Queimado
é um Distrito da Serra, Espírito Santo, Brasil
Possui
uma área de 77 quilômetros quadrados e fica a sudoeste do Município.
Já
pertenceu a Vitória e Santa Leopoldina. Passou a Distrito, em 27 de julho de
1846, pela resolução N.º 92, embora fosse apenas uma povoação.
Desde
a resolução N.º 4, de 26 de dezembro de 1889, já gozava de prerrogativas de
Vila, mas só foi elevada em 11 de novembro de 1938. Possuiu sua primeira Escola
Pública em ato oficial de 12 de abril de 1847 e cuja inauguração foi a 24 de
abril do mesmo ano.
Teve uma Escola Feminina inaugurada em 4 de agosto de 1873.
Queimado foi palco de acontecimentos dramáticos em março de 1849, a Insurreição de
Queimado, que foi uma revolta dos negros em busca de liberdade.
O
nome vem do clima do lugar, uma região em que há muito calor com constantes
queimas de mato. Os antigos da região diziam: “Vamos para o Sítio das
Queimadas”. Como as queimadas eram num único local da região, passou a ser sítio
Queimado e com o surgimento do Porto no rio Santa Maria, o local passou a ser
denominado de Queimado, com referência ao sítio Queimado, onde antes haviam várias
queimadas.
REVOLTA
DOS NEGROS
Em
março de 1849, Queimado foi palco de uma Insurreição de negros escravos. As
Insurreições ou revoltas de escravos eram comuns nas Vilas e Aldeias do Espírito
Santo e do Brasil.
Eugênio
de Assis escreve num artigo publicado na Revista Capichaba, que em 1842 houve
uma pequena revolta de escravos, sem maiores conseqüências na Serra.
Por
muitos anos a população branca da Serra e do espírito Santo minimizavam o
fato ocorrido no distrito do Queimado, procurando menosprezar a luta dos negros
pela liberdade. Nos dias atuais sabe-se historicamente que a Insurreição do
Queimado foi um marco na história da Negritude Capixaba.
Sempre
ocorriam fugas de negros e quando o número de escravos fugitivo era maior, os
Capitães do Mato, eram chamados para a caça aos fugitivos. Contudo a Insurreição
do Queimado foi uma revolta que durou até a prisão de Elisiário, um dos líderes
do Movimento, cinco dias depois do início da Insurreição, no dia 23 de março.
Frei
Gregório José Maria de Bene, Missionário Capuchinho Italiano, que era Europeu
e não admitia escravidão, estabeleceu uma estreita ligação com os escravos e
esta ligação preocupava e contrariava os que usavam da mão de obra escrava
para enriquecerem.
CONSTRUÇÃO
DA IGREJA
Frei
Gregório levantou a bandeira da construção de uma grande Igreja na povoação
de Queimado. A pedra fundamental da Igreja foi lançada em 15 de agosto de 1845,
quando na região que incluía o Sítio Tapera, havia cerca de cinco mil
“almas”. Em seguida, Frei Gregório, convocou os negros da região
para a construção da obra, com a promessa de que posteriormente intercederia
junto aos Senhores para que fosse dada a alforria de cada um dos negros que ali
trabalhassem.
Existe
a versão de que a atitude do padre foi "maliciosa
e esperta" para com os negros. Mas, esta versão é falsa. Foi criada pelos
Senhores da região. Na verdade, Frei Gregório, desejava realmente promover a
liberdade dos escravos. Frei Gregório não prometera conceder a liberdade e sim
prometeu interceder para que fosse dada a alforria.
Citado
como espertalhão, deve-se resgatar a memória do padre Frei Gregório, como
verdadeiro defensor da liberdade dos escravos.
Há
quem diga que a expressão “Conto do Vigário”, teria se originado da
atitude insegura e fraca do Frei Gregório Maria De Bene. Na verdade a expressão
“Conto do Vigário” refere-se a um “falso” padre que começou a pedir
dinheiro a várias pessoas e depois fugiu de uma
cidade no interior do Brasil.
HERÓICO
MISSIONÁRIO
O
historiador Wilson Lopes de Resende, em obra de 1949, com o título "A
Insurreição de 1849 na Província do Espírito Santo", tece elogios ao
Frei Gregório, relatando:
"Os
escravos, (...) aguardaram pacificamente outra oportunidade redentora (...)
quando apareceu na Freguesia do Queimado um Sacerdote, desses heróicos missionários
catequistas que sempre se bateram contra a escravidão e a quem tanto deve o
Brasil Colonial. Chamava-se ele Frei Gregório José Maria de Bene. Embora
italiano, amou essa terra, que escolhe para missionar e, vendo a vida que
levavam os escravos, num flagrante antagonismo com o espírito de liberdade, que
sacudia as revoluções liberais do Brasil até a velha Europa, pensou em
minorar-lhes os sofrimento. Passou, desde então, a auxiliá-los
espiritualmente, incutindo-lhes os ensinamentos da religião, fazendo-os bons e
humildes para imitar a Cristo. (...) Animado com número tão elevado de fiéis,
o Missionário resolveu erigir um Templo no meio de uma povoação de cinco mil
almas. Os escravos não se cansavam de pedir em suas orações ao Todo Poderoso
para que lhes enviasse suas bênçãos e lhes concedesse a graça de obter a
alforria no dia em que a construção terminasse. Frei Gregório, certo da formação
cristã dos Senhores vizinhos, chegou mesmo a admitir que os escravos pudessem
conseguir o que tanto almejavam."
Pelo
texto de 1949, de Wilson Lopes de Resende, observa-se que ele se refere ao Padre
Gregório como um desses "heróicos missionários catequistas que sempre se
bateram contra a escravidão."
FRACO
E MEDROSO
Padre
Gregório chegou inclusive a ser expulso do Espírito Santo em razão de sua
participação a favor dos escravos. O único problema ocorrido é que os negros
acabaram empunhando em armas, no que o Padre não concordou e acabou não mais
apoiando o movimento dos escravos.
Padre
Gregório foi preso pelas forças policiais no dia 20 de março e mais tarde
expulso do Espírito Santo.
A
participação do frei Gregório foi fraca. Mostrou-se uma pessoa medrosa, sem
espírito de liderança para encabeçar o Movimento, mas como Italiano, o
Capuchinho nada podia fazer. Não estava em seu país natal. Era um visitante.
Liderar um movimento de revolta contra a legalidade em vigor, seria assinar a
sentença de expulsão definitiva do país e isto Frei Gregório não queria
pois já admirava e amava o Brasil.
FESTA
DE SÃO JOSÉ
No
dia 19 de Março, data em que a Igreja Católica comemora a Festa de São José,
esposo de Maria, pais de Jesus, foi programada uma grande Missa, em 1849, com
festa no Queimado.
Embora
não estivesse completamente pronta, os negros consideravam a Igreja pronta, já
que faltavam apenas alguns pequenos detalhes na construção da obra.
Para
a Igreja e festa de São José, se dirigiram escravos de Jacaraípe, Una,
Tramerim, Pedra da Cruz, chamados pelos líderes do Movimento de Liberdade.
Segundo
Afonso Cláudio em seu livro " Insurreição de Queimado ", reeditado
pela Prefeitura Municipal de Vitória: "Em várias fazendas pequenas reuniões
celebraram-se às ocultas, e os cabeças destarte arrebanhavam prosélitos com
paciente persistência. Mensageiros cruzavam-se em várias direções para o
norte da província; do sul veio um contingente de 20 escravos para engrossar a
coluna insurrecionária. Da Serra, de Itapoca, de Viana, em suma de todos os
centros onde transpiravam as deliberações tomadas em conciliábulos, afluíam
adeptos à causa".
Ainda
segundo Afonso Cláudio, "sob a aparência de desmedida obediência, os
escravos odiavam os senhores e faziam sacrifícios de toda a sorte para adquirir
armas".
LÍDERES
DO MOVIMENTO
Os
líderes do Movimento foram:
1-
Elisiário, escravo de Faustino Antônio Alvarenga Rangel.
2-
Francisco, o Chico Prego, escravo da Senhora Ana Maria de São José;
3-
João, escravo de Maria da Penha de Jesus, a viúva Monteiro;
4-
João, o Pequeno, escravo de Rangel e Silva;
5-
Carlos, escravo de João Clímaco de Alvarenga Rangel.
Historicamente,
Elisiário foi o cabeça do movimento. Em reuniões com os seus companheiros,
estabelecia as formas de ação do movimento, pois segundo o escritor Wilson
Lopes de Resende, "procedia assim, iluminado pelo Missionário."
Elisiário
foi o símbolo de uma raça sofrida e pelo seu heroísmo, procurou levar
"os negros à glória da libertação."
O
escritor, José Paulino afirma que:
Elisiário
era o "Caudilho Negro". A palavra "Caudilho", possui o
significado de Grande Chefe Militar do Movimento Negro de Liberdade.
FALTA
DE APOIO
Elisiário,
João e Chico Prego, pretendiam na hora da Missa, com o apoio do padre, exigir
dos Senhores presentes que cada um assinasse a declaração tornando-os livres.
O
padre estava rezando a Missa, às 3 horas da tarde, quando a multidão de
escravos, com ânimos exaltados, invadiu a Igreja aos gritos de Liberdade.
O
templo viveu momentos de confusão e frei Gregório acabou por abandonar o
altar, sem terminar a Missa fechando-se na sacristia da Igreja, sem qualquer
comunicação com os escravos. Sabia que se apoiasse o movimento, a Insurreição
se transformaria numa fagulha de um grande acontecimento, atraindo para si a ira
dos senhores, na Província e no Brasil. E, ele era estrangeiro, um Italiano.
Esta fraqueza, gerada pelo instinto de sobrevivência, será considerada por
muitos como medo e Frei Gregório será considerado ao longo da história como
um “padre heróico, (pois semeou a esperança da liberdade), mas medroso.
Sem
apoio do padre e aproveitando a grande concentração de negros, Elisiário, João
e Chico Prego resolvem continuar com o Movimento, percorrendo as casas dos
"senhores obrigando-os a assinar as declarações de Alforria."
Após
conseguirem as declarações pretendiam com o apoio do frei Gregório, que
desfrutava de amizade com D. Tereza Cristina, Imperatriz do Brasil, oficializar
o documento.
Entendiam
que quando chegassem até o padre com vários documentos assinados, o padre não
iria se omitir e os ajudaria. Um dos Senhores que foi obrigado a assinar um
documento de alforria foi Paulo Coutinho Mascarenhas.
VIOLÊNCIA
O
Presidente da Província, Antônio Joaquim de Siqueira, em carta datada de 20 de
Março de 1849 e endereçada ao Ministro de Estado dos Negócios do Império,
Visconde de Monte Alegre, relata o seguinte:
"Ontem
pelas três horas, soube que um grupo armado de trinta e tantos escravos
perpetrara o crime de Insurreição no Distrito de Queimado, três a quatro léguas
distante desta Capital, invadindo a Matriz, na ocasião em que se celebrava a
Missa Conventual e levantando gritos de "Viva a Liberdade", queremos
"Carta de Alforria". Este grupo seguiu depois a direção do Engenho
Fundão, de Paulo Coutinho Mascarenhas, e aí obrigou-o a entregar-lhe os seus
escravos e passar-lhe "Carta de Liberdade", as armas e munições que
possuía, o mesmo fez em outros engenhos, de maneira que conseguiu elevar o seu
número a cerca de Trezentos."
Existe
a versão de que a Insurreição de Queimado foi um Movimento simples, pacífico
e que não teria havido o referido "levante." Todavia o escritor
Afonso Cláudio no livro "A Insurreição do Queimado", mostra que
realmente houve uma revolta, uma Insurreição.
VÍTIMAS
DA REVOLTA
Comprova-se
que houve o confronto e feridos dos dois lados. Uma das vítimas da Insurreição
foi Francisco Roriz, ferido pelos negros com 17 caroços de chumbo, nas matas de
Taiobaia. Outra vítima foi o próprio comandante das Forças Policiais, Alferes
Varella.
O
Presidente da Província, cargo que hoje corresponde ao de Governador de Estado,
de imediato mandou a Queimado o Chefe de Polícia, José Inácio Acioli de
Vasconcellos, acompanhando de uma força policial de vinte praças da Companhia
Fixa de Caçadores, que representava a Polícia da época. Comandando os
Policiais, denominados "Forças Legalistas", o Alferes, José Cesário
Varella de França.
Os
legalistas chegaram ao Queimado no dia 20 de Março. Prenderam Frei Gregório e
trataram de dar combate aos revoltosos, passando aos poucos a ter o domínio da
situação.
MORTES
As
notícias chegadas em Vitória eram de que os negros, além de estarem
promovendo desordens, estavam bastante municiados e atirando em todos que se
colocavam em seus caminhos.
Num
dos combates, fica ferido o Comandante dos Policiais, José Varella. Tal fato
irrita os Policiais e batedores do mato, que passam a matar todos os negros que
encontravam no caminho, tomando-os como revoltosos.
Escravos
encontrados na ladeira que desce para Aroaba, região perto do Queimado, foram
todos mortos.
Ao
final o Chefe de Polícia Accioli informa, no dia 23 de março de 1849, que
conseguiu encontrar 11 escravos, entre os quais um dos líderes da Insurreição,
Elisiário, escravo do fazendeiro Faustino Antônio de Alvarenga. A Insurreição
que começou no dia 19, estava terminando com a prisão de Elisiário, cinco
dias depois. Todavia havia ainda negros foragidos espalhados pela região, tendo
a Polícia continuado as buscas por mais alguns dias.
PERSEGUIÇÃO
Preocupado,
o Presidente da Província, Siqueira envia ao Queimado mais Policiais sob o
Comando de Manoel Vieira da Vitória, ordenando ao Capitão Antônio das Neves
Teixeira Pinto, Delegado da Vila da Serra, que passasse a perseguir os
fugitivos.
Documentos
esclarecem ainda que os habitantes do Queimado, Mangaraí e Serra auxiliaram as
autoridades na captura dos negros.
Pela
crueldade com que tratou os escravos negros, arrastando-os pelo chão por léguas
e léguas, o Delegado da Vila da Serra, Capitão Antônio das Neves acabou
recebendo elogios pela maneira como se conduzira.
O
Governo Imperial, atendendo a solicitação feita, acabou mandando o vapor
"Paquete do Sul" que, no dia 30 de março aportou em Vitória trazendo
um reforço de 31 soldados comandados por um Oficial. Dias depois regressava o
vapor à Corte, levando a notícia da vitória dos legalistas.
O
escritor José Teixeira Leite informa que a caça aos negros foi "cruel e
selvagem" e levada a efeito "por impiedosos batedores do mato."
Esta informação consta da página 332, do livro "História do Estado do
Espírito Santo - edição de 1975."
CADEIA
E JULGAMENTO
Os
escravos presos foram recolhidos na Cadeia Pública de Vitória. Lá chegaram a
passar fome, segundo relato do Carcereiro da Cadeia, Joaquim José dos Prazeres.
Manoel,
escravo do Capitão Paulo Coutinho Mascarenhas morreu na Cadeia por estar
gravemente ferido e em razão "dos horrores de uma viagem forçada desde o
Queimado."
No
dia 31 de maio de 1849 foi realizado o Julgamento dos escravos revoltosos, sob a
presidência de José Inácio Acioli de Vasconcelos que além de Chefe de Polícia
era o Juiz. A Acusação esteve a cargo de Manoel Morais Coutinho, promotor público
e a defesa coube ao padre João Clímaco de Alvarenga Rangel. Como escrivão
atuou no Julgamento, Manoel Gonçalves de Araújo.
Durante
três dias o processo foi debatido e no final a sentença estabeleceu:
"Seis
escravos foram absolvidos. Cinco condenados à morte e os demais, num total de
25, condenados a açoites."
FUGA
MILAGROSA
No
dia 7 de dezembro de 1849, cinco presos conseguiram fugir da prisão. O
carcereiro de repente "foi acometido de um sono profundo, esquecendo aberta
a porta da cela dos negros."
Na
prisão não foi encontrado vestígio de arrombamento e logo, a fuga foi atribuída
a milagre de Nossa Senhora da Penha, uma vez que segundo o escritor José
Paulino:
"Havia
três noites que Elisiário obrigava os companheiros de prisão a rezar."
Na
terceira noite, quando rezavam à Nossa Senhora da Penha:
"A
porta da prisão miraculosamente se abriu."
Na
verdade o carcereiro Joaquim dos Prazeres ficou com pena dos negros e os soltou,
tendo sido preso e confessado que soltara os negros pois eles estavam sendo
maltratados e sofriam passando até fome na prisão.
Os
fugitivos eram:
Eduardo
Pinto de Vasconcelos; Manoel Matos; Elisiário; João, o Pequeno; Carlos, o
escravo do Dr. João Clímaco.
Não
consta terem sido recapturados os Negros fugitivos, que fugiram para as mata do
Mestre Álvaro e do Mochuara e alguns chegaram a construir um quilombo na região
de Cariacica conhecida hoje como Piranema.
Elisiário
tornou-se uma lenda para os negros que almejavam a liberdade, sendo cognominado
o Zumbi da Serra, numa alusão ao herói Zumbi dos Palmares.
Fim do Texto do Escritor Clério José Borges, autor do Livro HISTÓRIA DA SERRA.