composição poética clássica de forma fixa, constante de quatro versos de sete sílabas, rigorosamente metrificados e rimados. Uma estrofe, qualquer que seja constante de quatro versos chama-se quadra (=quarteto). A trova, portanto é uma quadra, mas nem toda quadra é uma trova. Isso por que, uma quadra para ser trova deve atender as exigências de ter sentido completo e independente, e de possuir as rimas assim esquematizadas: ABSB; ABBA; AABB; e ABCB. A trova mais cultivada é a elaborada com o esquema de rimas ABAB.

POESIA
Poesia é a forma de expressão lingüística destinada a evocar sensações, impressões e emoções por meio da união de sons, ritmos e harmonias, utilizando-se vocábulos essencialmente metafóricos.
A poesia surgiu intimamente ligada à música. As poesias dos aedos gregos e trovadores medievais promoviam a união entre a letra do poema e o som. Ao longo dos anos, este vínculo foi se intensificando, mas houve uma distinção técnica entre a música (que passou a ser escrita em pautas) e a poesia que preservou a rítmica natural, e passou a ser construída por meios gramaticais. Posteriormente, a poesia ganhou fundamentos e regras próprias.
Existe alguma divergência entre o que significa Poema e Poesia. Para efeito geral, considera-se que são sinônimos; mas para a definição acadêmica, Poesia é o gênero de composição poética e Poema é a obra deste gênero.
Para que entendamos melhor, vejamos a definição de Poema segundo o eminente escritor, Assis Brasil:
"Poema é o "objeto" poético, o texto onde a poesia se realiza, é uma forma, como o soneto que tem dois quartetos e dois tercetos, ou quatorze versos juntos, como é conhecido o soneto inglês. Um poema seria distinto de um texto ou estrofes. Quando essa nomenclatura definitiva é eliminada, passando um texto a ser apresentado em forma de linhas corridas, como usualmente se conhece a prosa, então se pode falar em poema-em-prosa, desde que tal texto (numa identificação sumária e mecânica) apresente um mundo mais "poético", ou seja, mais expressivo, menos referente à realidade. A distinção se torna por vezes complexa. (...) a poesia pode estar presente quer no poema que é feito com certo número de versos, quer num texto em prosa, este adquirindo a qualidade poema-em-prosa".
Já Poesia, Assis Brasil define assim:
"(...) uma manifestação cultural, criativa, expressiva do homem. Não se trata de um 'estado emotivo', do deslumbre de um pôr-do-sol ou de uma dor-de-cotovelo; é muito mais do que isso, é uma forma de conhecimento intuitivo, nunca podendo ser confundido o termo poesia com outro correlato: O poema".

VERSO
É cada uma das linhas de um poema. É a unidade rítmica da composição poética. Existem três qualificações de verso:
VERSO AGUDO; VERSO GRAVE e VERSO ESDRÚXULO.
Verso Agudo é o que termina em palavra oxítona ou em monossílabo tônico. Exemplos: trenó, luz.
Verso Grave é o verso que termina em palavras paroxítonas. Exemplos: palavra, bonito, capote.
Verso Exdrúxulo é o verso que termina em palavras proparoxítonas. Exemplos: lépido, insípido, súbito, apátrida.

POEMETO
É um poema curto. De poemetos, temos belos exemplos, como sejam: O Melro e O Fiel, de Guerra Junqueira, e Juca Mulato, de Menotti Del Picchia.

ELISÃO
É a fusão de duas ou mais vogais no mesmo verso, formando uma sílaba só. Exemplo: Dei-te amor (4 sílabas) = Dei-tea-mor (3 sílabas poéticas).

HIATO
É o encontro de duas vogais, em sílabas diferentes. Nas frases em que ele ocorre, as vogais não se fundem quando da leitura do verso. Exemplo: Está a falar.

CONTAGEM DAS SÍLABAS
Na tradição de nossa língua, a contagem de sílabas no verso difere da contagem gramatical das palavras na frase.
Enquanto nesta são consideradas todas as sílabas, no verso ela se processa como se fala, com a absorção de vogais pronunciadas. Em poesia não se contam:
- A última sílaba do verso grave. Exemplo: na palavra membrana, não se conta a sílaba na;
- As duas últimas sílabas, no verso esdrúxulo. Exemplo: na palavra prática, não se contam as sílabas ti-ca.

RIMA 
Embora desconhecida na literatura antiga, a rima tornou-se - a partir do início da Idade Média - um elemento fundamental da lírica. Ela reforçava os aspectos sonoros e musicais dos versos, além de estabelecer algumas correspondências de sentido entre eles. A rima nasce de uma semelhança ou de uma igualdade de sons em dois ou mais versos: calor / amor; remédio / tédio; etc. Geralmente, ela se dá no final dos versos, de forma alternada (AB/AB), como nesta estrofe de um poema de Vinícius de Moraes:
Distante o meu amor, se me afigura (A)
O amor como um patético tormento (B)
Pensar nele é morrer de desventura (A)
Não pensar é matar meu pensamento. (B)
As rimas também podem aparecer duas a duas (AA/BB/CC), sendo conhecidas como rimas emparelhadas. Existe também as que ocorrem entre o primeiro e o quarto versos, o segundo e o terceiro (AB/BA), recebendo o nome de rimas entrelaçadas. Há também uma rima interior, quando uma ou mais palavras que coincidem sonoramente estão no interior do verso. Veja-se este exemplo de Fernando Pessoa:
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
Durante o século XVIII, os autores do Arcadismo, em nome dos antigos clássicos, combateram duramente a rima na poesia. Instituiu-se então o verso branco, onde as semelhanças ou identidades de fonemas não apareciam. No século seguinte, a rima ressurgiu com força, em especial nos autores do Romantismo e do Parnasianismo. Já no século XX, ela quase desapareceu diante do verso livre (sem rima e sem métrica), utilizado pela maioria dos poetas contemporâneos.

ORIGEM DA TROVA
A Trova é uma forma poética milenar. Possui mais de mil anos.
É originária da Península Ibérica. Península é uma porção de terra cercada de água por todos os lados, exceto um, por onde se liga a outra terra. A Península Ibérica fica no Continente Europeu, ou seja, na Europa e, é constituída pelos países Espanha e Portugal.
Até o século passado, isto é, século XIX, a Trova era exclusivamente popular. Feita pelo povo.
Os textos em forma de Trova se popularizavam nos cantares da rua, nas serenatas, nos passeios, nas festas de casamento, etc.
É certo que a Trova nasceu no período da Idade Média.

A Idade Média compreende o período de anos entre a invasão do Império Romano pelos bárbaros, no século V, em 476, até a data da ocupação de Constantinopla pelos Turcos, em 1453, no século XV. Na Antigüidade, vários povos, como persas, gregos, egípcios e romanos, dominaram vastas regiões pela força, através de exércitos e com guerras, construindo imensos Impérios.
A cidade de Roma, hoje Capital da Itália, foi fundada em 753 Antes de Cristo. Transformou-se na Capital do Mundo Ocidental com a expansão do Império Romano. Graças à riqueza acumulada e aos milhares de escravos conseguidos entre os povos conquistados, tornou-se uma cidade rica na época, com magníficos palácios, monumentos, chegando a uma população de mais de 1 milhão de habitantes.
Constantinopla era a antiga cidade de Bizâncio, uma antiga colônia grega, localizada estrategicamente entre o mar Negro e o mar Mediterrâneo, que facilitava o comércio e a defesa de ataques inimigos. No ano de 330, o Imperador Romano, Constantino, que foi o primeiro a se tornar Cristão, transferiu a Capital para Bizâncio que passou a chamar-se Constantinopla, passando a ser a Capital de todo o Império Romano.
A mudança foi feita, pois os bárbaros avançavam sobre a Europa, enfraquecendo a então Capital do Império, Roma. Em 395, os bárbaros já dominavam Roma. Em 1389, os Turcos então chamados povos bárbaros, já atacavam as províncias orientais e em 1453 ocuparam Constantinopla. Era o fim do Império Bizantino que recebera este nome por estar centralizado na antiga cidade de Bizâncio. Constantinopla passou a chamar-se Istambul, e a religião Cristã foi substituída pela religião dos invasores Turcos, chamada muçulmana ou Islamismo.

Analisando a poesia das músicas cantadas nas cerimônias litúrgicas, ou seja, nas atividades religiosas, lá pelo século V, o historiador e incansável pesquisador Eno Teodoro Wanke, acabou descobrindo muitos refrões, já em forma de quadras.

Refrão significa estribilho, ou seja, versos repetidos no fim de um grupo de versos de uma composição poética.

A Península Ibérica, no século VII fora invadida pelos Árabes.
Segundo a Bíblia, os Árabes são descendentes de Ismael, filho de Abraão.

Árabe, significa "aqueles que falam claramente".
Subdivididos, em princípio, em muitas tribos, a partir do século VII, os Árabes formaram um Império baseado no Islamismo, uma religião fundada pelo profeta Maomé e que tem o Alcorão como livro sagrado de leis.
O Império Árabe expandiu-se através de feitos militares, chegando a ocupar vasto território em três continentes: Ásia, África e Europa. Os Árabes eram originários da Arábia, região da Ásia. Os Turcos são originários da Turquia, região também da Ásia e cuja extremidade sudeste do território ocupa a Europa. Por professarem uma religião diferente da religião Cristã, os Árabes e os Turcos eram chamados pelos povos Cristãos, como os Bárbaros.

No século XI, a expansão dos Árabes ia pela Ásia Central Soviética até o noroeste da África e a Península Ibérica.
Assim o poeta Mocadem, poeta cego, nascido em 840 da nossa Era, em Cabra, na região espanhola da Andaluzia, foi um dos primeiros a utilizar a Trova popular em estado rude, utilizando-a nos seus escritos em árabe, que fechavam com um poema curto, popular, em língua romance (a falada na Andaluzia) denominada então de Carja.
Mocadem nasceu em plena dominação Árabe na Espanha, na Península Ibérica e era, portanto um poeta de língua Árabe. Faleceu em 920 D.C.
A partir do século XIII, a Trova começa a desenvolver-se com certo requinte, ou seja, de forma mais aprimorada, mais bem feita. Em "Cantigas de Santa Maria", livro escrito pelo Rei Afonso X, de Castela, região da Espanha, no século XIII, encontramos mais de 200 refrões com as características da nossa Trova. Eis um exemplo:
Conhecidamente mostra
milagres Santa Maria
em aqueles que a chamam
de coração, noite e dia.
Os séculos seguintes estão cheios de poemas com refrões, com as características de Trova.
No século XVI, encontramos Trovas do Poeta Camões.
Luís Vaz de Camões é considerado um dos maiores poetas épicos.
Poeta épico é aquele que faz poemas grandes, sobre assuntos e ações heróicas.
Camões nasceu em Lisboa em 1524. Em 1552, numa batalha na África, perdeu o olho direito. Pouco se sabe com segurança sobre a vida de Luís Vaz de Camões. É provável que tenha nascido por volta de 1525, talvez em Lisboa. Deve ter tido uma educação esmerada, apesar de pertencer à camada menos abastada da corte portuguesa. Supõe-se que tenha estudado no Convento de Santa Cruz, no qual trabalhava Dom Bento de Camões, seu tio. Lutando contra os mouros, na investida portuguesa em Ceuta, em 1549, perde a vista direita, razão pela qual será sempre representado futuramente com um tapa-olho. Preso durante o ano de 1552 por se envolver em brigas, embarca para o Oriente no ano seguinte em serviço militar. Vivendo na miséria em Goa e Moçambique durante 16 anos, chega a ter o seu Auto de Filodemo representado na Índia e, graças ao auxílio financeiro de amigos, regressa a Lisboa em 1569. Data desse período de dura peregrinação pelas colônias ultramarinas portuguesas a imagem de Camões que o
 s românticos haveriam de perpetuar: a do poeta miserável, exilado e saudoso de sua terra, sofrendo humilhações no cotidiano e escrevendo os mais sublimes versos como vingança. A conhecida história de seu relacionamento com Dinamene, companheira chinesa do poeta, reforça essa imagem. Navegando pelo rio Mecon, na Indochina, o casal sofreria um naufrágio. Diz a lenda que Camões teria conseguido salvar a si e aos manuscritos dos Lusíadas, enquanto a infeliz Dinamene morria afogada. Camões dedicaria à amada morta vários de seus poemas líricos, procurando elevá-la às mesmas alturas da Laura de Petrarca ou da Beatriz de Dante. Retornando a Portugal, consegue publicar, em 1572, a sua obra-prima, Os Lusíadas, e passa a viver de uma modesta pensão oferecida por Dom Sebastião, a quem dedicara seu poema épico. Morre em 1580, mesmo ano em que Portugal perdia sua autonomia política, caindo sob o domínio da temível Espanha. Em carta a Dom Francisco de Almeida, o poeta sintetiza este moment
 o: "...acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não me contentei em morrer nela, mas com ela".  Lisboa é a Capital de Portugal, país que com a Espanha forma a Península Ibérica.
Camões escreveu o poema épico, "Os Lusíadas" que possui 1.102 estrofes e 8.816 versos. Estrofe é um conjunto de versos de uma composição poética. Já verso, em poesia, é cada linha de um poema. Assim os  "Os Lusíadas"  é um poema que possui 8.816 linhas.
O livro "Os Lusíadas" foi publicado com sucesso em 1572. Apesar do sucesso de sua obra épica, Camões morreu na miséria em 1580. Poemas líricos seus, só foram publicados 15 anos após sua morte. Eis uma de suas Trovas, no esquema de rima "ABBA":
Campos bem-aventurados
tornai-vos agora tristes,
que os dias em que me vistes
alegre,  já são passados.

A partir de Camões (Século XVI) até o Século XVIII, a trova ficou, praticamente, no obscurantismo. Somente por volta de 1815, através de uma coletânea de contos folclóricos alemães de Wilhein e Jacob Grimm foi que a trova reapareceu. Em 1859, houve uma publicação sobre "trovas folclóricas" de Cecília Bohl, intitulada Cuentos y Poesias Populares Andaluces. Em 1867 veio a lume a coleção de "Trovas Portuguesas", organizada por Teófilo Braga (1843-1924). Em 1883, foi lançado em Portugal, o livro "Cantos Populares do Brasil", de autoria do sergipano Silvio Romero (1851-1914).
Em 1902, Antônio Correa de Oliveira (1879-1960) publicou o livro "Cantigas", o primeiro livro de Língua portuguesa inteiramente de trovas.

OBS.: O texto acima de autoria do Poeta, Escritor e Historiador Capixaba, Clério José Borges de Sant Anna foi publicado no Livro ORIGEM CAPIXABA DA TROVA, lançado no dia 03 de Outubro de 2007, na Casa do Congo Mestre Antônio Rosa, na Serra Sede, um dia antes da Sesão Solene comemorativa do Dia Municipal do Poeta Trovador, realizado na Câmara Municipal da Serra.

Clério José Borges


O QUE É UMA TROVA?
Definições - Metrificação - Como contar o Verso.
Saiba tudo sobre esta singela forma de Poesia


  SAIBA O QUE É TROVA

Trova é uma Poesia. Para fazer uma Trova você precisa saber medir o verso, saber o que é Escansão e Metrificação. Caso contrário DESISTA, será apenas um fazedor de quadras, mas nunca um TROVADOR, pois, na verdade, todo Trovador é um Poeta, mas nem todo Poeta é Trovador

Estudantes da Cidade da Serra assistindo as aulas de Clério José Borges sobre Trovas e Origem da Serra

DEFINIÇÃO DA TROVA

A Trova é uma composição poética, ou seja, uma poesia que deve obedecer as seguintes características:

1- Ser uma quadra. Ter quatro versos. Em poesia cada linha é denominada verso.

2- Cada verso deve ter sete sílabas poéticas. Cada verso deve ser setessilábico. As sílabas são contadas pelo som.

3- Ter sentido completo e independente. O autor da Trova deve colocar nos quatro versos toda a sua idéia. A Trova difere dos versos da Literatura de Cordel, onde em quadra ou sextilhas, o autor conta uma história que no final soma mais de cem versos ou seja, linhas. A Trova possui apenas 4 versos, ou seja, 4 linhas.

4- Ter rima. A rima poderá ser do primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto, no esquema ABAB, ou ainda, somente do segundo com o quarto, no esquema ABCB. Existem Trovas também nos esquemas de rimas ABBA e AABB.

Segundo o escritor Jorge Amado:

"Não pode haver criação literária mais popular e que mais fale diretamente ao coração do povo do que a Trova. É através dela que o povo toma contato com a poesia e por isto mesmo a Trova e o Trovador são imortais"

Todo Trovador é poeta mas nem todo poeta é trovador. Nem todos poetas sabem metrificar, fazer o verso medido.

Poeta para ser Poeta precisa saber metrificação, saber contar o verso. Se não souber o que é escansão , ou seja, medir o verso, não é Poeta.

Eis alguns exemplos de Trovas:

Nesta casa tão singela

Onde mora um Trovador

É a mulher que manda nela

Porém nos dois manda o amor.

Clério José Borges

Ficou pronta a criação

Sem um defeito sequer,

E atingiu a perfeição

Quando Deus fez a mulher.

Eva Reis


Um pouco sobre a métrica

Métrica é a arte que ensina os elementos necessários à feitura de versos medidos. A métrica é obtida pela contagem das sílabas e o ritmo pelas cesuras. Você sabe metrificar e ritmar ?

Uma regra

A última sílaba que se conta é a tônica da última palavra. Ex.- 7 Sílabas:

Eu vi mi-nha mãe re-zan-do
Aos pés da Vir-gem Ma-ri-a
E-ra u-ma San-ta es-cu-tan-do
O que ou-tra San-ta di-zi-a

Outra regra

Quando uma palavra termina por vogal átona e a seguinte começa por vogal ou ditongo, conta-se uma sílaba só. Diz-se que há embebimento de uma sílaba na outra. Ex.:

Ou vin do a fa la ao ven to. São 6 sílabas.

Mais uma regra

Para atender à métrica, hiatos podem transformar-se em ditongos (Sinérese)e ditongos transformar-se em hiatos (Diérese) Ex

Su-a-ve por Sua-ve (3 viram 2)
Sau-da-de por Sa-u-da-de (3 viram 4)

Cesuras

Não esqueça que o que dá ritmo à poesia são as cesuras. São as sílabas tônicas que devem existir obrigatoriamente no interior dos versos, quando tenham mais de sete sílabas.

Nos decassílabos Sáficos - 4ª - 8ª - 10ª - Ex.:
Ia Bar-sa-nul-fo pe-lo ver-de pra-do
Nos decassílabos Heróicos - 6ª - 10ª Ex
Tra-ba-lho nas no-ve-las nun-ca ve-jo

E.T. O verso Alexandrino legítimo tem cesuras na 6ª e 12ª. Se tiver na 4ª, 8ª e 12ª. será um Dodecassílabo Quaternário. Não necessariamente um Alexandrino.


Trovas

A trova é uma composição poética de quatro versos de sete sílabas poéticas, que tem de ter rima no mínimo da 2ª com a 4ª linhas (versos). Preferível será rimar também a 1ª com a 3ª.

Encontra-se em trovas mais antigas rimas da 1ª com a 4ª e da 2ª com a 3ª. Há também 1ª com 2ª e 3ª com 4ª, além de outras. embora o tipo enunciado no primeiro parágrafo seja o mais usado atualmente.

A trova, para ser bem feita, tem de ter um ACHADO. Achado é algo diferente e que faça valer a pena ler a trova. Adelmar Tavares diz

"Nem sempre com quatro versos
setissílabos, a gente
consegue fazer a trova;
faz quatro versos, somente"

No livro "Como Fazer Trovas e Versos", de Eno Teodoro Wanke, ele faz interessante observação a esse respeito.

Mostra a trova de um autor e a correção por outro trovador, dando-lhe mais qualidade.

Acompanhemos o exemplo:

Trova de João Cândido, publicada no ano de 1894:

O filho do carpinteiro
foi um artista profundo
o que fez esse luzeiro ?
Fez um conserto no mundo.

Raul Pederneiras (1874-1973), lá pelos idos de 1916, depois de tomar bons goles de vinho, saiu-se com esta:

O filho do carpinteiro
foi um artista profundo:
com três cravos e um madeiro
fez a redenção do mundo !

Com apenas 28 sílabas temos a história do Cristianismo, mostrando o que ele significa. Outro exemplo:

Tua boca todos sabem
é tão pequena e singela
que eu não sei como é que cabem
tantos beijos dentro dela.

Na revisão, foi mudada.

Tua boca é tão pequena
tão pequena e tão singela
que não sei como é que cabem
tantos beijos dentro dela.

Rimou apenas a 2ª com a 4ª, mas ficou mais bonita e expressiva.

Nota - Comece a trova sempre com letra maiúscula. A partir do segundo verso use letra minúscula, a menos que a pontuação indique o início de nova frase. Nesse caso, use a maiúscula novamente.

Aprenda a trovar fazendo poesia de qualidade


 

Trovismo: Movimento cultural em torno da Trova no Brasil, surgido a partir de 1950. A palavra foi criada pelo poeta e político falecido J. G. de Araújo Jorge. O escritor Eno Teodoro Wanke publica em 1978 o livro "O Trovismo", onde conta a história do movimento de 1950 em diante.

Neotrovismo: É a renovação do movimento em torno da Trova no Brasil. Surge em 1980, com a criação por Clério José Borges do Clube dos Trovadores Capixabas. Foram realizados 20 Seminários Nacionais da Trova no Espírito Santo e o Presidente Clério Borges já foi convidado e proferiu palestras no Brasil e no Uruguai. Em 1987 concedeu inclusive entrevista em Rede Nacional, no programa "Sem Censura" da TV Educativa do Rio de Janeiro.


O Trovador Literário é aquele que sabe fazer a Trova, imprimindo espontaneidade, graça, beleza e sabedoria, tal qual a cultivaram poetas brasileiros de renome, como Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor,

finge tão completamente,

que chega a fingir que é dor

a dor que deveras sente.


Olavo Bilac:

Mulher de recursos fartos!

Como é que está impenitente,

tendo no corpo dois quartos,

dá pousada a tanta gente?


Menotti Del Picchia:

Saudade, perfume triste

de uma flor que não se vê.

Culto que ainda persiste

num crente que já não crê.


Mário de Andrade:

Teu sorriso é um jardineiro,

meu coração é um jardim.

Saudade! Imenso canteiro

que eu trago dentro de mim.


Cecília Meireles:

Os remos batem nas águas:

têm de ferir para andar.

As águas vão consentindo

- esse é o destino do mar.


Carlos Drumond de Andrade:

Solidão, não te mereço,

pois que te consumo em vão.

Sabendo-te, embora, o preço,

calco teu ouro no chão.

O Clube dos Trovadores Capixabas, CTC é uma entidade cultural sem fins lucrativos de divulgação da Trova e da Poesia em Geral. Foi fundado por Clério José Borges, Trovador Capixaba, com base numa idéia do escritor Eno Theodoro Wanke, a 1º de Julho de 1980, na cidade de Vila Velha, estado do Espírito Santo. Para comemorar o aniversário do CTC, foram organizados anualmente os SEMINÁRIOS NACIONAIS DA TROVA.

O CTC hoje é uma entidade atuante e possui mais de 1.500 sócios no Espírito santo, no Brasil e no exterior. São sócios Fundadores, Efetivos e Correspondentes.

O Movimento Trovista, que havia sido expressivo no Espírito Santo em 1967,1968, 1969 e 1970, voltou a ser reativado no Espírito Santo em 1980.


Bibliografia:

1. BORGES, Clério José - O Trovismo Capixaba - Editora Codpoe - Rio de Janeiro, 1990. 80 páginas. Ilustrado.

2. Literatura Brasileira - Willian Roberto Cereja e Thereza Analia Cochar Magalhães - Editora Atual. São Paulo - 1995.

3. Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa - José de Nicola e Ulisses Infante - Editora Scipione. São Paulo - 1995.

4. Textos e matéria dada em sala de aula para 1° e 2° ano do 2° grau nos anos de 1996 e 1997 pelo professor Ádino, no Colégio WR.

5. Coleção Objetivo - Literatura I e II (Livros 26 e 27) - Prof. Fernando Teixeira de Andrade - Editora Cered. São Paulo.

6. Ana Cristina Silva Gonçalves – Texto na Internet.

7. A TROVA – Eno Theodoro Wanke – Editora Pongetti, 1973 – Rio de Janeiro – 247 páginas.




OBSERVAÇÃO: Permitimos a livre reprodução do conteúdo e agradecemos a citação da fonte com a inclusão de nosso link, se possível.

Fonte de Pesquisa:
Borges, Clério José - Livro História da Serra, 1a. 2a. e 3a Edição - 1998, 2003 e 2009 - Editora Canela Verde - À Venda na Livraria Doce Saber, Laranjeiras, Serra ES - Tel.: 27 - 32 81 24 89

Borges, Clério José - Livro Dicionário Regional de Gírias e Jargões - 2010 - Editora Canela Verde - À Venda na Livraria Doce Saber, Laranjeiras, Serra ES - Tel.: 27 - 32 81 24 89



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